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Revolução russa: Há cem anos nasceu via para nova ordem social -- investigador

Logótipo de O Jogo O Jogo 22/10/2017 Administrator

Lisboa, out (Lusa) -- O historiador João Madeira defendeu hoje que a Revolução Russa de outubro de 1917 representou o esforço de construção da igualdade e foi o grande acontecimento do século XX que abalou o mundo ao propor uma nova ordem social.

"Representou o esforço para a construção do terceiro pilar da Revolução Francesa que ficou por cumprir, o pilar da igualdade num tempo de forte polarização social, com o desenvolvimento do capitalismo, a concentração fabril e o desenvolvimento do proletariado industrial", assinalou, numa referência à tomada do poder pelos bolcheviques em 25 de outubro de 1917 (07 de novembro no calendário atual).

Em entrevista à Lusa, o investigador do Instituto de História Contemporânea (IHC) da Faculdade de Ciências sociais e humanas da Universidade Nova de Lisboa, com trabalhos de investigação nas áreas da História dos comunismos em Portugal, Oposições ao Estado Novo ou na História do movimento operário em Portugal, considera que o exemplo triunfante da Rússia demonstrou que a revolução social também poderia ocorrer num país de capitalismo atrasado.

"Produziu o mais longo, o mais intenso e o mais extenso movimento revolucionário que entusiasmou e se expandiu pelo mundo em diferentes vagas", através de um processo de "diferenciação profunda no movimento operário e socialista internacional" que culminará na fundação da III Internacional em 1919, sustenta João Madeira.

"Por essa via, consagrou para os seus seguidores um exemplo de validade universal, escorado no princípio da fidelidade absoluta à Rússia soviética".

A conjuntura da I Guerra Mundial e os seus efeitos na Rússia são apontados como decisivos para o triunfo bolchevique, em particular quando o governo provisório, no poder após a revolução de fevereiro de 1917 que força a abdicação do czar -- e liderado pelo menchevique Alexander Kerensky entre julho e novembro de 1917 --, decide não romper os acordos internacionais e impedir o regresso dos soldados da frente de batalha.

A interpretação pelo partido de Lenine das "necessidades, expectativas e anseios" do povo russo (paz, pão, terra) e a afirmação da capacidade de intervenção política dos bolcheviques "através de um instrumento orgânico inovador e fundamental, o modelo leninista de partido", foram ainda aspetos sublinhados pelo académico.

"Há ainda uma quarta ordem de fatores que se sintetiza na audácia dos próprios bolcheviques e que, de algum modo, se traduzia nas famosas "Teses de Abril" de Lenine, de nenhum apoio ao governo provisório e nenhuma concessão ao defensismo revolucionário".

A Rússia desses dias que "abalaram o mundo", como refere o historiador ao recuperar o título do famoso livro do jornalista e escritor norte-americano John Reed, caracterizava-se por uma "dualidade de poderes" que também foi determinante para a legitimação da revolução.

"Ao isolamento e esvaziamento progressivo do governo provisório opunha-se o poder dos Sovietes, dos concelhos dos operários, dos marinheiros, dos camponeses, dos soldados. É isto que faz da Revolução Russa um processo historicamente contextualizado. Um processo social e politicamente enraizado e que nada tem a ver com certas explicações e interpretações que veem a Revolução russa como um golpe de Estado de Lenine e dos seus companheiros".

A Revolução de Outubro surge assim como um "corolário de um conjunto de processos revolucionários que se aceleram a partir da revolução de fevereiro "e com todos os antecedentes que remontam inclusivamente à própria revolução de 1905, que é (...) considerada um ensaio geral da Revolução de Outubro".

No rescaldo deste processo revolucionário, e na sequência de uma "segunda vaga de revoluções, e de movimentos de libertação antifascistas" que surgem na conjuntura da II Guerra Mundial e no pós-guerra no campo do designado "socialismo real", o historiador refere-se a uma realidade que deixou de existir.

"O exercício do poder na União Soviética [fundada em 1922], fundamentalmente após a morte de Lenine em 1924, e o longo consulado de Estaline representaram objetivamente o triunfo da burocracia no funcionamento do partido, o afastamento, a expulsão e mesmo o assassinato das oposições internas, as duas grandes vagas de terror nos anos 30 e no início dos anos 50", indica.

Apesar da degenerescência política na URSS, também assinalada por violentas políticas económicas e o fim da perspetiva de um processo revolucionário à escala internacional, o historiador considera que neste centenário também se celebra uma "utopia de raiz milenar" que se continua a projetar no seu exemplo.

"Trata-se de uma experiência historicamente sistematizada que continua a oferecer-nos hoje toda a sorte de ensinamentos, de experiências, de lições, num mundo profundamente mudado, mas não é por isso que a Revolução russa deixa de constituir um grande exemplo, inicial, original, de uma via, de um anseio que foi viável para uma nova ordem social e política baseada na igualdade, na solidariedade e na liberdade", argumenta.

E conclui: "Tudo isso é a riqueza do processo e aquilo que nós hoje devemos sistematizar, não perdendo de vista o que é essencial neste acontecimento, decisivo em termos de História do século XX".

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