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No caminho até Santiago faz falta o som dos passos dos peregrinos

Logótipo de Notícias ao Minuto Notícias ao Minuto há 2 dias Lusa

No caminho português pela costa, que parte do Porto e passa pelo Minho até Santiago de Compostela, na Galiza, ouve-se a natureza, mas falta o som dos passos de milhares de peregrinos que a pandemia silenciou nos dois países.

No caminho português pela costa, que parte do Porto e passa pelo Minho até Santiago de Compostela, na Galiza, ouve-se a natureza, mas falta o som dos passos de milhares de peregrinos que a pandemia silenciou nos dois países. © Getty Images No caminho português pela costa, que parte do Porto e passa pelo Minho até Santiago de Compostela, na Galiza, ouve-se a natureza, mas falta o som dos passos de milhares de peregrinos que a pandemia silenciou nos dois países.

"Ouvem-se os pássaros, os grilos, o vento, mas falta o som dos passos dos peregrinos, do cajado a bater nas pedras e a marcar o ritmo da caminhada, das conversas em idiomas de todo o mundo ou das cantigas entoadas em grupo. É triste", desabafa Alberto Barbosa, o presidente da Associação dos Amigos dos Caminhos Santiago de Viana do Castelo.

O mesmo silêncio atravessa os caminhos Interior e Central nesta rota milenar seguida por milhões de peregrinos desde o início do século IX, quando foi descoberto o sepulcro do apóstolo Santiago Maior em Santiago de Compostela, capital da Galiza, em Espanha.

O surto do novo coronavírus quase parou aeroportos, repôs fronteiras entre Portugal e Espanha e impediu a peregrinação rumo à catedral de Santiago, encerrada desde 13 de março, para venerar as relíquias do santo. A pé, a cavalo ou em excursões, faltam as pessoas no caminho, que no ano passado atingiu um recorde, com 350 mil peregrinos.

O movimento na rota parou há mais dois meses. Suspendeu negócios que germinaram e tinham tudo para ganhar dimensão com o retorno da peregrinação.

"O caminho espalha economia por onde passa. Da pequena mercearia ao café, do restaurante ao alojamento, dos transportes a outros serviços. É uma microeconomia que gera receitas para as localidades mais pequeninas e isso é que é muito interessante no caminho", reforçou Alberto Barbosa.

O "pico" da presença dos peregrinos na região começa em março e estende-se até final do verão. Em 2019, mais de 80 mil passaram por Valença, rumo a Tui, através da centenária ponte sobre o rio Minho.

Só no albergue de São Teotónio, o primeiro dos três municipais existentes no Alto Minho, pernoitaram 10% daqueles viajantes. O edifício está fechado e sem data para reabrir.

"Até setembro os albergues públicos não devem abrir. Têm de se adaptar e não vai ser fácil, ao contrário dos privados", explicou à Lusa o vereador do turismo da Câmara de Valença.

José Monte antevê uma redução "drástica" da capacidade do albergue, com duas camaratas e 60 beliches, que até agora acolhiam "muita gente, de todos os destinos".

"Estamos à espera de orientações para nos adaptarmos", referiu, olhando o edifício inaugurado há 15 anos.

Mas, desabafa, com o controlo das fronteiras desde março, que impede as deslocações turísticas e de lazer entre os dois países, sendo apenas permitida circulação de transportes de mercadorias e de trabalhadores transfronteiriços, é "muito difícil" ver "alguma luz ao fundo túnel".

"Mal a nossa ponte internacional, um marco do caminho, esteja aberta e não haja condicionalismos julgo que as pessoas, naturalmente, irão fazer o caminho, seguindo as regras e procurando espaços privados", vaticinou o autarca.

Além dos peregrinos, Valença está privada da visita regular dos vizinhos galegos, que estão a 400 metros de distância, em Tui. A fortaleza portuguesa, habituada a 12 mil pessoas por dia, está deserta. Dos 200 estabelecimentos comerciais instalados no interior, poucos reabriram e o silêncio tomou conta de ruas e vielas.

"Havia uma cultura de sinergias que funcionava em função da ponte. Havia uma rotina dos espanhóis viram a este lado fazer compras, almoçar, jantar. O bacalhau é o prato de eleição. Hoje isso reduz-se a nada", desabafou José Ponte.

Perto da muralha, com vista para o Minho e para as duas pontes, João Teixeira regressa a casa, de sachola ao ombro. Mata o tempo em trabalhos no quintal porque a loja de numismática, filatelia e velharias, no rés-do-chão da habitação, está fechada. Faltam os clientes, "cerca de 80% de espanhóis".

"O pouco dinheiro que tínhamos amealhado foi todo. Enquanto não abrirem a fronteira isto vai ser um caos. É muito triste", afirmou, lamentando também a ausência dos peregrinos que lhe compravam "muitas conchas de Santiago".

Em Caminha, não há ponte, mas há um 'ferryboat' parado. No centro da vila o albergue gerido pela associação presidida por Alberto Barbosa acolhia mais de seis mil peregrinos por ano. Fechou e já não reabre este ano.

"Este é um espaço de partilha. Pode não ser muito compatível com o novo coronavírus que não se dá muito bem com partilhas. É difícil adaptar estes espaços às exigências da DGS [Direção-Geral da Saúde]. É preciso investir e é preciso ver se justifica", explicou.

Já em Carreço, Viana do Castelo, no alojamento local criado por Hugo Lopes na casa que herdou da família, as portas reabriam com o desconfinamento, com redução de 30% na lotação e as normas impostas pela covid-19. Em todos os recantos da Casa do Sardão está presente a passagem de peregrinos, mas deles agora nem sinal.

Mas, apesar da incerteza quanto ao futuro, o professor de educação física que trocou o ensino por um novo projeto de vida quis acender uma "luz ao fundo do túnel".

"Para motivar as pessoas. Dar-lhes algum conforto e alento para que comecem a reorganizar os projetos de viagens, de peregrinação. Não que o façam agora, mas que pelo menos vejam uma luz ao fundo do túnel", referiu.

Hugo viveu no estrangeiro, lecionou nos PALOP, mas foi nos montes de Carreço, naquele "espaço de partilha", que diz ter experienciado a "mudança" mais "positiva" na sua vida.

"O sentimento que existe aqui é muito especial. A peregrinação a Santiago não é turismo, pode ser entendido como uma forma de turismo, mas não é. O espírito que se vive é completamente diferente", frisou.

Hugo Lopes sabe que a normalidade vai demorar a chegar à tradição secular, mas acredita que chegará.

"Vai durar um bocadinho. Vai ser uma partilha com distanciamento quanto baste. Vamo-nos aproximando consoante nos permitam aproximarmo-nos", rematou.

Em Portugal, morreram 1.289 pessoas das 30.200 confirmadas como infetadas, e há 7.590 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

  

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