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«Fui tradutor do sobrinho do Schwarzenegger numa equipa de Beja»

Logótipo de MaisFutebol MaisFutebol 08/11/2019 Rui Miguel Tovar
«Fui tradutor do sobrinho do Schwarzenegger numa equipa de Beja» © Maisfutebol «Fui tradutor do sobrinho do Schwarzenegger numa equipa de Beja»

Rui Miguel Tovar está no Maisfutebol com a rubrica LOAD " " ENTER. Para ler todas as semanas e saborear conversas por vezes improváveis com as principais figuras do futebol. Já sabe, basta escrever LOAD " " ENTER para entrar neste mundo maravilhoso de Rui Miguel Tovar.

Ex-árbitro da 1.ª divisão e speaker da Volta a Portugal, este senhor de Mértola é um poço sem fundo de conhecimento – até se dá com o sobrinho de Schwarzenegger, veja lá bem o caro leitor

A Volta a Portugal em bicicleta esconde segredos imperdíveis. Sejam paisagens indescrítiveis, sejam pessoas do best. Como o speaker Teixeira Correia. Atende-nos o telefone sempre com um ‘Alô Vidigueira’. Natural de Mértola e morador em Beja, corre-lhe o ciclismo nas veias. «Cheguei a ver o Indurain ganhar a Volta ao Alentejo, em 1996». É speaker há dez anos seguidos. Antes, é mais do futebol. Como profissão, queremos dizer. É árbitro de 1.ª divisão, é fiscal-de-linha de Veiga Trigo e assistente de muitos outros durante 25 anos. Encontramo-lo cheio de saúde e boa disposição, à beira do 61.º aniversário, no 25 de Abril, o restaurante adega típica no centro histórico de Beja.

Lembra-se do primeiro jogo da sua carreira?

Então não?! O primeiro de todos foi no dia do meu 18.º aniversário. Antes de fazer 19 e ir à tropa, fiz o primeiro jogo no Nacional. Foi o Cova da Piedade-CUF para a Taça. A CUF com o Conhé e o Capitão-Mor. Está 0-0 quando o Joaquim Meirim, treinador da CUF, manda aquecer atrás da baliza todos os cinco suplentes. Aquilo era uma novidade. Quanto muito, o treinador mandava aquecer o jogador que ia entrar. Agora cinco de uma vez. Beeem, a malta lá da Cova da Piedade entrou em alvoroço. Até porque o espaço era pequeníssimo, entre a baliza e os adeptos. A confusão foi tanta, o alarido tão grande, que vivia-se mais o ambiente fora do que dentro do campo. A CUF aproveitou-se e ganhou 1-0.

A fiscal-de-linha, certo?

Fui uma vez do Rosa Santos, o tal dos 18 anos, e, depois, quase toda a vida do Veiga Trigo. O meu primeiro jogo com o Veiga foi na Madeira, uma semana depois daquele acidente da TAP. O Arnaldo, um dos fiscais-de-linha do Veiga, estava indisponível e lá fui.

Eram outros tempos?

Mesmo. Veja lá bem, não havia cursos de fiscais-de-linha. Eram os árbitros quem desempenhavam esse papel sem qualquer experiência no lugar. Quer um exemplo? O Veiga chegou a ser fiscal-de-linha do Alder Dante nos jogos internacionais e o Veiga nunca tinha sido fiscal-de-linha na vida. Agora é diferente. Para melhor, claro.

Qual é o seu trajecto?

Como fiscal-de-linha, é aquilo que disse: primeiro Rosa Santos, depois Veiga Trigo. Como árbitro, começo na 3.ª divisão, subo para a 2.ª e depois para a 1.ª.

Quanto é que sobe à 1.ª divisão?

Um ano depois do esperado.

Então?

Fiquei a meio ponto de subir à 1.ª por culpa de um Lourinhanense-Beneditense. Há um golo em que a bola vai à barra, bate no chão e sai da baliza. Olho para o meu fiscal-de-linha e vejo-o a correr para o meio-campo. Acto contínuo, aponto para o meio-campo. Bem, foi uma confusão danada. Todos a correrem na direcção do fiscal-de-linha, junto ao banco. De uma tacada, expulsei três jogadores do Lourinhanense. Só na época seguinte é que me vieram dar razão.

Quem?

