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NBC, uma referência do rap em Portugal

Logótipo de dw.com dw.com 12/09/2018 João Carlos (Lisboa)
NBC, rapper luso-são-tomense © Fornecido por Deutsche Welle NBC, rapper luso-são-tomense

Timóteo Tiny é o seu nome verdadeiro. Originário de uma família são-tomense, NBC desde muito cedo começou a preocupar-se com as desigualdades sociais. A incursão na música começa em 1993, por força da religião, através da Igreja Evangélica.

"Eu e o meu irmão, na altura, tínhamos um grupo que se chamava "Filhos d'1 Deus Menor", exatamente por essa alusão à divisão entre os seres, essa alusão às diferenças sociais. Foi uma alusão assim interessante e usamos esse nome durante muito tempo", recorda o rapper.

A dada altura passa a ser um artista a solo e decide adotar outro nome: "Criei este nome NBC, que quer dizer Natural Black Color e que a partir daí até aos dias de hoje se mantém".

Consciente muito cedo

Nasceu em 1974. Veio para Portugal com a família quando tinha cinco anos de idade. Nem fazia ideia o que seria a revolução que deu lugar aos acontecimentos do 25 de abril daquele ano. Só aos sete ou oito anos começa a ter noção do momento político por que atravessou Portugal, até Mário Soares, então primeiro-ministro, encabeçar o processo de adesão à União Europeia (UE).

E NBC continua com a sua viagem no tempo: "Comecei a ter noção disso muito cedo, exatamente por essa indicação que na altura houve do apertar do cinto. Isso foi mais ou menos na altura em que vieram os fundos monetários para a primeira ajuda que houve a Portugal, do FMI. Portanto, essas indicações apareceram na minha vida muito cedo".Era essa a forma de estar em casa dos pais, onde os livros estavam sempre presentes. A direita e a esquerda eram assuntos muitas vezes debatidos pelo pai, uma pessoa muito ligada à forma como se falava de política.

A partir daí, NBC sempre se interessou pela política sem se assumir como militante de nenhum partido. Isso, de certa maneira, determinou a opção pela música e influenciou o rumo da sua carreira, segundo revela: "isso foi sempre muito interessante para mim. Na minha música falo disso, principalmente pela igualdade entre as pessoas, porque sabemos que perfeitamente que a única coisa que nos desiguala é o nosso poder económico."

Movimento de vanguarda do hip-hop em Portugal

As suas canções desde o primeiro disco "Afrodisíacos", de 2003, são de intervenção, com apelos à emancipação. O rapper fala sobre a temática das suas músicas: "Desde o tema como "Homem", que é um apelo à igualdade entre as espécies, entre as pessoas, essa talvez tenha sido a minha música que fala disso com uma poesia mais elaborada mas ainda assim com dor muito maior, também por sabermos toda a dinâmica histórica que acontece entre África e a Europa, por exemplo."

NBC é reconhecido por fazer parte do grupo de jovens responsáveis pelo movimento do hip-hop em português, que nasceu na margem sul do Tejo. "Faço parte desse grupo de pessoas que quis trazer para Portugal um género musical que na América também estava a dar os seus primeiros passos", recorda."Em Portugal, por uma questão politica e social, no início dos anos 80, na altura em que está a terminar a Lisnave, todas as ex-colónias estavam, de alguma forma, ligadas a isto; do facto de esta Lisnave congregar pessoas das ex-colónias, que em determinada altura os pais dessas pessoas lutavam também pelos seus direitos de igualdade e, consequentemente, os filhos ao crescerem dentro desta dinâmica, quando existe este motivo, este género musical que lhes dá liberdade para poderem falar também de si mesmos, então embarcam e é a partir daí que o hip-hop nasce, exatamente por causa disso", contextualiza NBC.

Uma geração que hoje é referência

Recorda-se do moçambicano General D como percursor principal do referido movimento, bem como do cabo-verdiano Boss AC, que também surgiu a cantar nessa altura. Eram tempos difíceis. Viveu momentos críticos, com alguns episódios que recorda com sorriso. Diz que remou contra a maré e hoje ganhou maturidade e já é cabeça de cartaz em vários festivais.

"O que acontece hoje é que, como o género hip-hop tomou as rédeas – digamos assim – da música em Portugal e fazemos parte como cabeças de cartaz dos festivais principais, os nomes mais antigos que ainda estão no ativo, como é o meu caso, são sempre relembrados pelos artistas novos que estão a ser mais falados, por exemplo", diz o rapper.

Além disso, tem várias participações em produções cinematográficas: "Já participei em vários filmes de renome, tal como o "Desassossego". Já participei também num filme espanhol que se chama "Fados", de Carlos Saura". E ainda sonha: "O momento alto será eventualmente a espera na passadeira vermelha de uma limousine que nos espera para nos levar."Daí o título do seu último álbum de originais "Toda a Gente Pode Ser Tudo", considerado pela imprensa portuguesa um dos melhores de 2016: "É preciso acreditar. Vai haver sempre portas que se vão fechar, mas vai haver outras portas que se vão abrir. E da energia que nós temos com as portas que nos fecham é que nos vão ajudar para as portas que se abrem."

Os projetos de NBC

É com este espírito que já tem outro disco em preparação, que pensa lançar em 2019. "É um disco muito diferente dos que fiz até agora, com uma outra dinâmica, também numa perspetiva de compreensão do que é a música negra e que ela não é só o hip-hop; nós também fizemos rock, os blues e o soul. Estas também são a nossa raiz, se falarmos da América", garante NBC.

E confiante remata: "Sempre nesta dinâmica de desbravar terreno e mostrar que nós estamos aqui e que nosso background, naquilo que somos lá atrás, tem muito peso."

Outro dos projetos do NBC é montar um concerto na terra natal. Os preparativos estão em curso, segundo revelou o músico que já esteve em São Tomé, interessado em aproximar-se mais da sua identidade cultural.

por:content_author: João Carlos (Lisboa)

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