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InterRail: Dar a volta à Europa com 600 a 1.500 euros no bolso

Logótipo de ECO.PT ECO.PT 12/08/2017 Ana Margarida Oliveira

InterRail: Dar a volta à Europa com 600 a 1.500 euros no bolso

InterRail: Dar a volta à Europa com 600 a 1.500 euros no bolso
© Swipe News, SA

São nove da noite em Santa Apolónia e o movimento é pouco. Um comboio já está parado na linha e a placa informa que, dentro de 25 minutos, estará a caminho de Madrid. Num banco que serve como sala de espera estão sentadas duas irmãs gémeas, a Eleonora e a Aurelia, rodeadas das grandes mochilas que as acompanham desde o início da viagem. Lisboa é a décima e penúltima paragem do seu percurso de InterRail. “Aventura” é a palavra que as gémeas entoam quase em coro para resumir a experiência.

InterRail: Dar a volta à Europa com 600 a 1.500 euros no bolso © Swipe News, SA InterRail: Dar a volta à Europa com 600 a 1.500 euros no bolso

O percurso começou há cerca de um mês em Salzburg, a cidade austríaca de onde Eleonora e Aurelia são oriundas, e acaba dentro de dias em Paris. Por esta altura, já estão habituadas à vida no comboio. Gostam de “não ter de se preocupar com nada” e dos contrastes da paisagem, aqueles que vão observando pela janela enquanto cruzam fronteiras. Têm dificuldade em mover-se com toda a bagagem dentro dos estreitos corredores do comboio. “Temos sempre”, confessam, mas rapidamente encontram o camarote que lhes vai servir de quarto desta vez. As condições dos comboios diferem muito de país para país e há estações onde é mais difícil perceber as linhas. “Em Madrid estivemos três horas a tentar orientar-nos”, contam, mas faz parte e não parecem importar-se. Estão prontas.

Estas gémeas são só um exemplo entre os milhares de jovens que todos os anos se aventuram pelas linhas de comboio, de passe InterRail na mão, para melhor conhecerem a Europa. Em 2016, foram vendidos 257.140 passes por todo o continente, 1850 dos quais foram comprados em Portugal. A larga maioria — 72% — são jovens até aos 26 anos, mas também há várias famílias e adultos acima dos 60 anos a optarem por este tipo de viagem. Os meses de verão, junho, julho e agosto, são o grande pico na corrida aos bilhetes, embora no Natal também se note um aumento, regista a Comboios de Portugal (CP).

A Eleonora e a Aurelia já partiram, com boas recordações de Lisboa, garantem, assim como de todas as cidades. Mas para os leitores que não queiram ficar por esta paragem, o ECO guia-os pelos altos e baixos de três viagens de InterRail completas e muito distintas: o verão de um grupo de cinco rapazes, a viagem de uma rapariga que nos meses de inverno foi sozinha à descoberta e por fim, a iniciativa de uma professora que quis levar os seus alunos pelos caminhos que marcaram a história da Europa.

O André Cavalheiro é um dos cinco rapazes que partiu de mochila às costas no último verão. Diz ter tido a certeza que “em algum momento da vida” este InterRail iria acontecer, dada a popularidade e curiosidade que este tipo de viagem desperta. Acabou por concretizar-se nas férias entre o primeiro e o segundo ano da faculdade, na companhia de quatro amigos do secundário. “Decidimos ir quase um ano antes” conta. Os planos mais a sério começaram cerca de seis meses depois. Existem sites com sugestões de itinerários, mas quiseram fazer um próprio e ter um plano “para estarem descansados”, mas que lhes deixasse margem para o improviso.

Improviso foi o que deu azo a algumas das peripécias que mais marcaram a viagem para o André. Logo na segunda paragem, Amesterdão, o grupo acabou por conhecer a cidade durante a madrugada porque o hostel só lhes abriria as portas nas primeiras horas da manhã seguinte. Quando chegaram a Bled, na Eslovénia, aproveitaram para um pequeno desvio dos carris e meteram-se num carro pelas estradas de um nono país, a Croácia. “Aconselho imenso”, diz o André. “Uns dias em que a tua casa deixa de ser a mochila e passa a ser um carro é um upgrade enorme”, afirma, relembrando o conforto. Em Itália, também foi um desvio à localidade de Asolo que lhes trouxe um dos melhores momentos: foram a um festival onde atuava “a banda do grupo”.

Mas há quem se dê ainda mais ao improviso. A Luísa Palmeira aproveitou os meses que tinha entre o final da licenciatura e o início do mestrado para se lançar à aventura… sem nada marcado à exceção do primeiro hostel, em Amesterdão. O InterRail em fevereiro teve essa vantagem, “tinha sempre vagas para tudo”. Por isso mesmo fazia as marcações quando decidia que estava na altura de mudar de cidade. Para mais, sendo época baixa, os preços eram na generalidade mais baixos. O maior obstáculo? “O frio!”, diz sem hesitações. A roupa mais grossa pesou na mochila e as lojas e atrações fechavam com a noite, que caía cedo. Deixava-lhe poucas alternativas para aproveitar o final do dia. As free walking tours, visitas guiadas gratuitas que existem por toda a Europa e nas quais os guias contam apenas com as gorjetas, foram uma forma fácil e barata de conhecer as cidades e algumas pessoas. Os amigos que foi visitando em cada destino também foram servindo de companhia.

