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“Muito pior que a prisão. Lá sabe-se quando se vai sair”: o que está a acontecer em Nauru?

Logótipo de ExpressoExpresso 11/10/2018 Marta Gonçalves

Na ilha com uma aérea de apenas 21 km2 e cerca de 13 mil habitantes a situação humanitária é “mais do que desesperante”, denunciam os Médicos sem Fronteiras. O Governo já ordenou a saída da ONG do seu território.

“Muito pior que a prisão. Lá sabe-se quando se vai sair”: o que está a acontecer em Nauru? © MIKE LEYRAL/ Getty Images “Muito pior que a prisão. Lá sabe-se quando se vai sair”: o que está a acontecer em Nauru?

Tentativas de suicídio, automutilação, traumas de separação. Crianças que não conseguem comer ou beber, que se recusam a ir à casa de banho sozinhas. A situação em Nauru é “devastadora”, alerta a organização Médicos Sem Fronteiras, que acusa o Governo de os ter obrigado a abandonar o país repentinamente. Há perto de mil requerentes de asilo no pequeno pontinho no mapa que é Nauru - uma ilha na Oceania com perto de 21 km2 e pouco mais de 13 mil habitantes.

“É absolutamente vergonhoso dizer que os cuidados de saúde mental dos MSF não são mais necessários; a situação de saúde mental dos refugiados mantidos indefinidamente em Nauru é devastadora. Nos últimos 11 meses tenho visto um número alarmante de tentativas de suicídio e incidentes de automutilação entre refugiados e requerentes de asilo, homens, mulheres e crianças”, diz Beth O'Connor, psiquiatra da organização não-governamental.

Em Nauru está instalado um centro de detenção de refugiados, resultado de um acordo conseguido com a Austrália no início dos anos 2000. Nauru recebe apoio do Governo australiano e, em troca, acolhe o centro. O arranjo faz parte da “Solução Pacífica” encontrada para impedir a entrada ilegal de pessoas na Austrália - e da qual também faz parte a ilha de Manus, na Papua-Nova Guiné.

“O nossos pacientes descrevem frequentemente a situação como muito pior que a prisão. Na prisão, pelo menos, sabe-se quando se sai", sublinha a psiquiatra. “Não creio que exista uma solução terapêutica para estes pacientes enquanto estiverem presos na ilha, mas temo que tirar-lhes os cuidados de saúde psiquiátrica e psicológica vá significar perder vidas.”

A trabalhar na ilha desde do final do ano passado, a ONG foi convidada pelo Executivo de Nauru a deixar a ilha a 5 de outubro. Teve 24 horas para o fazer. “Médicos Sem Fronteiras condenam veementemente a repentina decisão de interromper a prestação dos cuidados de saúde mental tão necessários aos requerentes de asilo, refugiados e à comunidade local”, lê-se no comunicado divulgado esta quinta-feira, em que a questão da saúde mental dos refugiados na ilha é apontada como “mais do que desesperante”.

A equipa da ONG no terreno contou já ter ouvido, mais do que uma vez, crianças com menos de 10 anos a dizerem que preferem morrer a ficarem a viver no centro de detenção. Os casos mais complicados são aqueles em que as famílias foram separadas.

“Separar famílias, manter homens, mulheres e crianças à força numa ilha remota indefinidamente, sem esperança ou proteção - exceto em casos de emergência médica -, é cruel, desumano e degradante. Enquanto o Governo australiano descreve a detenção marítima como uma política humanitária, a nossa experiência prova que não há nada de humanitário em salvar pessoas do mar apenas para deixá-las numa prisão a céu aberto em Nauru“, considera Paul McPhun, diretor dos MSF-Austrália.

A ONG apela a que esta prática seja “imediatamente interrompida” e que o centro de detenção seja evacuado. “Não são os psiquiatras e psicólogos dos MSF que devem sair de Nauru; são as centenas de requerentes de asilo e refugiados que a Austrália manteve presos na ilha nos últimos cinco anos que deveriam sair”, defende Paul McPhun.

Já na quarta-feira, citado pela BBC, o ministro dos Assuntos Internos australiano justificava que Nauru tem “estado incomodado” com tipo de apoio médico prestado pela ONG, embora não entrando em detalhes. Deu ainda garantias de que os refugiados no centro de Nauru não iam ser realojados. “Se fizesse isso, estaria a incentivar o recomeço de mais barcos a tentarem entrar e, depois vocês estariam a perguntar-me pelas crianças que morreriam no mar”, disse aos jornalistas.

Em Nauru há 900 requerentes de asilo e refugiados, e mais de uma centena são crianças.


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