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Vítor Frade é a mente mais brilhante, escreve o New York Times

Logótipo de O Jogo O Jogo 27/04/2017 Alcides Freire

O pai da periodização tática, mentor de Mourinho, Villas-Boas ou Brendan Rodgers, despertou o interesse de um dos maiores jornais do mundo

Frade é apresentado como um dos mais notáveis teóricos do futebol, alguém que recebe visitas de todo o mundo. Uns tentam perceber-lhe a mente, outros procuram um conselho ou querem apenas ouvi-lo falar. Mais do que uma forma de fazer, Frade desenvolveu um modo de pensar e tem seguidores no mundo inteiro. O mais famoso é José Mourinho, mas há outros. André Villas-Boas e Vítor Pereira, mais diretamente pelo tempo que passaram com ele no FC Porto, mas também Leonardo Jardim, do Mónaco, e Marco Silva, agora no Hull City. O jornal fala também de estrangeiros como Brendan Rogers (treinador do Celtic, ex-Liverpool), que conheceu e valorizou as ideias do mestre português quando foi adjunto de Mourinho no Chelsea. Eddie Jones, o treinador australiano da seleção de râguebi de Inglaterra, também é apontado como "um convertido".

De vez em quando, Vítor Frade distribui via email uma espécie de newsletter a quem se interessa pelo trabalho dele. São 542 os subscritores, Mourinho incluído.

Cesarianas e jacarés

À pergunta "o que é a periodização tática", por exemplo, é referido que Frade começa com um discurso sobre a estrutura da célula, passa por cesarianas, pelo local onde os jacarés podem viver no Mississípi, camaleões, mecânica quântica, e termina, horas mais tarde, com uma discussão sobre os princípios da cibernética.

Tudo é relevante para o sistema. A explicação: "Sempre que leio alguma coisa, penso de que forma isso se aplica ao futebol. A periodização baseia-se em tudo, porque é uma tentativa de explicar tudo. O futebol não é um processo linear. Não é uma soma de coisas: se fizeres isto, mais aquilo, conseguirás isto. Ao contrário, o treinador deve considerar todos os aspectos, do indivíduo e da equipa. O futebol não é bidimensional, é multidimensional."

citacaoA conversa com o académico português foi uma viagem alucinante para o autor do texto, uma apropriação apaixonada das palavras do próprio Frade, que tudo explicou, mas pouco foi citado

Frade entende o jogo como um Cubo de Rubik: tudo o que um treinador faz tem uma consequência noutro lugar. Não adianta tentar consertar uma parte; o problema deve ser considerado na totalidade. É por isso que o método dele diz que não deve haver sessões específicas de treino físico, tático ou técnico, nem preparadores físicos ou exercícios de habilidades artificiais, como o meiinho, ou o treino de passe a um toque (base da abordagem de Guardiola). Porque cada aspecto do jogo está interligado, deve ser tratado como tal.

Na periodização, tudo está relacionado com cenários de jogo: não há corrida para aumentar a resistência geral; apenas corrida para construir o tipo exato de resistência que pode ser necessária em determinados momentos. Não treinar passes; treinar apenas o passe que é necessário e quando. O treino nunca é suave, todas as sessões devem ser realizadas tão rápido e tão duro quanto o número de jogadores no campo o permita. Isto não é escrito. Aos jogadores não é dito o que fazer; eles deparam-se com um problema e são incentivados a resolvê-lo por si mesmos. "O que importa é o processo. Eles têm de encontrar as respostas."

O camaleão

A semana de treino é regida por aquilo a que Frade chama morfociclo. Ao longo da época, cada dia é dedicado a um aspecto específico do jogo: terça-feira, por exemplo, pode ser para trabalhar o que fazer em posse, quarta-feira quando não se tem bola, quinta-feira pressão defensiva e por aí adiante. Os exercícios podem variar de semana para semana, de adversário a adversário, mas devem sempre ser projetados para reforçar os princípios orientadores do treinador: a identidade de uma equipa não deve ser comprometida para sufocar um determinado adversário. "Um camaleão muda de cor, mas nunca esquece que é um camaleão", diz Frade.

© Fornecido por O jogo

Importante: a periodização não visa produzir equipas de autómatos. Porque Mourinho é o seguidor de mais alto perfil do sistema de Frade, a periodização tática tem reputação de defensiva. Frade rejeita. Não é adepto de um estilo ou outro. As equipas que admira atualmente - Chelsea, Juventus, Bayern e Nápoles - são aquelas que melhor conhecem as próprias cabeças, aquelas que têm uma ideia e se propõem realizá-la. "Não há futebol atacante ou futebol defensivo. Quando se tem a bola, tem de se pensar sobre o que vai acontecer quando a perder. Quando não se tem, é preciso saber o que fazer quando a recuperar."

O jogo só existe como um todo e o sistema é aplicado conforme a interpretação do mensageiro. Se tal significa a cautela de Mourinho ou o entusiasmo de Villas-Boas, o mentor, não se importa. Não quer ver a sua invenção restrita a uma coisa ou outra.

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