Vou apitar um Santa Clara-Loures e encontro o Filipe Moreira. Na altura do jogo da Lourinhã, ele era o treinador dos juniores do Lourinhanense e confirmou-me a validação correcta do golo. Que, de facto, a  bola bateu mais de metro dentro da baliza. Disse-me que o jogo foi filmado e depois visto no balneário do Lourinhanense, a seguir ao jogo. Deu.me os parabéns pela coragem.

Sobe então à 1.ª divisão?

Em 1996-97, juntamente com o Emanuel Câmara, João Mesquita, Olegário Benquerença, Duarte Gomes e Bruno Paixão.

Só estrelas.

Os últimos três eram os putos giros do sistema.

Os putos giros? Sistema?

Ah pois, amigo. É assim. Esses foram internaconais três anos depois. Uma rápida ascensão.

E o Teixeira Correia?

Fiquei em quarto ou quinto lugar no ranking dos árbitros nesse ano, de acordo com as notas dos observadores. Queriam fazer descer o Pinto Correia e ele ameaçou meter a boca no trombone.

E?

Ficou mais um ano.

Quando é a sua estreia?

Sporting-Estrela da Amadora.

Teixeira Correia antes da estreia num Sporting-Estrela © Fornecido por Media Capital Editora Multimédia, SA Teixeira Correia antes da estreia num Sporting-Estrela

Em Alvalade, logo?

É verdade. Acabou 2-2. Antes do jogo, o Carlos Severino apanha-me à saída do túnel de acesso ao relvado e pergunta-me se estou nervoso. Respondo-lhe assim: ‘Isto é como se fosse o Salvada com o Cabeça Gorda’, duas equipas daqui, separadas por 10 quilómetros. O treinador do Sporting era o Francisco Vital, substituto de Octávio Machado. O do Estrela era um tal Fernando Santos, ahahahah. Anulo um golo ao Leandro Machado nos últimos minutos. Até há uma fotografia de um jornal em que o Oceano está a pedir-me explicações. ‘Ò Teixeira, vá lá pá’. Ahahahahah.

Ò Teixeira?

Já nos conhecíamos há anos e anos, desde os tempos do Oceano no Nacional. Aquilo foi falta: o Leandro fez um chapéu sobre o Leal e depois puxou-lhe o pescoço para ganhar posição. O Sporting tinha lá um grande jogador. Que dá origem ao 2-2. Quis fazer um passe à campeão, de um lado ao outro do campo, e a bola bateu-me no calcanhar. Isola o Chainho. No cara a cara com o Filip De Wilde, perguntou-lhe ‘para que lado queres?’.

Bateu-lhe no calcanhar?

Nem mais. Que galo. O jogador é Didier Lang. Craque. No final do jogo, o Veiga, que já não via futebol há uns três anos, foi jantar comigo ao Pinóquio, nos Restauradores. Disse-lhe que íamos lá caso tudo corresse bem. Como correu, lá levei o Khadafi.

O Khadafi?

Todos tínhamos alcunhas. Eu era o papagaio, porque namorava à porta. A alcunha do Rosa Santos é Batata, a do Veiga é Khadafi. Fui eu que a meti, ahahah.

Quando?

Um belo dia, ainda no tempo em que não havia telemóveis, estou à espera no Centro de Estágio da Cruz Quebrada que me indiquem o jogo. E nada de nada. O Veiga todo furioso, quase a espumar da boca. Ainda por cima, havia um fiscal-de-linha algarvio que não tinha aparecido. O Veiga estava mesmo todo trocado. Como isso foi na época da Guerra do Golfo, chamei-lhe Khadafi. E ficou até hoje, ahahahah.

Quando o Teixeira começa a apitar na 3.ª divisão, ainda acumula funções como fiscal-de-linha do Veiga Trigo?

Aí não, fui substituído pelo Joaquim Madeira, que é o Doutor Jivago pela maneira sempre impecável de se vestir, com chapéu e tudo. Um dia, o Joaquim Madeira invalida um golo ao Vitória, no Bonfim. Os adeptos ficam doidos e um deles atira uma garrafa para a campo. A garrafa faz ricochete na pista de atletismo, parte-se em pedaços e um desses pedaços rasga o pescoço do Joaquim. Quem jogava no Vitória? O Vítor Madeira, irmão do Joaquim. O gajo vê a cena e atira-se aos adeptos do próprio clube. Muitos não entenderam o gesto, mas tinham feito mal ao irmão. Há com cada história, nem imagina.

