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Como “o terrorismo disperso” se aproveita do lado “inocente” do Facebook

Logótipo de ExpressoExpresso 15/05/2018 Marta Gonçalves

Todos os dias centenas de pessoas publicam milhares de novos conteúdos e criam perfis falsos nas redes sociais. Todos os dias as autoridades detetam e agem para travar a propaganda de grupos terroristas e o crime organizado, que se têm socorrido das redes sociais para recrutar novos membros para a sua causa e assegurar o financiamento. Entre janeiro e março de 2018, o Facebook diz que tomou medidas em 1,9 milhões de conteúdos de propaganda terrorista associada ao Daesh, al-Qaeda e grupos afiliados.

Tem havido esforços para controlar a divulgação de propaganda e, apesar de alguns esforços, designadamente na contratação de mediadores e de pessoas que fazem uma trabalho de triagem desses conteúdos, o Facebook continua a ser uma plataforma interessante para as organizações terroristas. Neste sentido, o Facebook paga o preço por ser uma empresa cuja estrutura foi mal desenhada e que não foi pensada para proteger as pessoas. É demasiado aberta em termos de conteúdos, foi inocente no que toca ao aproveitamento por outro tipo de organizações”, diz ao Expresso Paulo Pereira de Almeida, professor do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE) e especialista em segurança. “É difícil acreditar nas estatísticas fornecidas pelo Facebook tendo em conta o que temos vindo a saber recentemente sobre as suas políticas de gestão.”

Comparativamente ao período entre outubro e dezembro de 2017, o Facebook conseguiu identificar e agir em mais 800 mil conteúdos.“Este aumento deve-se à melhoria da nossa capacidade de encontrar conteúdos que violam as normas através da tecnologia de deteção de fotografias, que deteta quer conteúdos mais antigos como publicações recentemente partilhadas, refere o Facebook no Relatório Preliminar de Aplicação das Normas da Comunidade, divulgado esta terça-feira. Nos primeiros três meses do ano, a rede social diz ainda que conseguiu em 99,5% dos casos tomar medidas ainda antes de as publicações serem denunciadas pelos utilizadores do Facebook.

Comparativamente com outro tipo de violações, como a violência gráfica, o número de visualizações de conteúdos propaganda terrorista relacionada com o Daesh, al-Qaeda e afiliadas no Facebook é extremamente baixo. Isso acontece porque há relativamente pouca e porque apagamos a grande maioria ainda antes de as pessoas a verem.” Ao contrário das restantes violações de normas no relatório (violência gráfica, nudez e atividade sexual, discurso de ódio, spam e perfis falsos), o Facebook ainda não disponibilizou os números quanto a prevalência deste tipo de publicações.

Não toleramos qualquer conteúdo que elogie, apoie ou represente organizações terroristas ou terroristas. Tomamos medidas em relação ao conteúdo que apoie ou defenda estas organizações, indivíduos ou os seus atos. Enquanto impomos este padrão para atividades terroristas e grupos terroristas, ao nível regional e global, este relatório apenas mede as medidas tomadas em relação à propaganda relacionada com o Daesh, al-Qaeda e afiliadas”, refere a rede social.

Como “o terrorismo disperso” se aproveita do lado “inocente” do Facebook © LIONEL BONAVENTURE/ Getty Images Como “o terrorismo disperso” se aproveita do lado “inocente” do Facebook

Normalmente, os conteúdos são filtrados através de algoritmos, mas quem partilhar propaganda – e não só – consegue fazê-lo: basta, por exemplo, ir desdobrando o tipo de linguagem utilizada, recorrer a novas palavras para de alguma forma enganar o filtro e passar. E depois há ainda a questão das sugestões que nos são dadas consoante as páginas visitadas e àquilo que se acede. Por exemplo, quando no YouTube se procura uma música, do lado direito surgem logo uma série de sugestões semelhantes à pesquisa. E o mesmo acontece quando a procura não é uma canção mas sobre uma qualquer ideologia radical. Ou seja, começando por algo mais inocente, através das sugestões pode-se com relativa facilidade chegar a conteúdos mais polarizados e radicais.

Há muitos outros motores de buscam além do Google, variadíssimas redes sociais, grupos com meios de comunicação próprios… os canais de propaganda são mais que muitos e as formas de chegarem às pessoas e a eventuais recrutas diversificadas. O Facebook é uma gota no oceano. “Os terrorismo e o crime organizado têm conseguido aproveitar-se da generalidade das redes sociais com mensagem direta, porque essas são as que recorrem a formas de encriptação cuja deteção pelos serviços de informação internacionais é mais difícil”, explica Paulo Pereira de Almeida. Hoje, a Agência de Segurança Nacional norte-americana já exige que todas as empresas norte-americanas lhes disponibilizem todos os algoritmos de desencriptação.

Mesmo que seja detetada atividade suspeita nas redes sociais, não é suficiente para identificar radicalizações. Além disso, alguém que se radicalizou não é taxativo que passe à ação e que tente levar a cabo um ataque terrorista. Há pessoas referenciadas pelas autoridades mas estima-se que para vigiar uma pessoa são necessárias entre cinco e oito pessoas – turnos, fins de semana, comunicações telefónicas. Além disso, não convém que sejam sempre as mesmas pessoas a seguirem o mesmo suspeito. Torna-se praticamente impossível vigiar todos os referenciados.

“Não existem recursos nem meios suficientes dos serviços de informações para que as ações de vigilância sejam 100% eficazes. Esse é um dos dramas do terrorismo disperso”, diz Paulo Pereira de Almeida. Mas reforçar apenas os meios também não chega. É preciso mais ações de desradicalização, uma “abordagem soft ao terrorismo, tentando erradicá-lo da fonte”, e evitar tensões entre países. “Se não formos à fonte política e cultural, não é simplesmente com mais meios que conseguimos evitar mais atentados – até porque estamos na época do terrorismo disseminado.”

Mais de 500 milhões de contas falsas detetadas

Nos primeiros três meses de 2018, o Facebook detetou e apagou 583 milhões de perfis falsos, um decréscimo quando comparado com últimos três mesesdo ano passado, em que a rede social tinha agido em 694 milhões de contas. “Maus agentes tentam criar grandes quantidades de contas falsas com a intenção de difundir spam e levar a cabo atividades ilícitas tais como burlas.” Em 98,5% dos casos, a rede social assegura que não foi necessário denúncia.

Quanto à violência gráfica, mais uma das medidas analisadas no relatório, mais que duplicou o número de conteúdos detetados e que foram removidos ou motivo de aviso. Passou de 1,2 milhões no final do ano passado para 3,4 milhões no arranque deste ano – 86% foram detetados pelo sistema automático. Embora numa escala mais reduzida, também no que toca ao discurso de ódio e spamo Facebook conseguiu tomar medidas em mais publicações em 2018.

Olhando para todos os medidores analisados no relatório preliminar, são os conteúdos spam (837 milhões) aqueles que são motivo de ação por parte do Facebook. Seguem-se os falsos perfis (583 milhões), a nudez e a atividade sexual (21 milhões), a violência gráfica (3,4 milhões), o discurso de ódio (2,5 milhões) e a propaganda terrorista (1,9 milhões).

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