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Sociolinguista aponta obstáculos à ascensão de portugueses na política luxemburguesa

Logótipo de O Jogo O Jogo 22/10/2017 Administrator

Luxemburgo, 22 de out (Lusa) - O multilinguismo no Luxemburgo pode constituir um obstáculo para os imigrantes portugueses, impedindo-os de chegar a cargos de topo na política, sustenta o sociolinguista luxemburguês Fernand Fehlen.

A Lusa questionou o sociolinguista sobre o caso de um português que venceu eleições municipais, de dia 08 de outubro, mas recusou o cargo de burgomestre, invocando dificuldades com a língua luxemburguesa e o facto de só ter a quarta classe.

Em resposta, enviada esta semana por correio eletrónico, o sociolinguista luxemburguês admitiu que há "um 'teto de vidro'" na política que dificulta o acesso dos imigrantes aos mais altos cargos.

Fernand Fehlen apontou as dificuldades com o luxemburguês, a língua habitual nos órgãos executivos das autarquias.

"Poucas pessoas sabem que a lei que instituiu o direito de voto para os estrangeiros nas eleições municipais, em 1995, inclui uma regulamentação sobre as línguas no Conselho Municipal", que prevê o luxemburguês como "língua habitual", sendo os restantes idiomas oficiais permitidos.

Para Fernand Fehlen, trata-se de uma "'válvula de segurança' linguística" que pode funcionar como um obstáculo à participação política dos imigrantes, especialmente os da primeira geração.

O Luxemburgo tem três idiomas oficiais francês, alemão e luxemburguês, um dialeto declarado língua nacional em 1984.

Esse multilinguismo faz com que os imigrantes tenham "mais dificuldades para se integrar linguisticamente no Luxemburgo que num país monolingue", explicou o sociolinguista, confrontando a situação com o caso dos portugueses em França, onde "são obrigados a aprender imediatamente o francês".

Já no Luxemburgo, "o recém-chegado tem de fazer uma escolha em relação à língua que vai aprender, e será, pela utilidade económica, provavelmente o francês", o idioma mais falado no país, explicou Fehlen, autor de vários estudos sobre o peso do trilinguismo no sucesso escolar, social e profissional dos imigrantes.

Esta situação terá conduzido muitos portugueses a não aprenderem luxemburguês quando chegaram ao Luxemburgo, nos anos 1960 e 1970, até porque nessa altura o idioma não beneficiava do estatuto social que conquistou em anos mais recentes, apontou o sociolinguista.

"Pode viver-se no Luxemburgo sem falar luxemburguês, pode mesmo ser-se bem sucedido em numerosas áreas sem falar luxemburguês ou falando muito pouco", disse Fehlen.

No entanto, noutras áreas, como no ensino, na vida política ou na função pública, "é preciso dominar os três idiomas do país" e "saber quando e como utilizá-los", explicou.

José Vaz do Rio, o português que ganhou eleições municipais em 08 de outubro mas abdicou do cargo de burgomestre, estudou luxemburguês em cursos noturnos durante seis anos, mas invocou "dificuldades" com o idioma para renunciar ao cargo, alegando também que só tinha "a quarta classe".

O sociolinguista defendeu que neste caso as dificuldades linguísticas não são o único obstáculo a ter em conta, apontando também barreiras à ascensão social de trabalhadores não qualificados.

"O ideal da nossa democracia é que cada cidadão tenha as mesmas oportunidades para participar na vida política. Ora, todos os estudos demonstram que, apesar dos direitos reconhecidos formalmente a todos, a participação na vida política exige uma determinada competência que varia fortemente em função do nível de instrução e da posição na sociedade", sublinhou.

Por essa razão, Fernand Fehlen considerou "uma verdadeira proeza" que "um operário tenha obtido o melhor resultado na sua autarquia", recordando que nas últimas eleições legislativas, em 2013, havia apenas três operários entre 560 candidatos.

O sociolinguista defendeu ainda que a "integração não se faz numa só geração" e que os casos de sucesso na política luxemburguesa vêm geralmente da segunda geração de imigrantes.

A título de exemplo, apontou o atual ministro da Justiça do Luxemburgo, Félix Braz, filho de imigrantes algarvios, e também Natalie Silva, autarca de origem cabo-verdiana que venceu as eleições municipais em Larochette, considerada a localidade mais portuguesa do Luxemburgo.

José Vaz do Rio foi o candidato mais votado nas eleições municipais na pequena localidade de Bettendorf, um feito histórico para os portugueses no Luxemburgo, mas decidiu renunciar ao cargo por receio de não estar à altura.

O imigrante anunciou em 10 de outubro que assumiria o segundo lugar no executivo camarário, o de primeiro vereador.

Natural de Raíz do Monte, Vila Pouca de Aguiar, o português, que tem dupla nacionalidade, chegou ao Luxemburgo em 1979 e está reformado há quatro anos, depois de ter trabalhado na fábrica de pneus da Goodyear.

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