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Abaixo a hipocrisia do costume!

Logótipo de ExpressoExpresso 13/03/2018 Duarte Marques

O debate público voltou a assumir contornos ridículos, desta feita com a polémica criada em torno do convite do ISCSP a Pedro Passos Coelho para “Professor Catedrático Convidado” da casa, convite normal e recomendável em qualquer democracia moderna e consolidada.

Antes de mais, importa dizer que o ISCSP é uma casa de liberdade. Ao contrário de outras escolas, no ISCSP há professores assumidamente de direita e assumidamente de esquerda. Há professores de direita com assistentes maoístas e assistentes de direita. Há professores assumidamente de esquerda com assistentes de direita e assistentes de esquerda. Numa casa que estuda e ensina a ciência política há liberdade para pensar, para discutir e para confrontar. Na mais antiga casa de “ciência política” do país, é habitual conhecer as tendências ideológicas de professores, mas também de alunos. É até habitual, que o diga o “meu” Professor Adelino Maltez, pedir a alunos de esquerda que em simulações de “laboratório” sustentem e defendam posições de direita e vice-versa. É assim, é uma casa de liberdade, onde o que conta não é a opção ideológica, mas sim a liberdade de dizer o que se pensa, a forma como se defendem as ideias, como se constroem raciocínios e se apresentam soluções.

No ISCSP, felizmente, sempre se cruzou a capacidade científica com a experiência profissional de diversos docentes. No curso de Relações Internacionais foi um privilégio ter aulas de Estratégia e Defesa com Generais, Almirantes e funcionários dos Serviços de Informações que não eram mais do que licenciados. Foi uma grande oportunidade conhecer os meandros dos dossiers e as estratégias da diplomacia portuguesa pela voz de Embaixadores que representaram Portugal nos conflitos e nos debates mais decisivos, como por exemplo nos acordos de Lusaka. Foi de uma grande utilidade ter aulas de Direito Constitucional com antigos Deputados que fizeram parte da Constituinte. Foi útil ter aulas de Economia Internacional e Assistência Técnica com um ex Director Geral de Alfândegas, ou de Economia e Internacionalização de Empresas com professores que trabalharam nas grandes multinacionais. Foi decisivo ter aulas sobre as Nações Unidas com Professores que são hoje dirigentes de topo das ONU e que só recentemente entregaram o doutoramento. Tal como foi muito útil ter aulas sobre políticas europeias, economia política, direito internacional público e privado, ciências sociais, sociologia, entre outros, com excelentes Professores doutorados ou não, mas de carreira académica.

É absolutamente aceitável que se discuta ou coloque em causa o Estatuto da Carreira Docente (ECD) e a moldura que prevê que individualidades possam ser contratadas por instituições de ensino superior. Pode até discutir-se se o “título” ou “designação” que o Estatuto criado pelo ex Ministro socialista Mariano Gago é o mais exato ou adequado à função. Ridículo ou até abjeto é o facto das mesmas pessoas que defendem a todo o custo um ex Primeiro Ministro acusado de corrupção, coloquem agora em causa a escolha, para professor convidado da maior Universidade pública portuguesa, do Primeiro-Ministro que tirou o país da bancarrota, que governou durante quatro anos e que venceu duas eleições legislativas.

Alunos próximos do Bloco de Esquerda e do Partido Socialista decidiram criar um abaixo-assinado na casa, provavelmente incentivados por Professores que também eles iniciaram as suas carreiras na “casa” como convidados de alguém. Ontem, um conjunto de professores de carreira, resolveram também fazer um abaixo-assinado. Alguns dos subscritores discordarão do ECD, das regras em vigor e assinaram. Outros assinam como professores, mas são mais notáveis como dirigentes ou ex deputados do Partido Socialista, do Livre ou do Bloco de Esquerda. Se não é apenas por clubite que o fazem, porque não o fizeram contra António Guterres quando contratado pelo Técnico como catedrático convidado? Ou contra Paulo Macedo que felizmente também está no ISCSP? Ou contra Guilherme Oliveira Martins e Luís Amado? Ou será que também consideram que Adriano Moreira nunca deveria ter sido “Professor” por não ter doutoramento? Ou que Barbosa de Melo também deveria ter sido arredado da Faculdade de Direito de Coimbra por não ter doutoramento?