...

Lembrei-me de uma com o Veiga. Primeira jornada do campeonato 1982-83. Em São João da Madeira, acho, Espinho-Benfica. É a estreia de Eriksson. A quantidade de pessoas, incrível. Era emigrantes a dar com um pau, estádio a abarrotar. Para ser fiscal-de-linha nesse dia, a polícia a cavalo foi obrigada a intervir e teve de afastar os adeptos de mim. Já os sentia a respirar no meu pescoço.

E mais jogos do Teixeira Correia como árbitro principal na 1.ª divisão?

Há um engraçado, o Farense-Campomaiorense. Enganei-me em dois lances de penálti. No primeiro, foi falta dentro da área e assinalo livre. No segundo, foi o contrário. Esse jogo foi bem engraçado. Antes de começar, avisaram-me que um dos meus fiscais-de-linha estava controlado pelo Farense. E pensei que ele iria accionar o bip na primeira jogada em que um jogador do Farense caísse na área.

Bip?

Já foi na era dos bips. Tínhamos um em cada braço. Como se isso fosse pouco, o Eugénio, do Farense, andava atrás de mim há uma série de tempo. Minutos a fio. Às tantas, e porque o conhecia muito bem, desde as camadas jovens, porque nós do Alentejo apitávamos muitos jogos no Algarve, virei-me para ele e disse-lhe ‘vim de Beja até Faro de carro e não me perdi no caminho, escusas de estar sempre ao pé de mim; e digo-te mais, se alguém cair na área e pedir penálti, és expulso.’ O Eugénio ficou todo atrapalhado e foi conferenciar com o treinador, o Paco Fortes. Que logo se manifestou ruidosamente na minha direcção, ahahahahah.

Estou a ver aqui: voltou a apitar o Campomaiorense em 1999.

Aaaahh, isso foi uma sacanice. Veja bem, foi sorteio de bola única.

Como assim?

Era o tempo do sorteio dos árbitros e a única bola disponível para esse jogo era a minha. Esse sorteio foi intencional e maldoso. Queriam meter-me num ambiente desconfortável, porque era do Alentejo como o Campomaiorense e era amigo da família Nabeiro. Seria obrigatoriamente um jogo de nervos em que os cartões podiam sair do meu bolso a uma velocidade vertiginosa. O objectivo era descerem-me de divisão, ponto.

E que tal?

A duas jornadas do fim, o Vitória precisava de ganhar os dois jogos para chegar às competições europeias e o Campomaiorense tinha de ganhar um dos jogos para escapar à 2.ª divisão. Acabou 2-0 [bis de Edmilson], sem problema. O Vitória depois ganhou o outro jogo e foi à Europa. O Campomaiorense ganhou 4-1 ao Alverca e manteve-se na 1.ª divisão, além de jogar a final da Taça de Portugal com o Beira-Mar.

Curiosamente, o seu próximo jogo na 1.ª divisão é um Beira-Mar-Campomaiorense.

Isso já é em 2000, acabou 0-0 e expulsei o Fernando Aguiar mais o Areias. O Beira-Mar acabou com nove. No último minuto, o Hugo Santos, natural de Mértola, como eu, e que é na verdade Hugo Santos e Santos porque tanto o apelido da mãe como o do pai é Santos, dá uma chapada na bola. Ela bate num poste, bate no outro e sai de fininho. Há polémica, claro. Protestos e tal. Dou três ou quatro amarelos aos jogadores do Campomaiorense e o chefe de departamento de futebol Pedro Murcela veio barafustar comigo naquela dialecto alentejano [Teixeira Correia imita-o: ‘Tanto cartão para quê?’]

Pedro Murceeeeeela, há quanto tempo.

Estava lá, nesse dia [1-0 de Edmilson em cima do minuto 90] [a seguir ao golo, há protestos vários e Vítor Baía dirige-se ao banco do Campomaiorense em tons menos civilizados, inicia-se então um forrobodó memorável em que Murcela persegue o guarda-redes pela pista de tartan e tudo]

O do Vítor Baía?

