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Pesadelo na cozinha e no tribunal

Logótipo de Diário de Notícias Diário de Notícias 23/04/2017 Carlos Rodrigues Lima
© Fornecido por Diário de Notícias

Que se saiba, o juiz desembargador António Alves Duarte não tem o exuberante feitio do chef Gordon Ramsay (até pode ter, mas não foi possível confirmar, assim sendo presume-se pela negativa), mas por sua vontade o cozinheiro desta história ia para o olho da rua. Em legalês erudito, justificou o douto voto de vencido num acórdão da Relação de Lisboa dizendo que a "conduta" do rapaz tornava "impossível a continuação da relação laboral". Afinal, o que é que se passou?

A 23 de agosto de 2015, o cozinheiro "preparava-se para servir um prego com um ovo". Porém este, segundo os factos provados, continha "depósitos de resíduos decorrentes da falta de zelo na confeção". Provavelmente, uma frigideira mal lavada. Sendo assim, a chefe de cozinha impediu que o mesmo fosse servido "a cavalo" no prego do cliente. Umas semanas antes, o mesmo cozinheiro e o mesmo problema: o ovo. Desta vez não "estava em condições de ser servido". Nesta mesma ocasião, o cozinheiro mandou servir uma salada - e não selada -, a qual "apresentava pigmentação preta visível e foi de imediato trocada e posta de lado, pois não estava própria para consumo". Com estes três episódios e já um histórico de processos disciplinares, a empresa proprietária de uma cadeia de restaurantes avançou com um processo disciplinar tendo em vista o despedimento.

E, como já se referiu, pela vontade do desembargador António Alves Duarte o cozinheiro seria mesmo despedido. Já que o magistrado, segundo a respetiva declaração de voto de vencido no acórdão que confirmou a decisão de reintegração do trabalhador, considerou que "estrelar um ovo e preparar uma salada sem atentar devidamente no estado do material, ou nos produtos utilizados, ou no resultado final de tais operações culinárias, permitindo que sejam encaminhados para os clientes alimentos excessivamente cozinhados, sujos ou com mau aspeto e, por isso, insuscetíveis de serem comercializados nessas condições", são comportamentos "nada profissionais e gravemente violadoras dos deveres de zelo e diligência". Traduzindo toda esta literacia para linguagem de Gordon Ramsay: "You fuckin" donkey." Ou, como até poderia dizer o chef Ljubomir Stanisic, a versão portuguesa low-cost de Ramsay, "isto é uma merda".

Porém, este não foi o entendimento da primeira instância e do Tribunal da Relação de Lisboa, que, por maioria, confirmou a decisão de reintegração do cozinheiro na empresa onde, muito provavelmente, continuará a ter problemas com ovos e saladas. Em tribunal, a empresa alegou que a atuação do cozinheiro "não foi pontual e representa uma conduta continuada, foi reincidente e optou por não rever o seu comportamento com a instauração dos primeiros processos disciplinares, decidindo continuar a praticar atos que bem sabia serem alvo de reprovação por parte da sua empregadora e prejudiciais para o negócio", referindo--se a duas anteriores sanções disciplinares aplicadas.

Mais: referiu ainda a empresa que o trabalhador, no dia 6 de setembro de 2015, "durante período de almoço desse dia", hora de ponta para quem confeciona prego com ovo a cavalo, "revelou uma atitude desatenta, individualista e desinteressada, pouco ou nada cooperante com os seus colegas de trabalho a exercer funções, das mais diversas categorias profissionais, não os ajudando nos momentos em que tinha disponibilidade, originando um maior tempo de espera para os clientes serem servidos". Isto com o Ramsay ficava logo resolvido.

Certo é que, como já se referiu, o Tribunal da Relação de Lisboa não viu motivos para o despedimento. Porque, apesar do histórico disciplinar do cozinheiro, as situações "descritas e analisadas" surgiram como "pontuais, ocasionais, incomuns, não se traduzindo assim em condutas de ilicitude acentuada e censuráveis ao mais alto grau, de forma a entender-se a porta da desconfiança relativamente" à empresa. Foram só dois ou três dias maus na vida de um cozinheiro de pregos com ovo a cavalo.

Ao contrário do juiz chef Alves Duarte, que não admite um ovo demasiado passado, os desembargadores José Eduardo Sapateiro e Maria Costa Pinto consideraram que para punir as infrações existem na lei outras penas disciplinares mais proporcionais às mesmas.

Pelo sim pelo não, e caso o cozinheiro esteja a ler esta crónica, o melhor é passar pelo site www.paramim.com.pt, que tem algumas "dicas básicas" para estrelar um ovo. O primeiro passo consiste, como indica o site, em "abrir o ovo com cuidado". Depois, tempera-se, ao mesmo tempo que se aquece uma frigideira...

Por falta de espaço nesta coluna, aconselha-se a visita ao site indicado para conhecer as restantes dicas.

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