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Maria Teresa Horta: “Ainda há quem me veja como uma escritora maldita”

Logótipo de Expresso Expresso 08/11/2019 Bernardo Mendonça, Joana Beleza, Mário Henriques, Tiago Miranda

A poesia é para ela uma urgência. Feminista, insubmissa e uma das poucas poetisas portuguesas a afirmar o desejo na sua escrita, Maria Teresa Horta sempre lutou pela liberdade. É autora de obras polémicas, como “Ambas as Mãos sobre o Corpo”, “Minha Senhora de Mim” e “Novas Cartas Portuguesas” (esta última assinada com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, conhecidas como “As Três Marias”), que escandalizaram o Portugal puritano e valeram à escritora um espancamento na rua e a quase prisão. Diversas vezes premiada, publica agora “Quotidiano Instável”, que reúne as crónicas que escreveu no jornal “A Capital” entre 1968 e 1972. Um quase romance, que descola da realidade para contar vida(s). E aqui neste episódio em podcast a poetisa conta algumas páginas do livro que a sua vida daria

© Expresso

Maria Teresa Horta ainda acorda de madrugada sobressaltada por uma ideia poética, levanta-se como uma mola e, sem incomodar o marido, escreve quase às escuras “uns hieróglifos” para não deixar a poesia fugir.

O gosto pela escrita vem de sempre. Aprendeu a ler aos 5 anos e, nesses primeiros tempos, o refúgio era o escritório do pai, repleto de livros e histórias. Era a sua avó que lhe lia todos os livros que queria. Curiosamente no meio de centenas de obras literárias, nenhum era assinado por uma mulher. Pode uma mulher ser escritora? - questionou-se Maria Teresa Horta durante anos. Mas decidiu sê-lo, porque não se imaginava de outra maneira.

Começou a escrever poesia aos 12. E foi a poesia que a salvou do sofrimento, da incompreensão, da banalidade, de um certo quotidiano insuportável. Filha mais velha, a que deveria ter sido um rapaz e tinha um anjo azul por cima da cama, publicou o primeiro livro aos 20 anos, “Espelho Inicial”. Fez parte do movimento Poesia 61, e enquanto apreciadora de cinema foi a primeira mulher cineclubista em Portugal.

A sua relação íntima com a escrita fê-la iniciar uma carreira como jornalista em 1967 no jornal “A Capital” e DN, quando as redacções eram lugares de homens e as mulheres não eram lá vistas com bons olhos. Mas Maria Teresa Horta nunca se deixou ficar no espacinho menor destino às senhoras de família. Sobre esses tempos, podemos ler agora o livro de crónicas “Quotidiano Instável”, nome tomado à coluna que Maria Teresa Horta assinava no suplemento «Literatura e Arte» do jornal A Capital, entre 1968 e 1972. E o que começou por ser um espaço de crónicas, acabou por assumir progressivamente um carácter ficcional. Textos que acabam por prenunciar o primeiro romance da escritora, “Ambas as Mãos sobre o Corpo”, que Eduardo Prado Coelho considerou... uma obra-prima.

Aqui falámos desse seu primeiro romance. Que constituiu um dos muitos gestos de liberdade e rebeldia que esta mulher-poetisa brava, apaixonada e insubmissa teve ao longo da sua vida, a desafiar o sistema e a ultrapassar os limites culturalmente permitidos ao género feminino. E moveu-se. E com ela o (nosso) mundo.

“Ambas as mãos sobre o corpo” é um livro corajoso em que o corpo e a sexualidade feminina são retratados com uma frontalidade revolucionária e subversiva numa época em que não era permitido às mulheres a expressão e a afirmação do desejo. Foi espancada na rua por isso. E inúmeras vezes injuriada e apagada do retrato. Em Abril de 71 publicou “Minha Senhora de Mim”, voltando a enfurecer a moral e os bons costumes do regime de Salazar, que não admitia a escrita erótica às mulheres.

Volta a enfrentar de seguida outro escândalo e um processo em tribunal com as populares “Novas Cartas Portuguesas”, que escreveu com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa - autoras que passaram a ser internacionalmente conhecidas como “As três Marias”. Um livro histórico - acusado de “pornografia”, “obscenidade”, “atentado à moral pública” - que assumiu um papel central na queda da ditadura dirigida por Marcelo Caetano.

Mulher de princípios e de uma só cara, em 2012, quando Maria Teresa Horta foi distinguida com o prémio D. Dinis pelo romance “As Luzes de Leonor”, recusou receber o galardão das mãos do então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho. Na ocasião afirmou que não ficaria de bem consigo se recebesse o prémio das mãos de uma pessoa que estava empenhada em destruir o país.

E há dois anos recusou o Prémio Literário Oceanos atribuído a escritores de língua portuguesa, em protesto por ter ficado em quarto lugar (ex-aequo). Na altura, Maria Teresa premiou o júri com as seguintes palavras: “Caros senhores, sois livres de dar a aplicação que vos aprouver aos 15 mil reis [3870 euros] que me caberiam, não fosse esta inultrapassável questão que se me coloca e dá pelo nome de... dignidade.”

Aqui podem ouvir uma longa conversa em podcast com uma mulher sem idade, e sem medo, que tem como grande busca a beleza. Das pequenas e das grandes coisas. É isso que mais a emociona e mais persegue. Mantemos o desafio a todos os ouvintes que enviem as suas opiniões, sugestões, histórias e comentários para abelezadaspequenascoisas@impresa.pt

E juntem-se a nós no sábado, dia 9 de Novembro, às 17h30, no espaço Fábrica Features Lisboa, no Chiado. Os lugares sentados estão esgotados, mas havemos de arranjar maneira de conseguir espaço para todos. Contamos convosco por lá.

Até para a semana. Pratiquem a empatia. E boas conversas!

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