Olhando para o caso de Pedro Passos Coelho, só penso na sorte que alguns estudantes de Políticas Públicas terão de ter como professor alguém com a experiência única de ter tirado o país da bancarrota e invertido o ciclo de crescimento, após anos de recessão, em apenas 4 anos. Será que esta turba da esquerda tem medo que alguém conte uma história diferente daquela que conta nas suas aulas no ISCTE, na Faculdade de Letras ou na FCSH?

Muitos destes que hoje criticam são provavelmente daqueles que têm as salas quase vazias porque não entusiasmam os alunos. Talvez tenham subido na carreira à custa de algum professor amigo ou graças à proteção de colegas do partido ou da mesma agremiação. Outros estarão ainda revoltados não porque Passos Coelho vai ser professor, mas porque ordenou uma avaliação independente a dezenas de centros de investigação para separar o trigo do joio e garantir o financiamento em função de resultados. Ou ainda outros dos que hoje criticam viverão há muito à conta do Estado com base em teses que jazem debaixo do pó dos arquivos das suas escolas. Alguns serão mesmo daqueles que fecharam os olhos quando se deram equivalências injustas, se promoveram incapazes ou até encobriram favorecimentos. Ou talvez estejam irritados porque Passos Coelho não foi para a Mota-Engil nem para o Santander, não pediu empréstimos para estudar filosofia na Sorbonne nem obrigou amigos a comprar livros falhados. Triste a academia, e principalmente os seus mais destacados dirigentes, que faz abaixo-assinados desta índole, mas que se cala cumplicemente quando o atual governo maltrata os investigadores, persegue os seus representantes sindicais, adia concursos e atrasa pagamentos.

Professores a sério marcam os alunos pela positiva, estimulam a sua capacidade de raciocínio, provocam-nos, colocam-nos à prova e obrigam-nos a pensar. Não têm medo da concorrência nem são populistas. Como dizia o Professor Adriano Moreira, uma licenciatura é sobretudo uma licença para aprender, e nada melhor do que aprender com os melhores e mais experientes.

É verdade que vivemos num período de grande hipocrisia, mas são também estes momentos que permitem separar bem o trigo do joio. O caso em apreço ajudou-nos a separar alguns imbecis de mulheres e homens decentes, com opiniões diferentes e com uma estrutura ética e moral à prova de bala. Falo daqueles como Sérgio Sousa Pinto, Vital Moreira, Manuel Carvalho…e outros que com a mesma dureza que criticaram as escolhas políticas de Passos Coelho defendem hoje a sua legitimidade de dar aulas no ISCSP.

A terminar, não podia deixar de lembrar com preocupação aos “senhores doutores” que assinaram a recente petição dos ditos “professores” que era útil lerem o “Estatuto da Carreira Docente” (em https://fne.pt/uploads/documentos/1433262954_9365_ECDU_versao_consolidada.pdf) para perceberem o conjunto de disparates, erros, omissões e inverdades que mencionam no seu abaixo-assinado cheio de ódio e ressabiamento. Curioso que alguns deles até apoiaram, integraram ou integram bancadas e partidos que votaram favoravelmente a “Lei” que permite a Passos Coelho ser hoje Professor Catedrático Convidado do ISCSP e da Universidade de Lisboa.

Feliz ou infelizmente, a liberdade que conquistámos no 25 de Abril permite tudo, até a ignorância, a hipocrisia e a estupidez. Só lamento que alguns dos mais letrados e “capacitados” sejam os que vivam ainda tanto no preconceito, no sectarismo e na perseguição.

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