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São os espetadores que fazem "O Ato da Primavera" no palco do Teatro D. Maria II

Logótipo de O Jogo O Jogo 17/10/2017 Administrator

O público transforma-se em intérprete, sem ensaios nem conhecimento dos textos, em "O Ato da Primavera", que Lígia Soares dirige no Teatro D. Maria, em Lisboa, com o objetivo de obter "mais ganhos do que perdas", em termos dramatúrgicos.

"O Ato da Primavera", título que Lígia Soares tomou do cinema de Manoel de Oliveira, como ponto de partida, reúne sete peças e textos atuais, de diferentes autores, nas quais a encenadora "subjuga" os espetadores ativos à pressão das tecnologias e fomenta a imprevisibilidade.

O projeto, que partiu da "necessidade de deslocar o público do seu habitat natural", dando às pessoas a possibilidade de interagirem com telepontos e monitores - ao mesmo tempo que dão voz e interpretam o texto que figura nos dispositivos - fornece, no cômputo geral, mais ganhos do que perdas, como afirmou a encenadora, hoje, na apresentação da obra.

"Ganha-se o risco [de o espetáculo] não correr bem", o que "é sempre uma coisa interessante num dispositivo teatral", numa altura em que o campo da representação está "dependente de uma eficiência absoluta", diz Lígia Soares, que procura evitar esse "obstáculo a uma vivência direta" da obra.

Assim, "O Ato da Primavera" prevê uma série de situações "que foram preparadas para serem representativas, (...) brincadas [e] interpretadas", disse Lígia Soares, aquando do ensaio de imprensa, de três das sete peças que compõem o espetáculo, realizado hoje à tarde, em Lisboa.

No fundo, quando lidas pelos espetadores - sem quaisquer ensaios prévios - as peças pretendem levá-los a abdicar do controlo subjacente a algo que "já tem uma história [ou] um conhecimento (...) profundo".

Como tal, a ênfase é colocada na "escrita como uma coisa que ainda é vista", recorrendo ao auxílio de telepontos - dispostos a olho nu dentro de um cenário minimalista - que desvendam o diálogo "a ser descoberto enquanto é lido".

Desta forma, a coreógrafa e encenadora dá prevalência à "qualidade elevada dos textos" e abdica de "questões profissionais", como "o trabalho de atores", optando por transformar o palco do Salão Nobre numa atmosfera íntima, sem desresponsabilizar o seu público-ator - neste caso na forma de jornalistas que emprestaram a sua voz às peças "Sou eu", do escritor Nuno Moura, "Forty Love", do ator Ricardo Vaz Trindade, e "não costumo falar contigo", do autor Miguel Castro Caldas.

Além da imprevisibilidade e das palavras, a música é também um ingrediente estruturante: "(...) foi a criação em termos de dramaturgia ou de encenação (...) mais profunda", fornecendo a solução para as limitações de espaço onde a ação se desenrola que, por sua vez, fez a "banda sonora [ganhar uma] relação muito próxima com as vozes que imaginamos que vão existir".

Esta permitiu criar "uma obra [musical] para cada peça", aliando-se aos diálogos de textos originais para singularizar as representações - "consegue (...) ir ao cerne [,] ao ambiente e trazer todo um mundo (...) exterior às falas [e] interpretá-lo", graças ao trabalho do diretor musical, João Lucas.

O enquadramento das sete peças provém da obra do cineasta Manoel de Oliveira, que lhes dá o título geral e as premissas iniciais, retiradas do seu documentário "O Ato da Primavera" (1962), focado numa "atividade que inclui toda a comunidade (...), 'A Paixão de Cristo'".

Para Lígia Soares, este episódio de natureza religiosa "inspira esse lado de como levar o teatro a uma experiência comum (...) não de homogeneizar a cultura, mas sim de mostrar como ela é diversa", por via de textos atuais e desconhecidos do grande público, que fomentam um "lado ativo nestas experiências", com as pessoas a "darem corpo" à mensagem que Manuel de Oliveira quer passar.

O conjunto de sete peças apresentadas no TNDM assume-se, ainda, como uma extensão de uma experiência baseada num conceito original, com a apresentação de um texto da própria coordenadora artística, na Culturgest, em 2012 - "dentro de uma galeria [onde] não havia público" -, contando com os visitantes para desempenharem o papel de intervenientes.

A iniciativa será apresentada no âmbito do "Voz alta - Festival de Leituras", esta semana, entre quinta-feira e sábado, com representações em especial para os estudantes do ensino secundário, que marcarem presença.

De acordo com a programação do Teatro D. Maria II, na sua página na internet, "O Ato da Primavera" tem previstas sessões no Salão Nobre para o público em geral nos dias 21 e 28 de outubro, e 04 e 11 de novembro, às 16:30; para as escolas secundárias, as sessões decorrerão até 10 de novembro, às 11:00 e às 15:00.

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