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“Há legitimidade para discordar e não renuncio a ela”

Logótipo de ExpressoExpresso 13/02/2018 Filipe Santos Costa

Na primeira entrevista depois das diretas que elegeram Rui Rio, Santana Lopes vinca a divergência em relação à estratégia que chama de “subalternização face ao PS”. Numa conversa no escritório de advocacia onde voltou a estar “em full-time”, Santana considera a opção de Rio “errada” e com “grande risco”, acha importante que o novo líder clarifique exatamente até onde quer ir na aproximação ao PS e garante que não irá abdicar da sua “legitimidade para discordar”.

Quando se candidatou disse que queria uma clarificação. E na noite da derrota disse que conseguiu isso, sobretudo na questão da relação do PSD com o PS. A vitória de Rui Rio legitimou o caminho de reaproximação ao PS?

Sem dúvida. Essa é a questão política mais interessante. Quando me candidatei disse que queria clarificar e acho que este processo contribuiu para isso. Se tivesse sido só o Rui Rio como candidato, as conclusões não seriam as mesmas. Ou, pelo menos, as questões abertas não seriam as mesmas. Não digo feridas, digo questões abertas. Por exemplo, essa da posição perante o PS, a que eu prefiro chamar política de coligações, porque pormos o PS no centro disto tudo é estarmos a tornar o PS o tal partido hegemónico...

Como viu a validação do caminho proposto por Rui Rio?

A uma semana do fim [da campanha interna] percebi que alguma coisa se passava nesse aspeto. É a primeira vez que o PPD-PSD vota uma estratégia de subalternização face ao PS. Admite-o. À cabeça diz: se o PS ganhar, nós vamos viabilizar. Isto nunca aconteceu em 40 anos. Até tenho apreço pelo facto de Rio ter assumido essa estratégia, o que considero corajoso. Eu prefiro pensar que foi corajoso, não quero acreditar que ele tem algum acordo escondido com António Costa. E quando digo ‘não quero acreditar’, não acredito mesmo. Veja, eu até tive um bom relacionamento, enquanto provedor da Santa Casa, com o Governo PS, e percebi que houve pessoas que apostaram em mim a achar que eu se calhar podia fazer esse entendimento melhor do que Rui Rio. Mas não é essa a minha massa.

Vê o PSD a querer ajudar o PS a voltar a terrenos mais moderados, isto é, um PSD que quer resgatar o PS da extrema-esquerda, ou será que o PSD, em vez de ficar completamente arredado do poder, prefere garantir as sobras do exercício do poder?

As duas coisas. É o PSD-partido-do-poder, mas o segundo partido. É o que Sá carneiro chamava ‘situacionismo’.

Há um PSD que convive mal com o facto de estar arredado do poder?

Com certeza que sim. Porque no poder local temos uma posição muito forte, e o poder local, se tem as portas do poder central fechadas, é complicado. Isto não envolve nenhuma censura a quem faz essa opção. Mas naturalmente, à partida, não é o meu caminho, e de muitos — para não dizer todos — que estiveram comigo.

Rio ganhou carta branca para fazer o quê na reaproximação ao PS?

Não está escrito, mas ele disse-o. Há moções ou cartas que exigem essa clarificação agora no congresso. Vamos ver em que medida.

Acha importante essa clarificação?

Acho. Porque não concebo que um líder eleito possa ter outra estratégia que não seja querer que o seu partido ganhe. E acredito que Rui Rio queira isso. Mas tem de explicar como é que fará para ganhar as eleições e o que fará se ganhar. Mas o facto é que aquilo de que mais se falou da parte dele foi o que faz se não ganhar. É algo nunca visto. Aliás, estamos numa situação extraordinária que me tem dado muito que pensar. Este Governo da frente de esquerda representa um marco novo. Disse-se durante décadas que se o PCP estivesse no poder, e o BE, haveria fuga de capitais, não haveria investimento... nada disso aconteceu. Este é um tempo absolutamente novo.

Tudo isso vai a crédito de Costa?

Sem dúvida! A minha dúvida é se Rui Rio foi o primeiro a propor um caminho para adaptação a uma realidade política completamente nova, e se essa adaptação é uma capitulação ou um exercício de inovação fantástico. Não sei...

“Há legitimidade para discordar e não renuncio a ela” © rui duarte silva “Há legitimidade para discordar e não renuncio a ela”

Quando diz que a aproximação ao PS preconizada por Rio não é o seu caminho, isso significa que vai posicionar-se como oposição interna?

