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A crise climática pela lente de um fotógrafo: “A Terra tem um limite”

Logótipo de idealista idealista 19/08/2022 Leonor Santos
O Homem e a Terra © Márcio Pimenta O Homem e a Terra

Da Cordilheira dos Andes à Amazónia. Nos últimos anos, o fotógrafo brasileiro Márcio Pimenta viajou pela América Latina para documentar a relação da sociedade com a sua geografia e a sua própria história, identidade, tradições e manifestações económicas e culturais. Assim nasceu o “Homem e a Terra”, um projeto sobre a crise climática e sobreexploração de recursos, e o seu impacto na paisagem. Em entrevista ao idealista/news, o explorador reflete sobre o futuro da Humanidade e os limites do planeta.

Neste trabalho fotográfico, Márcio Pimenta decidiu documentar como os seres humanos se relacionam com o meio ambiente para obter água, energia e alimentos, e como a nossa relação com a geografia deixou inúmeras paisagens completamente comprometidas. Concluiu desde logo que “não há no planeta um único espaço que não sofra intervenção humana”. “Ainda que seja política, a nossa espécie ocupou todos os espaços”, refere.

Depois de ter viajado por tantos locais, e de ter sido confrontado com tantas realidades diferentes, a Márcio Pimenta preocupa-o a ausência de reflexão sobre que estilo de vida será possível para as futuras gerações e que futuro queremos, afinal, para a Humanidade. Para o fotógrafo brasileiro “tornámo-nos escravos de um estilo de vida (...) vivemos em espaços cada vez menores”, com a sensação de estarmos presos. Acredita que “precisamos de espaços, de áreas naturais”, “de devolver o contacto com o meio natural, tocar a terra”, mas lembra que “a internet, o metaverso, NFT, e tudo isso” nos está a levar no sentido oposto: “Estamos a afastar-nos cada vez mais do meio ambiente e de nós mesmos”, diz.

Duas fotografias do projeto “O Homem e a Terra” de Márcio Pimenta, cuja entrevista agora reproduzimos na íntegra, foram selecionadas para a Bienal Internacional de Arte de Cerveira, a mais antiga da Península Ibérica, a decorrer até 31 de dezembro. Nesta bienal, os artistas e o público em geral são desafiados a pensar o mundo e as emergências globais que a todos afetam, sob o lema “We must take action/ Devemos Agir!”.

São Paulo, Brasil © Márcio Pimenta São Paulo, Brasil

Tendo por base a atual emergência climática, como é que surgiu a ideia para este projeto?

Este projeto começou em 2018, após eu visitar a Antártida a convite do governo do Chile para documentar o trabalho de cientistas que investigavam os impactos das mudanças climáticas no continente gelado. Na época eu também estava a ler “O Homem e a Terra”, do geógrafo francês Eric Dardel - que estava muito à frente do seu tempo - e nos traz uma reflexão filosófica profunda sobre a relação Homem - Terra. Ele simplesmente nos mostrou como não havia separação entre o sujeito e o objeto num transcurso fenomenológico. Foi um avanço de pensamento fantástico e ignorado por décadas. E então temos a transformação da paisagem. Hoje, não há no planeta um único espaço que não sofra intervenção humana. Ainda que seja política, a nossa espécie ocupou todos os espaços.

Hoje, não há no planeta um único espaço que não sofra intervenção humana. Ainda que seja política, a nossa espécie ocupou todos os espaços.

Há muitas paisagens e recursos ameaçados. Qual é o grande objetivo desta documentação fotográfica? Sensibilizar para os perigos da intervenção destruidora?

O problema é o excesso. Obter recursos da Terra é essencial para a vida. E aqui incluo todos as espécies de animais, o Homosapiens entre eles. Sem os recursos seria impossível a vida. Mas gostamos de encontrar “vilões” a quem atribuir a culpa: combustíveis fósseis, plásticos, desflorestação, etc. Mas sem estes “vilões” não teríamos as soluções que trouxe a Humanidade até aqui. Agora achamos que o lítio é o nosso presente e futuro, até que amanhã será o novo vilão. Mas que tal se pudéssemos dizer: chega! Precisamos de limites! A nossas metas mudariam e iríamos dar prioridade à qualidade de vida e não o crescimento.

