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"Ubu rei", uma comédia com função crítica no Museu do Carmo em Lisboa

Logótipo de O Jogo O Jogo 30/07/2017 Administrator

Uma "alta comédia, com uma função crítica" é como o encenador António Pires define a peça "Ubu rei" que o Teatro do Bairro estreia, na quinta-feira, no Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa.

Uma peça que que o encenador escolheu por considerar que se coaduna muito bem com o museu, "um espaço fragmentário que tem muito a ver com o movimento artístico de que este texto do dramaturgo francês Alfred Jarry (1873-1907) é precursor", mas também porque lhe permitiu "fazer a caricatura de um ditador", explicou António Pires à agência Lusa.

Quando escolheu fazer "Ubu rei", António Pires nunca pensou que seria uma peça "tão atual, tão pertinente na comparação com o que se passa no mundo".

"Com o [Donald] Trump, por exemplo, ou com outros ditadores que neste momento estão a aparecer cada vez mais, ou, se existiam, pelo menos agora estão mais nítidos, mais sem vergonha e a fazerem as coisas como o rei Ubu", referiu, sublinhando ter escolhido a peça ainda antes da eleição do atual presidente dos Estados Unidos da América, em novembro de 2016.

A escolha passou antes por caricaturar uma pessoa com poder, "que ganha o poder por um truque, por um golpe de esperteza, digamos assim, e que depois, quando chega ao poder, começa por matar os nobres, depois mata as pessoas das finanças, e depois mata os juízes, e depois despede os juízes, passa ele a fazer as leis. Até que chega ao povo que o elegeu e acaba por cobrar tanto imposto ao povo que há uma revolta", sublinhou.

No entanto, o encenador, que é também um dos diretores do Teatro do Bairro, advertiu que não é apenas o ditador que lidera os EUA que o público pode rever na peça.

"O Trump é o mais direto, mas há outros", adiantou, escusando-se, todavia, a enunciá-los, preferindo que seja o espectador a descobri-los.

"Ubu rei" é uma peça escrita por Alfred Jarry quando adolescente. O autor francês, também com obra de poesia, é considerado o pai da "patafísica", definida como a ciência das soluções imaginárias que usa o cómico para desconstruir o real reconstruindo-o no absurdo - e um dos inspiradores do surrealismo, quando era adolescente.

Em 1888, Alfred Jarry e seus colegas de escola parodiavam o aspeto grotesco e boçal do professor de física, ridicularizando-o, o que deu origem à peça, segundo uma nota do Teatro do Bairro. A peça inicial terá, contudo, sido reelaborada pelo autor, tendo estreado apenas em 1896.

Por se tratar de uma comédia de teatro do absurdo, António Pires optou por uma encenação cómica do texto, parodiando não apenas o protagonista como as restantes personagens.

"A forma como [Ubu] exerce o poder é ao mesmo tempo muito cómica, faz com que todos riam, incluindo na contracena, mas na verdade tem consequências gravíssimas na vida dos súbditos", observou.

A peça gira em torno do rei Ubu, do modo como este assassina o rei Venceslau para usurpar o trono da Polónia e na figura monstruosa em que se torna, num texto em que o autor francês pretendeu expor o nível de crueldade e desumanidade e que o ser humano pode chegar a partir de uma mera situação de poder.

Com um elenco de 15 atores, a peça que vai estar em cena no Museu Arqueológico do Carmo até 20 de agosto, com espetáculos de terça-feira a domingo, às 21:30, baseia-se na versão e tradução de Luís Lima e Alexandre O´Neill.

A ação da peça situa-se em "terra nenhuma", "num tempo que é quase a eternidade", já que António Pires prefere "textos livres, sem narrativa, de modo a poder jogar com a imaginação" e assim "criar um mundo absolutamente novo, a partir do nada".

"Ubu rei" é, pois, um trabalho que não destoa do percurso do encenador que, como o próprio admitiu, se centra muito nos ´dadás` [autores ligados ao movimento artístico de vanguarda moderna iniciado na Suíça durante a Primeira Guerra Mundial designado como dadaísmo], em textos não-naturalistas e no teatro do absurdo.

Encenar no Museu Arqueológico do Carmo, ao abrigo de um protocolo entre este organismo e o Teatro do Bairro (uma peça por ano no verão), é também uma forma de o encenador explorar novos espaços, observou.

A interpretação é de Alexandra Rosa, João Barbosa, Mário Sousa e Rafael Fonseca, juntamente com Filipa Louceiro, Joana Flora, João Redondo, Mafalda Berenguer, Margarida Alves de Brito, Maria Vitorino, Mariana Branco de Sousa, Miguel Carvalho Pinto, Renato Terêso, Rita Ramos Mendes e Vera Moura, da Act School.

A conceção cenográfica é de António Pires e do produtor Alexandre Oliveira (codiretor do Teatro do Bairro), o figurino de Dino Alves, a caracterização e direção de produção de Ivan Coletti, o desenho de luz de Rita Louzeiro, a banda sonora de Paulo Abelho, o movimento de Paula Careto e a ilustração de Joana Villaverde.

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