Rio ganhou, ganhou. Mas eu não defendo que se pode fundir a água e o azeite. Há aqui realidades políticas diferentes que devem ser assumidas sem que isso signifique estar a fazer a vida negra ao outro. Há uma legitimidade para liderar mas também há uma legitimidade para discordar e não faço tenções de renunciar a ela. Mas há também uma solidariedade entre candidatos que para quem nunca foi é difícil entender. Quando vemos algumas manifestações de um tipo de feudalismo no PSD, em que o rei não é forte, porque se calhar ainda não pode ser, mas depois há uma série de pequenos senhores feudais que querem disputar poder, há uma solidariedade entre candidatos. Eu estou do lado do poder, que tem de ser forte, da liderança. Seja quem for o líder.

Isso significa, por exemplo, que não vai promover ou patrocinar listas alternativas à lista oficial para o Conselho Nacional?

Nem liderar nem promover.

Diz que a subalternização em relação ao PS é o que Sá Carneiro chamava situacionismo. É curioso que Rui Rio tenha apresentado Sá Carneiro como a sua grande inspiração, mas agora faça aquilo que o fundador do PSD combatia...

Vou estabelecer-lhe um paralelismo interessante. O primeiro subscritor do documento do grupo a que Sá Carneiro chamava situacionista, que era as Opções Inadiáveis, era Francisco Pinto Balsemão; o primeiro subscritor da candidatura de Rui Rio é Francisco Pinto Balsemão. E já na altura de Sá Carneiro havia esta questão do PSD partido de centro-esquerda... Na política as coisas são o que são.

Apresentou uma moção muito detalhada, quase um programa eleitoral, ao contrário de Rio que tinha uma moção mais vaga. Rio disse que depois de tomar posse fará o trabalho de construção de um programa eleitoral. Mas o tempo já não é muito até às eleições, pois não?

Sim, ele tem de trabalhar depressa. Não há muito tempo. E vamos ver como será esse tempo político. Eu disse, e continuo convencido, de que esta legislatura não vai até ao fim.

Por desagregação da esquerda?

Pelo menos, esta legislatura não vai até ao fim com esta maioria da frente de esquerda.

Ou seja, pode não haver esquerda para aprovar o Orçamento do Estado (OE) de 2019?

Exatamente. E antes do OE, a pedra de toque é a legislação laboral. É muito sensível para os partidos à esquerda do PS e é muito sensível para os sectores que dão importância ao investimento criador de emprego. Costa está no meio da ponte. Tem de escolher e não sei se isso não levará a uma rutura. A questão aí é saber o que fará o PPD-PSD.

Pode ser o PSD a viabilizar o último OE da legislatura?

Eu defendo que não. Mas à luz da estratégia que foi votada...

Rui Rio tem a obrigação de vencer as legislativas?

Eu não faço aos outros o que não gosto que me façam a mim... Não vou dizer que tem “obrigação”.

Faço a pergunta de outra maneira: se Rio perder terá condições para se manter à frente do PSD?

Depende. Não sei que circunstâncias haverá daqui a um ano. O que acho estranho é que o coordenador do programa [David Justino] tenha vindo dizer que Rio tem direito a ficar se perder, depois de ter dito que ele era o mais bem colocado para ganhar. Há muita contradição no ar.

David Justino até diz que não pode continuar esta ideia de que “quem perde tem de se ir embora, mesmo se a estratégia está certa”. Uma estratégia que perde pode estar certa?

É difícil. O que eu não acho certo é que as pessoas só defendam essa tese quando ganham o partido e não quando outros estão na liderança. Apesar de não estar na liderança, digo: na altura veremos. O meu caminho não é aquele que colheu a maioria, mas isso não significa que eu, querendo manter essa diferença, não vá ajudar.

Assunção Cristas já veio dizer que não há coligação...

Esperta...

... do CDS com o PSD nas europeias. Compreende isso?

Compreendo perfeitamente, acho que do ponto de vista dela faz sentido. O PSD também tem de saber como quer construir este seu novo caminho, num novo ciclo. Achei ainda mais interessante Cristas dizer que Costa pode ter de provar o veneno que deu aos outros, ou seja, ficar em primeiro mas o outro bloco ter a maioria.

É possível, mas seria uma conjugação de resultados estranha.

Muito estranha, até. Mas é possível.

E o que deve fazer o PSD em relação a esta decisão do CDS? Encolher os ombros, ou tentar que o parceiro natural reconsidere?