Um cenário totalmente oposto foi o criado pela professora Isabel Vicente. Professora de Português na Escola Secundária de Pombal, distrito de Leiria, já há muitos anos que organiza viagens para os alunos. Este ano, pela segunda vez e com o apoio de quatro professores, levou um grupo de 35 estudantes a percorrerem os mesmos caminhos onde foram transportados judeus na época do holocausto. “Trata-se de uma viagem simbólica mas que desperta consciências”, afirma. Pararam em Paris para visitar o “Mémorial de La Shoa”, na Polónia viram os campos de concentração de Auschwitz e em Berlim passaram pela Porta de Brandemburgo, pelo Muro de Berlim e pelo Memorial aos Judeus Mortos da Europa. Viajar com um grupo muito grande significa ter todos os bilhetes e reservas assegurados de antemão. Os alunos distribuíram-se por seis carruagens e as maiores preocupações foram “não perder as ligações e não perder ninguém”.

Apesar das grandes diferenças que separam as três viagens, todas têm dois aspetos em comum: o passe escolhido — invariavelmente o InterRail Global Pass — e, em larga escala, a escolha das cidades. Vão desta forma ao encontro das estatísticas da CP, que revelam os cinco destinos mais procurados pelos viajantes portugueses — República Checa, Hungria, Eslovénia, Itália e Grécia — sendo o passe global o bilhete dourado em metade dos casos.

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O dinheiro que fica pelo caminho

O InterRail Global Pass permite viajar por 30 países europeus. Os preços diferem consoante o número de dias de viagem de comboio, o período durante o qual estas viagens podem ser utilizadas e as idades dos viajantes. Vão dos 284 euros (cinco dias para um jovem gastar em duas semanas) aos 844 euros (um mês no qual um adulto pode viajar todos os dias). Também existe o InterRail One Country Pass, para quem quiser explorar um único país de uma ponta à outra. Nesta modalidade, os preços variam de país para país, número de dias e também idades.

O André controlou os custos através de uma aplicação para telemóvel que serve para isso mesmo. Apontou tudo. No final, o resultado foi de 1.300 euros, embora alguns dos companheiros de viagem tenham chegado aos 1.500 euros. Os cinco rapazes optaram por poupar em comida e alojamento. “Entre gastar 30 euros numa boa refeição e subir a Torre Eiffel, escolhemos a segunda!”, explica. A Luísa fez as contas ao contrário, embora o resultado final tenha sido semelhante. “Não gastei quase nada em atrações porque optei pelas free walking tours“, conta. Os descontos para estudantes em museus, ou mesmo as entradas grátis, também lhe salvaram grande parte do orçamento. Sobretudo nos países da Europa de Leste, onde o custo de vida é mais baixo, optou por comer fora a maior parte das vezes. O passe que tanto a Luísa como o André compraram, de dez dias para distribuir durante um mês, custa atualmente 301 euros.

Para os alunos que acompanham a professora Isabel, o custo total da viagem tem sido de 600 euros para cada um. A quantia inclui um InterRail Global Pass de cinco dias para gastar em duas semanas, que custa 206 euros por pessoa. Funciona como qualquer visita de estudo, portanto quem paga são mesmo os alunos, sem qualquer ajuda da escola. Onde é que os jovens conseguem o dinheiro? O André Cavalheiro conta que “desde o décimo que estava a poupar alguma coisa”, poupanças que acabaram por ser gastas no InterRail, apesar de não ser este o objetivo inicial. Os pais contribuíram com o restante. A Luísa arranjou emprego enquanto estava de Erasmus, o que lhe permitiu pagar o bilhete na totalidade. De resto, calhou bem: festejou o aniversário no final de janeiro e a família ajudou com o resto da despesa.

Quer seja pelo lado educativo ou curiosidade, todos tiveram as suas razões para investir nesta viagem. Mas esta “pode não ser a opção mais económica”, reconhece o André, que sabe de quem tenha feito uma viagem semelhante, de carro, por metade do orçamento. Gonçalo Gameiro, um estudante que falou com o ECO enquanto chegava de autocarro a Budapeste, confirma. Dando prevalência ao autocarro como meio de transporte, conseguiu mover-se durante 19 dias por 15 cidades de oito países por apenas 262 euros, que comparam aos 372 euros de um passe de InterRail equivalente.

As lições que trazem para casa

Quando se chega a casa a sensação é de alívio, concordam a Luísa e o André. Tudo por causa do cansaço. “É preciso tirar férias depois” brinca ainda a Luísa, sem esconder que “só queria dormir”. Independentemente disso, nenhum se arrepende, e pelo contrário, repetiam a viagem. O André ressalva contudo que “foi perfeita para a altura” mas que com outra idade poderá apreciar outras formas de ver o mundo. É uma passagem muito rápida pelas cidades e fica a vontade de voltar, esclarece. A maior lição que retira é a “capacidade de desenrascanço” e considera importante para os jovens terem noção do difícil que é organizar um evento desta dimensão. A professora Isabel realça que “neste tipo de viagens, os jovens têm de aprender a viver em grupo, a partilhar, a respeitar a opinião dos outros e a aceitar a diferença, tornando-se pessoas mais tolerantes e cidadãos mais ativos”.

A Luísa deixa antes um conselho: ir de mente aberta. “Ir de ideias fixas estraga um bocado a viagem”, acredita. O ideal será “relaxar e aproveitar” e estar sempre predisposto às mudanças de última hora tão típicas deste tipo de viagem. Liberdade, diz a Luísa, é a maior das vantagens de um InterRail.

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