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“Alguns comportamentos fazem lembrar preocupantemente o pré-2008”, avisa Carlos Tavares

Logótipo de ECO.PT ECO.PT 12/09/2018 Rafaela Burd Relvas
Onde estava quando o Lehman Brothers faliu? Carlos Tavares: © Fornecido por ECO - Economia Online © Swipe News, SA © Fornecido por ECO - Economia Online "Nacionalismos podem dar origem a uma nova crise". E a Europa pode não estar preparada, diz Carlos Moedas © Swipe News, SA "Nacionalismos podem dar origem a uma nova crise". E a Europa pode não estar preparada, diz Carlos Moedas

Onde estava quando o Lehman Brothers faliu? “Algures no Norte”, a celebrar o aniversário da sua filha. Carlos Tavares era então o presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e foi obrigado a interromper a celebração com telefonemas para os colegas do regulador da bolsa. Os dias que se seguiram foram de “intenso trabalho de avaliação dos possíveis impactos” da crise que acabava de eclodir nos Estados Unidos e cujos efeitos não tardariam a chegar à Europa. Passaram-se dez anos e Carlos Tavares vê semelhanças “preocupantes” entre os comportamentos tidos hoje e aqueles que antecederam a crise de 2008. “Receio que as lições não tenham sido plenamente apreendidas”, vaticina.

Agora à frente do Caixa Económica Montepio Geral (CEMG), Carlos Tavares recorda este “dramático acontecimento” como um evento que, no princípio, chegou a ser visto como uma crise “circunscrita aos Estados Unidos Unidos”, sendo, aliás, “denominada simplesmente como crise do subprime”.O tempo veio provar o contrário. “A falência de um banco global como o Lehman Brothers veio demonstrar definitivamente que estávamos já no meio de uma crise financeira de enormes proporções e que se estendia ao sistema financeiro mundial”.

Apesar do impacto global, “os efeitos diretos sobre o mercado português acabaram por ser limitados”, considera Carlos Tavares. Na verdade, quando a crise chegou de facto a Portugal, as causas foram outras. “Os problemas que surgiram deveram-se mais a erros específicos de algumas instituições financeiras nacionais do que aos efeitos diretos da crise financeira internacional. Esta veio sobretudo acelerar as consequências desses erros”, defende o banqueiro.

É essa, aliás, a maior lição que retira deste colapso financeiro: “Os comportamentos errados nas instituições financeiras — como a tomada excessiva de riscos, a falta de ética nas relações com clientes e investidores e a má governação — conduzem inevitavelmente a maus resultados, com perdas substanciais para acionistas e clientes dessas instituições, mas também para as economias e, nessa medida para todos os cidadãos”.

A verdade é que, após a queda do Lehman, vários protagonistas da banca nacional foram caindo uns atrás dos outros. Menos de dois meses após a falência do Lehman, em novembro de 2008, o Governo de José Sócrates anunciou a nacionalização do Banco Português de Negócios (BPN), cujas perdas acumuladas rondavam os 700 milhões de euros, das quais mais de metade estavam associadas a operações offshore. No ano seguinte, caía o Banco Privado Português (BPP), mais um banco onde houve práticas de gestão fraudulenta. Em agosto de 2014, nova falência, desta vez a do Banco Espírito Santo (BES), o maior banco português a desaparecer, naquele que é agora um dos maiores casos de corrupção investigados pela justiça portuguesa. Um ano depois, caía o Banif, que acabou por ser integrado no Santander Totta. Com ou sem o contributo da crise financeira mundial para acelerar a queda destas instituições, certo é que, em todos estes casos, à exceção do Banif (que não é alvo de investigações), há indícios de gestão danosa por parte dos responsáveis à frente dos bancos.

Mesmo assim, na perspetiva de Carlos Tavares, não há necessariamente uma mudança significativa nas práticas de gestão. “Infelizmente, pelo que já se tem observado — em que alguns comportamentos fazem lembrar preocupantemente o pré-2008 — receio que as lições não tenham sido plenamente apreendidas“.

"Nacionalismos podem dar origem a uma nova crise". E a Europa pode não estar preparada, diz Carlos Moedas © Swipe News, SA "Nacionalismos podem dar origem a uma nova crise". E a Europa pode não estar preparada, diz Carlos Moedas

A 12 de setembro de 2008, a três dias da queda do Lehman Brothers, em pleno primeiro mandato de maioria absoluta de José Sócrates – que atualmente enfrenta a acusação de corrupção da Operação Marquês – o Jornal de Negócios dava conta de que um terço dos novos empregos criados pelo Governo socialista, à data, estavam no estrangeiro. A legislatura enfrentava a meta de recuperação de 150 mil postos de trabalho.

O Diário de Notícias dava conta de um “assumir de culpa” do ministro socialista Pedro Silva Pereira no atraso da aprovação da lei orgânica da GNR. Depois de Cavaco Silva ter recusado ser responsabilizado por esse mesmo atraso. O mesmo jornal avançava ainda que só no verão já tinham encerrado 13 empresas, colocando no desemprego 657 trabalhadores.

Já o Público escrevia sobre a possibilidade de veto por parte do Chefe de Estado do estatuto dos Açores. Um mês e meio, Cavaco Silva falava ao país sobre as dúvidas que tinha face a este estatuto. No diário, o PR dava uma entrevista em que assumia as preocupações face ao atraso da lei na Assembleia da República. O diário falava ainda nas viagens de avião em saldo: de um a 109 euros, lançadas para combater a quebra após o período de férias.

O Correio da Manhã dava conta do que chamou de “Negócio Ruinoso do BPN” e “Fiasco de 40 milhões” que o na altura Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, teve de resolver com as moedas do Euro 2004.

As principais operações do Lehman Brothers foram prontamente vendidas na sequência da queda do banco em 2008. Em plena madrugada de 17 de setembro, o Barclays anunciou ter fechado a compra do negócio principal do Lehman Brothers nos Estados Unidos por 1,75 mil milhões de dólares. O negócio implicou um pagamento de 250 milhões de dólares em dinheiro e 1,5 mil milhões de dólares pelo arranha-céus em Midtown Manhattan que servia de sede ao banco falido. Com a operação, o Barclays acabou por absorver 72 mil milhões em valores mobiliários e assumiu um passivo de 68 mil milhões, sem incluir os ativos tóxicos que resultaram na falência do Lehman Brothers, como explicava o The Guardian. Mais tarde, o grupo japonês Nomura comprou as operações na região Ásia-Pacífico e, depois, partes do negócio na Europa e Médio Oriente, escrevia o The New York Times. Com estas operações, muitos trabalhadores do falido Lehman mantiveram os seus empregos.

Foi há 10 anos que o Lehman Brothers colapsou. O dia 15 de setembro marca simbolicamente o início da maior crise financeira dos últimos 80 anos. ‘Onde estava quando o Lehman faliu?’ é uma rubrica diária, de 1 a 15 de setembro, onde empresários, banqueiros, políticos, economistas e advogados dizem ao ECO como viveram a queda do banco e o que aprendemos com a crise.

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