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Catalunha: Os factos são teimosos

Logótipo de VisaoVisao 12/10/2017 Mafalda Anjos
Catalunha: Os factos são teimosos © JORGE GUERRERO/ Getty Images Catalunha: Os factos são teimosos

O pior que pode acontecer a um líder é ignorar todas as possibilidades. 
E, em qualquer circunstância, uma das fortes possibilidades que se pode impor é, lamentavelmente para um idealista, a fria e dura realidade. Carles Puigdemont chocou esta semana a alta velocidade contra uma parede de realidade. Teve por isso, para lamento de uma certa esquerda portuguesa quase pueril de revolucionários tardios que pulula por aí, de fazer um salto encarpado à retaguarda, anunciando, num discurso híbrido, que vai declarar a Independência e suspendê-la para abrir o diálogo com Madrid.

A realidade tem muitas formas, e aquela em que embateu este sombrio Puigdemont pinta-se de duas cores, como a bandeira da Catalunha: um referendo cuja legitimidade a comunidade internacional jamais reconhecerá e uma saída em massa de grandes empresas espanholas da região. Sabadell e CaixaBank juntaram-se agora ao Popular e, das sete companhias catalãs que figuravam no IBEX, no dia seguinte ao referendo restavam apenas duas. Os tais 19% do PIB de Espanha que tanto acalentavam os ímpetos independentistas encolheram sobremaneira, e isso é um grande balde de água fria (à atenção da tal esquerda, Lenin diria que “os factos são teimosos”).

Independentemente de tudo o que se pense sobre a forma subalterna com que Espanha tem tratado a Catalunha ao longo dos tempos (embora o seu grau de autonomia seja amplamente reconhecido), Puigdemont padece de um problema de legitimidade óbvio: falar de 90% de apoio à independência, com base num referendo onde só foram votar os apoiantes fervorosos da causa, é grave. Do total de eleitores, apenas 42% compareceram nas urnas – menos de metade. 
É verdade que as revoluções não pedem licença nem cumprem leis ou preceitos constitucionais: resta saber se Puigdemont quer ser um revolucionário na Europa em 2017. Uma coisa é certa: a sociedade espanhola está fatalmente dividida, e as feridas abertas dificilmente se saram pela via do diálogo com estes protagonistas (a inabilidade política 
de Rajoy é inquestionável).

Mas o mais grave de tudo isto é a temível Caixa de Pandora que este movimento abre aos nacionalismos em crescendo na Europa. Mario Vargas Llosa, o prémio Nobel, disse numa manifestação no fim de semana passado que o nacionalismo é “a pior de todas as paixões, e a que causou mais estragos na História”. Podia ter também citado Ortega y Gasset, como fez Inés Arrimadas do Ciudadanos, que falou logo a seguir a Puigdemont no Parlamento, recordando que “o nacionalismo só cresce nos países que não funcionam”. “Se calhar é este o momento de reformar este país” em busca de “um sentido comum”. Parece-me um bom ponto de partida.

Artigo publicado na VISÃO 1284 de 12 de outubro

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