Ah pois, fiz reportagem de pista com o Fernando Emílio para a Rádio Comercial. O ambiente estava mais do que quente. A ferver. Quando finalmente o Pinto da Costa pôde sair do camarote em direcção ao carro, houve um homem que o apanhou na curva e disse-lhe ‘anda cá que te dou uma facada’. O Pinto da Costa ficou de todas as cores: laranja, roxo, amarelo, azul. O homem não tinha nada, foi só para assustar, mas nunca mais me esqueci. Também estive em Campo Maior como quarto árbitro no dia do 1-0 ao Porto [resolve Laelson]. Essa também foi bonita.

Então, que se passou?

É o jogo da marcação do José Soares ao Jardel.

Ahhhhh, já me lembro.

Aquilo começou logo mal, quando o Carlos Pinto do Conselho de Arbitragem me liga e diz-me que vamos dormir no Hotel Brasa. ‘Isso é uma estupidez pá’, disse-lhe. O Hotel Brasa ficava muito perto e a meio caminho da Delta dos Nabeiro e da pousada de Elvas, onde dormia o Porto. Não valia a pena arriscar. Ainda apanhávamos um comité de recepção, sempre indesejável, uma prenda ou outra. Nããã, não valia a pena. Para quê? Sugeri então que fossemos cada um no seu carro para casa depois do jogo: eles para Setúbal, eu para Beja.

Eles, quem?

O trio de arbitragem.

Quem era?

Bruno Paixão. Conhecia-o bem. Dividi quarto com ele antes de chegar à 1.ª divisão. E ele, bem, nem lhe digo, era uma coisa impressionante. Acabava de jantar e tomava um comprimido para fazer melhor a digestão. Antes de dormir, tomava outro comprimido para dormir melhor. Achava aquilo muito, demais. Ele perguntava-me o que eu fazia. ‘Simples: no Verão, gaspacho; no inverno, açordas.’ A verdade é que só havia um gajo que me ganhava nas provas físicas, o José Pratas. Só que ele pesava 56 quilos. Impossível competir com ele.

O que fizeram então nesse dia em Campo Maior?

Desmarcaram a dormida. Menos um problema. Vamos ao jogo e aquilo foi um filme. Primeiro, chegámos duas horas antes. Achava isso uma parvoíce, era muito tempo dentro do balneário. Mal chega, o Bruno Paixão deita-se na marquesa a ouvir música. O jogo é aquilo que se sabe, 1-0 para o Campomaiorense. No final, entram Pinto da Costa e Reinaldo Teles para assinar o livro de ponto. Como não vê o trio de arbitragem, que estava supostamente a tomar banho, o Pinto da Costa começa a falar alto ‘vocês estão todos borrados de medo’. Quase ao mesmo tempo, começa a ouvir-se desde o balneário do Campomaiorense o hino dos mineiros de Aljustrel. Era já um costume célebre, levado a cabo pelo Carlos Manuel e pelo Agatão. Também se cantava no Salgueiros. No Sporting, os brasileiros queriam lá saber disso. Adiante: disse ao Pinto da Costa para assinar ‘até porque também gosto de cantar’.

E?

Ele assinou, mas estava pior do que estragado. Problema seguinte: a saída do estádio. Isto porque tinha combinado jantar um prego no Carrascal e estava a ver aquilo mal parado. Meu dito, meu feito. Aproximamo-nos do restaurante e é só carros do Porto, Super Dragões e tal. Contornamos o parque de estacionamento da frente e até o lateral, entramos por uma vereda de terra e chegamos à porta da cozinha. Bati à porta e perguntei pelo senhor Januário. Chega-me ele e combinamos jantar na cozinha, com o Porto no outro lado da sala. Se ele nos descobrissem, partiam tudo e mais alguma coisa. Tenho outra história com o Porto.

Conte.

É do tempo do Veiga. Ele expulsou o Rui Barros, com o Estrela, acho, para a Taça de Portugal. A mãe do Veiga tinha sido internada dois dias antes e o Rui Barros chama-lhe filho da p.... No final, o Reinaldo Teles, que digam o que disserem, é uma pessoa com respeito por todos, chega ao nosso balneário e pede satisfações ao Veiga pelo vermelho. O Veiga só lhe pergunta: ‘Reinaldo, se a tua mãe estivesse internada e te chamassem filho da p..., o que farias?’ A cara do Reinaldo mudou naquele instante. 'A minha vontade', continua o Veiga, 'era dar-lhe um murro na cabeça.’ O Reinaldo pediu para sair, fechou a porta e, nem um minuto depois, apareceu o Rui Barros. ‘Quero pedir-lhe humildemente desculpa, não sabia que a sua mãe estava internada.’ O Veiga aceita, mas não deixa de dizer de sua justiça. ‘Independentemente do estado da minha mãe, não se deve dizer aquilo a ninguém, certo?’ O Rui Barros concordou e, olhe, a partir daí, melhores amigos. Se alguém insultar o  Veiga, o Rui é o primeiro a defendê-lo.