Visitou inúmeros lugares... Quais? Pode dar exemplos?

Escolhi começar este projeto na minha própria casa: a América Latina. Viajei para a Cordilheira dos Andes, a Amazónia, o deserto do Atacama, a Mata Atlântica, a belíssima Sierra Nevada de Santa Marta e outros biomas. Lugares que tiveram suas paisagens completamente comprometidas para obtenção destes recursos. Impactando inclusive aqueles que dependem dela.

Houve algum (lugar), em particular, que o tivesse surpreendido?

Quando estava na Cordilheira dos Andes, especificamente no Peru, notei uma grande presença de adultos e poucos jovens e crianças nas comunidades. As famílias que vivem e dependem das águas dos Andes estão a assistir aos seus filhos e netos migrarem para as cidades porque a agricultura no local está cada vez mais difícil. Está a ocorrer uma imigração a conta-gotas. Ela não é dramática visualmente como ocorre com os refugiados de guerra, mas o seu impacto certamente será ainda maior e irá gerar conflitos.

Castanha-do-Brasil (Bertholletia excelsa) a ser abatida no Brasil © Márcio Pimenta Castanha-do-Brasil (Bertholletia excelsa) a ser abatida no Brasil

Numa entrevista recente, disse que as “pessoas não se sensibilizam com temas que estão muito distantes das suas próprias realidades”. Como é que procurou contornar esta questão? Que tipo de imagens podem servir, de facto, de alerta?

Acredito que a imagem precisa de estar em contacto com as experiências das pessoas. Somente desta forma ela poderá gerar empatia e atrair o público para que ele reaja e se comprometa no combate às mudanças climáticas. É preciso entender que para obter os alimentos, água e energia para todos, há um custo muito alto para o meio-ambiente e que mesmo que tenhamos novas fontes de energia, ainda assim o impacto é muito grande. A Terra tem um limite.

É preciso entender que para obter os alimentos, água e energia para todos, há um custo muito alto para o meio-ambiente

Depois de ter viajado por tantos locais, ter sido confrontado com tantas realidades diferentes... a que conclusões/reflexões chegou?

A resposta para esta pergunta está condicionada a uma outra: que futuro queremos para a Humanidade? É compreensível que os ativistas ambientais e os cientistas estejam a lutar para que os países acelerem medidas para combater as mudanças climáticas. E todo este esforço deve ser apoiado. Temos este compromisso com as futuras gerações.

Mas o que me frustra no debate é a ausência de uma reflexão sobre qual estilo de vida será possível para as futuras gerações. Yuval Noah Harari recorda-nos que não há provas que temos uma vida melhor e mais feliz que os caçadores-coletores. Nem mesmo que nos tenhamos tornado mais inteligentes. Ao contrário, temos uma vida menos gratificante. Tornámo-nos escravos de um estilo de vida que desde a Revolução Agrícola tem-se aprofundado cada vez mais. Vivemos em espaços cada vez menores, por exemplo. Os moradores de Nova Iorque, Paris, São Paulo, Beijing, viveram na pele a sensação de estarem presas. Isso contradiz a nossa natureza animal. Precisamos de espaços, precisamos de áreas naturais para que possamos exercer nossos potenciais naturais.

Tornámo-nos escravos de um estilo de vida que desde a Revolução Agrícola tem-se aprofundado cada vez mais. Vivemos em espaços cada vez menores, por exemplo.

Seria importante que nos debates houvesse a preocupação de devolver o tempo e o espaço para as futuras gerações. Que pudessem estar mais com suas famílias, que pudessem dedicar-se a exercícios físicos e mentais. Devolver o contacto com o meio natural, tocar a terra. Esta seria a melhor herança que poderíamos deixar. A qualidade de vida como o bem mais importante. Mas sei que estou na contramão. A internet, o metaverso, NFT e tudo isso que acontece agora mostra que estamos indo exatamente no sentido oposto: estamos a afastar-nos cada vez mais do meio ambiente e de nós mesmos.

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