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Todos contra todos e todos contra Donald Trump. Democratas jogam as últimas cartadas antes das eleições primárias nos EUA

Logótipo de Expresso Expresso 14/01/2020 Luís M. Faria

O último debate entre candidatos antes de começarem as votações das primárias democratas tem lugar esta terça-feira

Elizabeth Warren, Joe Biden e Bernie Sanders, os candidatos democratas mais bem posicionados para ganhar as primárias © ROBYN BECK/Getty Images Elizabeth Warren, Joe Biden e Bernie Sanders, os candidatos democratas mais bem posicionados para ganhar as primárias

Quem será o democrata que vai enfrentar Donald Trump em novembro? Esta terça-feira, em Des Moines (Iowa), às oito da noite locais, duas da manhã em Lisboa, tem lugar o último debate entre os candidatos a candidato à Presidência dos Estados Unidos antes de começar a votação das primárias. O evento é promovido pela CNN e no palco estarão seis pessoas: o ex-vice-presidente Joe Biden, os senadores Bernie Sanders, Elizabeth Warren e Amy Klobuchar, o ex-mayor de South Bend (Indiana) Pete Buttigieg e o empresário Tom Steyer.

São estes os candidatos que conseguiram preencher os requisitos exigidos pelo Comité Nacional do Partido Democrata: 225 mil doadores individuais e índices mínimos de 5 ou 7 por cento de aprovação nas sondagens. Há ainda candidatos que não entram no debate mas permanecem na corrida, nomeadamente o bilionário Michael Bloomberg, que prometeu gastar até mil milhões de dólares na campanha, mesmo que seja a apoiar outros candidatos. Para ele, a prioridade absoluta é derrotar Trump.

Toda a gente parece concordar que o objetivo essencial é esse. Mas em relação ao modo de o atingir existem muitas divergências. Joe Biden, que se tem mantido geralmente à frente das sondagens, apresenta-se como um centrista e, sobretudo, como a encarnação viva do legado de Barack Obama. Mau grado a forma como muitos republicanos o apresentavam, Obama era de facto um moderado, em termos ideológicos, e ainda recentemente avisou os candidatos democratas para não assumirem uma postura demasiado “revolucionária”, alertando-os contra “a ala ativista” do partido democrático e “certos feeds de esquerda do Twitter”, que não serão representativos dos eleitores a cativar.

Mas numas primárias de um partido, por definição, são os membros mais motivados que é preciso atingir, e esses membros tendem para os extremos, sobretudo numa época tão polarizada como a atual. Assim, compreende-se o apoio de um candidato como Bernie Sanders, o senador do Vermont, que não rejeita o qualificativo de socialista, algo que em tempos teria sido anátema nos EUA.

Vendo de perto, as posições de Sanders não diferem muito das de qualquer social-democrata europeu. Sistema universal de saúde, por exemplo: só nos EUA – entre os países mais desenvolvidos, pelo menos - é que isso pode ser considerado uma posição extrema. Mas as condições do país são o que são e Obama não se atreveu a propor um sistema nessa linha. A sua lei de saúde ficou a meio caminho, mas mesmo isso bastou para fazer dela a bête noire dos republicanos desde há anos. Se não tivesse sido o voto contra do senador John McCain, entretanto falecido, Trump teria conseguido revogá-la em 2017, assim destruindo a realização mais importante do seu antecessor em política doméstica.

A saúde mantém-se uma questão central para os políticos democratas, e é seguro que será mencionada, talvez com destaque, no debate desta terça-feira, provavelmente mais do que o Irão ou até o impeachment do presidente. Afinal, o assunto já foi em boa parte responsável pelo triunfo democrata nas eleições para a Câmara de Representantes em 2018.

Bilionários em adegas

O primeiro estado onde os eleitores democratas terão oportunidade de votar é o Iowa, a 3 de fevereiro. Seguir-se-ão New Hampshire, Nevada e Carolina do Sul. Os dois primeiros são estados de população largamente branca, o que em princípio favorece candidatos democratas pouco populares entre os negros, como Pete Buttigieg. De resto, tem sido notado que não só os seis participantes no debate são todos brancos, como dois deles, Biden e Bloomberg, não andam longe dos oitenta anos. Elizabeth Warren tem 70, embora pareça bastante mais jovem, Klobuchar e Steyer têm respetivamente 59 e 62, e só Buttigieg, com os seus frescos 37 anos, pode ser visto como o representante de gerações mais novas, embora as suas ligações à indústria financeira anulem um pouco o efeito entre setores progressistas do partido.

Com um passado académico brilhante, uma passagem pelas forças armadas e anos de experiência executiva à frente de uma cidade, Buttigieg tem um currículo quase ideal. Ser gay pode favorecê-lo ou desfavorecê-lo, mas é sem dúvida um fator a levar em conta. No entanto, o que para já lhe tem valido críticas dos seus concorrentes é o facto de uma parte substancial das suas doações provir de milionários.

No debate anterior, em dezembro, Warren atacou-o por uma das suas sessões de angariação de fundos ter ocorrido numa adega onde foram servidos vinhos de garrafas que custavam novecentos dólares. “Bilionários em adegas não devem escolher o próximo presidente do Estados Unidos”, sentenciou Warren. Buttigieg sugeriu que Warren não tinha legitimidade para impor testes de pureza, até por ela própria ser milionária, e disse que toda a ajuda para derrotar Trump era bem vinda. Warren insistiu: “Eu não vendo acesso ao meu tempo. Não me encontro com doadores milionários à porta fechada”. “Desde quando, senadora?”, respondeu Buttigieg.

As vantagens da ‘incumbency’

Nos últimos dias, houve outra polémica envolvendo Warren, desta vez com o senador Bernie Sanders. Ela contou publicamente que ele lhe terá dito em 2018 que uma mulher jamais poderia vencer as eleições. O senador já tinha anteriormente negado essa história, explicando que o que disse foi que Donald Trump iria explorar todos os preconceitos que pudesse, e notou que os votos recebidos por Hillary Clinton em 2016 superaram em três milhões os de Trump. Mas o episódio é mais um que o atual presidente poderá explorar na sua própria campanha, ciente de que a maioria das pessoas de quem depende o resultado das eleições são os chamados ‘low-information voters’ (votantes de baixa informação), que só começam verdadeiramente a prestar atenção na fase final de uma campanha e são, portanto, mais suscetíveis à manipulação por meio de sound-bytes e clips curtos de vídeo.

Tudo está em aberto até à “super-terça feira” no início de março, quando votam 14 estados e são escolhidos 1345 delegados (1990 são necessários para conseguir a nomeação – 2376 se o resultado não for claro logo à partida na convenção democrata). Não há um favorito claro, embora as sondagens ponham Biden, Warren e Sanders à frente, seguidos a alguma distância por Buttigieg. Os resultados nos sucessivos estados vão com certeza trazer surpresas e muita gente teme que certas características nos candidatos democratas, em especial de idade mas não só, possam levar à reeleição de Trump.

A principal vantagem do atual presidente é justamente isso mesmo: ele já estar no cargo. Tradicionalmente, a chamada ‘incumbency’ favorece bastante o seu titular nas eleições. Resta ver se os democratas conseguem não apenas explorar tudo aquilo de aparentemente deplorável que Trump tem feito, como apresentar-se à maioria dos americanos como uma alternativa melhor. Para ganhar umas eleições não basta não ser o outro. Afinal, já nas eleições de 2016 se ouvia a palavra de ordem ‘anyone but Trump” (todos menos Trump), e o resultado final foi o que se viu.

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