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Partido Vox em Espanha: um voto de protesto ou viragem do eleitorado?

A euronews esteve na Andaluzia, em Espanha, para perceber o sucesso do partido de extrema-direita Vox. A localidade andaluza de Línea de la Concepción, em frente ao estreito de Gibraltar, é conhecida como a porta de entrada do haxixe na Europa. Nos últimos meses, a polícia espanhola intensificou as operações contra os narcotraficantes. "É uma sociedade que não trabalha, vive da venda de droga e do contrabando de tabaco, aqui em La Línea", disse à euronews um polícia espanhol. "Há muito desemprego aqui. Há pouco trabalho. É mais fácil, sobretudo para os jovens, dedicar-se a este tipo de atividade", acrescentou o polícia. Criminalidade, desemprego e proteção das fronteiras são precisamente três dos principais temas de campanha do partido de extrema-direita Vox, que obteve um sucesso inesperado nas eleições regionais, na Andaluzia, em dezembro. A euronews tinha marcado encontro com os representantes do partido em La Línea, mas à última da hora, a direção nacional do Vox proibiu os dirigentes locais do Vox de falar com a comunicação social. A imigração e as minorias A euronews conseguiu registar uma discussão entre uma mulher e uma militante do Vox. A jovem dirigiu-se à militante do partido de extrema-direita e criticou as posições radicais do Vox em relação aos imigrantes e aos homossexuais. A militante do Vox refutou as acusações. "Vou dizer ao meu partido para comunicar melhor, porque, garanto-te que não somos homofóbicos, nem xenófobos", disse a militante espanhola. Face à recusa em prestar declarações dos dirigentes do Vox, a euronews tentou falar com os simpatizantes do partido, nas ruas e nos cafés. Mas foram poucos os que deram a cara. O comerciante José Santiago aceitou falar diante da câmara. "O Vox é um partido diferente dos outros. Esperemos que mude as coisas e que ofereça algo mais que os outros. Veremos se algo muda. Espero que façam algo pelos trabalhadores, pelas pequenas e médias empresas, que façam mais pelos pobres, entre aspas, pela classe humilde", disse José Santiago. "Não entendo nada de política, nem quero entender. Quando pedimos ajuda, quando pedimos algo, nós os espanhóis, não nos dão nada. Não te chega? Também nós temos de imigrar para ter direitos?", questionou uma comerciante de La Línea. A imigração é um tema fundamental para o Vox. A poucos quilómetros de La Línea, o porto de Algeciras é um dos pontos principais de entrada na costa espanhola para quem procura oportunidades de vida na Europa. A euronews tentou falar com um grupo de militantes do Vox em campanha em Algeciras, mas o pedido de entrevista voltou a ser rejeitado. José Antonio Coronil foi uma das poucas pessoas em Algeciras que admitiu abertamente apoiar o Vox. "Sim, eu vou votar no Vox. Porque para mim essa coisa de ajudar as pessoas que vêm de fora e de sermos nós a pagar, a luz e água dessas pessoas de fora, deixa-me furioso. E ninguém ouve as pessoas daqui. Primeiro temos de ajudar os da nossa casa, depois os de fora", afirmou José Antonio Coronil. As comunidades autónomas e a unidade nacional A euronews conseguiu falar com um professor universitário que defende as teses do Vox em relação à identidade territorial. "O Vox disse que é preciso reformar as comunidades autónomas espanholas porque o sistema serviu para criar comunidades de várias categorias. Por que razão o país Basco tem de ter uma carga fiscal diferente da minha? Seria bom que o Estado reassumisse as competências educativas. Porquê? Porque não posso ter 17 histórias diferentes e divergentes, caso seja da Extremadura, andaluz ou catalão. A situação atual pode levar à desintegração da nação se não se tomar o caminho adequado", sublinhou Diego López Bonillo, professor de filosofia, numa universidade espanhola. A unidade nacional é uma questão sensível para muitos dos simpatizantes do Vox, nomeadamente entre as forças da ordem. A euronews esteve em casa de um agente da polícia e da mulher.Os dois entrevistados não quiseram ser identificados, mas aceitaram falar. Desiludido com o Partido Popular, o agente da polícia espanhola deposita as suas esperanças no Vox. "Vejo uma nova janela de esperança, especialmente ao nível da defesa e da unidade territorial e na defesa constitucional. Sobretudo pelos últimos acontecimentos na Catalunha e por tudo o que se passou no País Basco. Agora vejo alguém que defende a unidade do nosso país. Eu sou espanhol, independentemente das minhas ideias políticas, defendo o meu país. Eu amo o meu país. Para mim, é um sentimento. Eu oiço o hino nacional e fico com pele de galinha", afirmou o polícia. A mulher do polícia tem uma opinião diferente. "Há também uma parte da cultura andaluza associada ao homem de antigamente. O macho ibérico, como lhe chamamos aqui em Espanha, representa uma grande percentagem dos votos no Vox. É o homem que idealizou o que tínhamos antes sem conhecê-lo. A grande maioria dos eleitores do Vox não conheceuram a ditadura porque não tem idade para a ter conhecido. Acreditam que o passado foi melhor e votam nesse partido", afirmou a mulher, sob anonimato. A questão de Gibraltar Todos os dias milhares de espanhóis vão trabalhar para Gibraltar, um território que, segundo o Vox, deveria voltar a ser espanhol. O partido de extrema-direita prometeu criar uma zona industrial em la Línea para por fim à dependência face a Gibraltar. "Sinto que o VOX põe em perigo o meu trabalho e o de toda esta zona. Muitos negócios dependem de Gibraltar", disse Eladio Pérez, proprietário de uma oficina de automóveis. Um voto de protesto? "A maioria das coisas que dizem durante a campanha eleitoral são inviáveis e algumas são um pouco ridículas. Penso que muita gente votou no Vox na Andaluzia sem saber exatamente o que ele representa. Foi um voto de protesto. Porque a Andaluzia foi completamente abandonada pelo governo central e pelo governo autónomo. É uma das regiões de Espanha e da Europa com mais desemprego. Por isso, creio e espero que foi por castigo" considerou Eladio Perez. Numa vila onde o desemprego afeta 35 por cento da população, o Vox espera ganhar terreno nas próximas legislativas. No pequeno porto de Atunara, toda a gente partilha o mesmo sentimento de abandono. Expulsos das águas territoriais de Gibraltar, sujeitos às quotas de pesca europeias, os pequenos pescadores afirmam estar arruinados. O pescador Esteban López Salmerón diz que já não espera nada da classe política. "Eu, na verdade, cada vez acredito menos nos políticos, sobretudo nos políticos de hoje em dia. Vieram os socialistas, vieram os populares e nada de nada! Fazem muitas promessas, mas, não cumprem nenhuma. As pessoas estão desiludidas. Penso que nem os próprios políticos do Vox acreditavam que iam chegar onde chegaram. Como se diz, o mal já a gente conhece, pior não pode ser. Vamos experimentar, se não presta, mudamos daqui a quatro anos. Porque estamos fartos de mentiras. Assim não se vai para a frente. Assim não se levanta um país", lamentou o pescador.
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