Apesar de serem próximas, as europeias não são as legislativas, e Cristas só falou das europeias. Eu, no lugar de Rio, não me impressionaria muito com isso. O PSD tem grandes desafios para o ano que vem — Madeira, europeias e legislativas. Mas vamos entrar também num ciclo económico diferente, com a subida das taxas de juro e da inflação, o facto de o BCE deixar de comprar tanta dívida...

Há quem alerte que a estratégia de Rio não só oferece ao PS o centro do sistema partidário como abre espaço ao crescimento do CDS. Concorda?

Concordo. É o grande risco.

Pode o PSD estar mais uma vez a subestimar o CDS e a abrir-lhe caminho, como aconteceu em Lisboa?

Pode, pode. Esta atitude de Rui Rio fez-me lembrar, o que não é estranho, a de Cavaco Silva em 1985, quando se candidata e diz que apoia Freitas do Amaral, no que pareceu uma estratégia de capitulação. E houve no PSD a ideia de que o CDS podia crescer. Rio, na prática, tem um pouco a mesma operação mental. Qual é a grande diferença? Cavaco fez isso para as presidenciais, e não para as legislativas, e Cavaco correu o risco em relação ao partido pequeno — que não cresceu. Rio faz isto para as legislativas e corre o risco em relação ao partido grande, o partido rival. Mas há uma atitude que eu até aprecio, porque gosto da política como arte, que é a coragem de dizer aquilo que à partida os militantes não gostariam de ouvir, como Cavaco Silva fez na Figueira. É uma atitude de líder, a estratégia é que é errada.

Rio teve “a força do aparelho”

Santana está a escrever um livro sobre estas diretas e o que elas significam para o PSD. Está a tirar, diz, “conclusões políticas muito interessantes”. E fala sobre a força do aparelho que ajudou Rio a ganhar.

O que é que tem feito desde a noite da derrota?

Voltei ao meu escritório, levantei a suspensão da minha inscrição na Ordem [dos Advogados]. O escritório esteve sempre aberto, eu é que estava cá muito pouco, agora voltei em full-time. E comecei a escrever um livro sobre esta campanha. Há muitas conclusões políticas que se podem tirar, muito interessantes. Os únicos dias que tive de descanso foi um fim de semana em Marraquexe.

Na noite das diretas era evidente que não estava mesmo à espera daquela derrota. O que falhou?

Falharam aquelas que eram consideradas algumas praças-fortes... mas isso são movimentos eleitorais. Isto foi 4% para cá, 4% para lá, mil e tal votos. Essa diferença, na prática, são os últimos indecisos. Como é que eles decidiram? Acho que há um fator importante, uma empresa de sondagens que me deu 50 pontos de diferença [atrás de Rio] desde o primeiro dia. É arrasador. O jornal onde vem essa sondagem [“Correio da Manhã”] está nos cafés todos, e os indecisos muitas vezes vão por aí, por quem vai ganhar.

Quando fala em praças-fortes, refere-se a sindicatos de voto com que contava, mas falharam, ao contrário dos de Rui Rio? Porque, às tantas, você era o candidato-dito-do-aparelho, contra o candidato-que-não-tinha aparelho…

Isso é falso, metade do aparelho, pelo menos, estava com Rui Rio. Ele tinha metade dos presidentes de distritais. Eu, que estava longe desta realidade há anos, posso ter cometido erros de análise; por exemplo, tinha apoio de presidentes de câmara, mas eles são pessoas menos ligadas ao aparelho partidário...

Em muitos casos em que um presidente da câmara estava do seu lado e o presidente dessa concelhia do lado de Rio, ganhou o presidente da concelhia — o que é que isso diz?

A força do aparelho. A clarificação também é isso. Não vou falar de sindicatos de voto, mas as praças-fortes de Rui Rio não falharam. Boticas! É um fenómeno [Rio teve 97%]. Enquanto aquelas com que eu contava não se comportaram dessa maneira.

Retirou a conclusão de que talvez o seu nome seja uma carta gasta?

Não. Até foi surpreendente.

Faz a leitura contrária, de que 45% é a prova de que Santana Lopes não é uma carta gasta?

Acho que sim. E os 45% têm conteúdo político.

Admite voltar a candidatar-se ao PSD?

Não está previsto...

E as presidenciais?

Essa questão só se porá daqui a oito anos, Marcelo vai fazer um segundo mandato.

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