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Dengaz. "Estou a viver tudo aquilo com que sonhei"

Logótipo de Diário de Notícias Diário de Notícias 17/03/2017 Miguel Judas

Logo à noite, momentos antes de subir ao palco, para finalmente se estrear no Coliseu do Porto, Dengaz vai, como habitualmente, abraçar-se aos seus músicos e agradecer o momento. O ritual repete-se todos os concertos, mas hoje (e amanhã em Lisboa, no regresso ao Coliseu dos Recreios) terá um sabor especial, pois significa o celebrar de um momento único na carreira do rapper lisboeta, transformado, aos 32 anos, num dos artistas do momento em Portugal - estatuto adquirido em 2014, quando editou o terceiro álbum de originais, Para Sempre, no qual se incluíam êxitos como Dizer Que Não (em dueto com Matay) ou Nada Errado (este com António Zambujo) e que em apenas poucas horas chegou ao primeiro lugar da tabela de vendas digitais.

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"Esse abraço serve apenas para nos lembrarmos da sorte que temos, de podermos dar tantos concertos a tocar a música que gostamos", explica o cantor ao DN, momentos antes do último ensaio geral, no Auditório da Igreja de Santa Joana Princesa, em Lisboa, já com a presença do quarteto de cordas e da secção de metais que se vão juntar à Ahya Band nos coliseus. "Um concerto destes implica muito trabalho de todos os envolvidos, mas há uma altura em que temos de ter o discernimento de perceber que já não há muito mais a fazer senão desfrutar do momento. É isso que vou tentar dizer a toda esta gente, antes de começarmos a tocar. O concerto irá variar entre o lado mais power do último disco e o registo mais intimista da versão unplugged, que também resulta muito bem ao vivo", desvenda.

Pelo palco vão também passar convidados como Richie Campell, Agir ou Pedro Tatanka, dos Black Mamba, "amigos que também fizeram parte deste percurso", como os apresenta Dengaz, cuja ligação à cultura hip-hop começa quando tinha apenas 12 anos. "O grafiti foi o que inicialmente me atraiu ao hip-hop, mas quando pela primeira vez ouvi um rap fiquei logo muito entusiasmado, com vontade de também começar a fazer aquilo", recorda. Foi através de um disco dos Bone Thugs-N-Harmony, descoberto por acaso numa loja, que essa vontade foi finalmente materializada, com as primeiras rimas e gravações caseiras. Aos 14 anos, com uns amigos, formou o grupo Dinastia e foi também nessa altura que, pela primeira vez, ouviu uma música sua na rádio. "Apenas queríamos cantar as coisas que nos apetecia ouvir", lembra.

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O rap em português dava então os seus primeiros passos e Dengaz já então sonhava com tudo isto que agora vive. "Temos de ter consciência que foi necessário muita gente, para abrir as portas que nos permitiram chegar aqui. O hip-hop é hoje muito diferente desse movimento inicial, mas isso também é um sinónimo de maturidade e de crescimento do mercado, que hoje já nos permite passar nas rádios, poder tocar nos coliseus ou atuar num festival mais mainstream". Hoje, ao olhar para trás, não tem dúvidas: "O que me está a acontecer foi exatamente aquilo com que sempre sonhei. É muito importante dar valor a isso, porque nem sempre as coisas correram bem e para aqui chegar foi necessário ultrapassar alguns obstáculos".

Não quer ter um visão fechada da música e, portanto, quanto maior for o número de pessoas a que chegar, melhor - "depois, cada um escolhe o que quer ouvir", defende. Já não se surpreende, quando os colegas da filha mais velha, de 4 anos, lhe pedem autógrafos, quando a vai buscar à escola. Admirou-se, isso sim, ao aperceber-se que ela conhecia quase todas as suas canções. "Íamos no carro e ela pedia esta, aquela e cantava tudo, até aquelas que ainda nem saíram", diz orgulhoso. Afinal "é importante perceber que ela gosta da música que o pai faz".

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O rapper Dengaz sobe aos coliseus nos próximos dias © Pedro Rocha / Global Imagens O rapper Dengaz sobe aos coliseus nos próximos dias

Vai ao concerto de Lisboa, claro, e até já pediu ao pai para a deixar subir ao palco, quando cantasse a música que fez para ela, Para Sempre. Adivinha-se sucessora? Dengaz sorri: "Enquanto pai, ficaria de certeza muito mais tranquilo do que os meus pais ficaram, quando cheguei a casa e lhes disse que queria viver da música e ainda por cima do rap". Pais, que "têm muito mais a ver com contas e números" do que com música e só foram convencidos à custa de muito trabalho. "Quando saia para o estúdio, a minha mãe dizia-me sempre que tinha de parar, porque não ia dar em nada. Ficava todo revoltado, mas ao mesmo tempo também me dava uma motivação extra para continuar, para lhes provar o quanto estavam errados", recorda. Pior foi quando desistiu do curso superior de design, para se dedicar a tempo inteiro à música. "Se calhar tenho uma profissão mais incerta que a maior parte dos meus amigos com cursos superiores, mas sinto-me realizado. O importante é passar a mensagem que cada um pode ser feliz a fazer o que gosta, seja rapper ou consultor fiscal". Amanhã, em Lisboa, os pais também estarão no coliseu, tal como as duas filhas, de 2 e 4 anos. "Também por isso vai ser especial, porque o concerto ganha uma carga muito mais emotiva. Tanto para nós, músicos, como para o público, que vai entender de outra forma algumas das minhas canções, inspiradas nos meus pais".

Foi em 2010, que Dengaz começou a carreira em nome próprio, com o disco de estreia Skill, Respeito e Humildade, que o tornou num fenómeno de culto dentro do panorama hip-hop. Seguir-se-ia, dois anos depois, Ahya, um trabalho disponibilizado gratuitamente, na internet, num passo arriscado que deu frutos poucos meses depois, quando se apresentou ao vivo na sala TMN ao Vivo, em Lisboa. "O concerto estava completamente lotado, com o público todo a cantar as minhas músicas do princípio ao fim. Foi a primeira vez que senti realmente que o público conhecia e estava interessado na minha música. É certo que temos indicadores, como as visualizações na internet, mas isso nem sempre se traduz em concertos, que é o que nos permite fazer disto vida".

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