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Justiça a Julie Byrne, num sonho de noite de Verão

Logótipo de Magazine.HD Magazine.HD 17/06/2018 Carolina Ferreira

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Com a chávena de chá que lhe mantinha a voz quente, e ao Teatro da Trindade também, Julie Byrne ofereceu a Lisboa, nesta sua estreia em Portugal, um sonho de noite de Verão.

Num ambiente que não podia ser mais acolhedor, num redondo e íntimo Teatro da Trindade, como avó que relembra memórias do baú, ou amiga que põe uma outra a par das histórias da sua vida, ou talvez até mesmo uma mistura de ambas, Julie Byrne cantou na maioria músicas do seu mais recente álbum Not Even Happiness. Sempre com um amistoso sorriso no final de cada música, seguido de um tímido, suave “Thank you all so much”, era impossível que a audiência não esboçasse outro sorriso de volta. E entre esta troca de olhares, Julie e os seus dois amigos, Dan Bridgwood-Hill no violino e Taryn Black Miller nas teclas, recomeçavam a tocar, passando para a música seguinte, com o que parecia ser o maior dos empenhos.

Mais tarde, enquanto Julie afinava a cordas da guitarra, os restantes instrumentos eram tocados, de modo tão cauteloso que, quando Julie terminou, deixou-se levar pelas melodias que iam ecoando, olhos semicerrados e um canto quase inaudível suspenso na boca.

Foi possível, ao longo do concerto inteiro, presenciar não só uma simplicidade imensa, mas também uma serenidade de admirar. Curioso como uma e outra nos fazem reparar nas pequenas coisas que parecem óbvias. Precisamos tantas vezes que nos lembrem o óbvio, e Julie Byrne fê-lo à sua maneira. Cantava para o público, entre curtos avisos e pequenas notas (mantendo sempre um certo nível de humor), com uma paz de alma e uma alegria no ser. Como quem aprendeu uma lição importante e quisesse partilhá-la. Sem que a dissesse directamente, fê-lo de modo a que quem lá estivesse para ouvir, conseguisse chegar à resposta por si.

“It gets me everytime”, admitiu Julie antes de tornar todo seu - suave, sussurrado e sentido - o cover com que já antes a Nico transfigurara a "These Days" de Jackson Browne. Convidara-nos para cantar com ela, mas o silêncio impunha-se, todo tenso a deixar ressoar cada pequena inflexão, murmúrio ou elevação da voz. O silêncio impôs-se de vez e, alguns segundos depois, cheios só da acumulada emoção vivida, Julie Byrne terminou com um “it says it all, doesn’t it?” Já quando anunciou que se seguiria a "Natural Blue", a plateia entrou, como era de esperar, em convulsão. Para que não falhasse nota alguma, Julie Byrne concentrou-se em afinar de novo a guitarra. Desculpou-a, explicando que era do pai e datava já de 1974: "It doesn't like to travel". Ao contar que a levava para todo o lado, fazia com que, do lugar onde estávamos, nos apercebêssemos da nossa pequenez neste mundo, deixando-nos espantar com a beleza que nele há.

Por duas vezes, Julie Byrne pediu que diminuíssem a luminosidade, “to make it really moody”, tornando tudo propício a que a sua música fosse transmitida como devia e queria que fosse. Primeiro, na mítica "I Live Now As A Singer", única música que a fez pousar a guitarra na chão e as mãos no regaço, para dar todo o lugar à voz e ao mistério cujo limite pudemos entrever, levados pela sua seráfica inquietude. E, depois, durante a "Holiday", com que no encore, à laia de íntima despedida, nos enviou estrada fora acompanhada do seu amor. Não sem antes, contudo, prometer voltar a Lisboa para cantar uma "old one" que um fã lhe pedira e ela confessara precisar primeiro de se lembrar de como a tocar. Ao som dos aplausos finais, “I feel the same way about each one of you”, ria-se Julie Byrne.

Após o concerto, rodeada de amigos igualmente fascinados por este sonho de uma noite de Verão que Julie Byrne nos oferecera, perguntava-lhe, enquanto recebia o seu autógrafo, se Not Even Happiness contava alguma história. Sorriu, não sei se por hábito ou chamada de atenção, e, com a mesma calma com que cantara, respondeu que cada música continha uma história. Eram músicas que escrevera, ao longo de quatro anos, sobre a sua vida, deixando que tirasse as minhas próprias conclusões. Um concerto que proporcionou uma comunhão com a natureza fora de nós e um vislumbre do mistério em nós, mas um incentivo, acima de tudo, para “doing justice to my own”.

Justiça a Julie Byrne, num sonho de noite de Verão

Carolina Ferreira 92
Maria Pacheco de Amorim 90

CLASSIFICAÇÃO FINAL: 91

Um resumo:

Sonho (impressionista) de uma noite de verão com Julie Byrne

Sonho (impressionista) de uma noite de verão com Julie Byrne
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