Boa, boa, Há mais?

Amigo, podia ficar aqui o dia todo.

À vontade, só tenho comboio às quatro.

Último jogo no Avenida, acho. É dia de Rio Ave-Porto. Veiga Trigo no apito, acaba 0-0. No final, somos despedidos com moedas. Ainda tenho a de dez tostões lá em casa e, durante um tempo, ainda a tive cravada nas minhas costas, ahahahah. Outra: jogo grande na Taça de Portugal no Alentejo entre Juventude da AF Évora e Campomaiorense da AF Portalegre comigo no apito da AF Beja. Foi uma festa imensa. Ganhou o Juventude por 1-0 e fomos todos, árbitros, jogadores e dirigentes das duas equipas, comer ao Aperta Azeite. Que dia, esse.

Ah é verdade, o seu último jogo na 1.ª é um Alverca-Beira-Mar.

Pois ééééééé. Aquilo foi à tarde mas mais parecia de noite, tal o céu carregado de nuvens pretas. E a chuva. O que choveu. Há aí uma história engraçada. Com a chuva e o vento, a malta poderia esmerar-se nos cantos. Antes de um, o Ricardo Sousa virou-se e disse-me: ‘se fizer golo de canto direto, ofereço-te a camisola e vou-me embora’. Ahahahah, é só figuras.

E além da arbitragem?

Aqui e ali, ligado ao jornalismo, ao ciclismo e ao dirigismo entre aspas.

Dirigismo entre aspas.

Fui tradutor do sobrinho do Schwarzenegger.

Hein?

É verdade, amigo.

Onde?

No Zona Azul, uma equipa de Beja.

Repito-me: hein?

Zona Azul foi uma equipa engraçada que apareceu ai nos anos 80 e deu luta aos grandes. Estávamos em 1981 e eu fazia tudo: diretor, treinador, roupeiro. Decidimos formar uma equipa de juniores e metemos um anúncio. Um belo dia, estou em casa e tocam-me à porta. Era um senhor alemão, tenente da força aérea destacado para a base de Beja. Chamava-se Max Loherer e estava casado com a Erika Knapp, irmã do Arnold.

O Exterminador Implacável?

Esse mesmo, ahahahah. Knapp é o nome de família, Schwarzenegger é o nome de marca, marketing de Hollywood.

E como é que se chamava esse sobrinho do Arnold?

Patrick.

Era bom de bola?

Vinha das camadas jovens do Bayern Munique. Daí que tivesse dito logo ao Max para compreender a situação do Zona Azul, um clube modesto em qualquer circunstância, ainda para mais em relação ao Bayern. Ele sabia-o de antemão, claramente, e pagou 10 anos de quotas do Zona Azul.

Ahahahahah, dez anos?

Dez anos. A anuidade era uns 120 escudos. Pagou dez anos de só uma vez. Ahahahahah.

E o Patrick jogava a quê?

Central. Era alto e louro. Bom de bola. Só ficou uma época, acabámos em segundo na nossa série, atrás do Tribunas, a equipa que jogava ao lado do tribunal. Um dia, ele pediu ao tio para enviar-lhe postais dele assinados para cada um dos jogadores. O tio enviou mesmo. De Arnold Schwarzenegger para x. De Arnold Schwarzenegger para y. Um por um. Grande gesto.

E o Patrick falava português?

Pouco. Ensinei-lhe muitas palavras, porque andava muito com ele em Beja, para a frente e para trás. Só ficou a jogar um ano connosco, porque depois foi para o Colégio Alemão em Lisboa.

Voltou a vê-lo?

Passados uns anos, em Mértola. Vi-o de relance e só podia ser ele. Foi cá uma festa. A namorada ficou a ver-nos falar daqueles tempos.

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