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Onda de violência chega a uma semana no Ceará com 185 presos

Logotipo do(a) VEJA.com VEJA.com 09/01/2019 Da Redação


A onda de violência que assola o Ceará chegou nesta terça-feira, 8, ao sétimo dia. Segundo a última parcial divulgada pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Pública (SSPDS-CE), 185 pessoas já foram presas por envolvimento em atos criminosos no período. Desses, 29 são adolescentes.

Ao menos 180 ataques foram realizados durante a semana de crise na segurança pública, segundo levantamento do jornal O Estado de S. Paulo. O governo não possui um balanço oficial.

Na última madrugada, criminosos explodiram uma ponte no km 6 da BR-222, no bairro São Geraldo, em Caucaia, a 18 km de Fortaleza. Ônibus foram incendiados na capital e no interior. Além dos crimes contra veículos e prédios públicos, foram registradas ao longo dos últimos sete dias 14 atuações por coações a comerciantes.

A onda de violência também abrange o interior dos presídios. Até o momento, foram contabilizados casos de 191 detentos envolvidos em crimes de desobediência, resistência e motim, segundo a Polícia Civil. Na segunda-fera 7, 23 presos fugiram da Cadeia Pública de Pacoti, cidade a 103 quilômetros da capital, Fortaleza. A fuga ocorreu de manhã, durante o banho de sol, quando os detentos pularam o muro da cadeia e tiveram acesso à área externa. 

A Secretaria de Administração Penitenciária afirma, ainda, que 20 líderes de facções foram transferidos para presídios federais.

Governador se pronuncia

Na noite desta terça-feira 8, o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), se reuniu com representantes de órgãos de segurança, na sede da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS).

“Circulei pelas ruas de Fortaleza durante a tarde para conversar com nossos policiais, que têm sido guerreiros no combate ao crime, e com nossa população, a razão maior da nossa missão”, declarou Santana em suas redes sociais.

Reforços chegam de diversas partes do país para combater a crise. Na noite da segunda 7, começaram a desembarcar em Fortaleza 200 policias da Força Nacional que se juntaram aos 300 que já atuam no estado desde o final de semana. Três estados (Pernambuco, Piauí e Santa Catarina) também se prontificaram a enviar um total de 43 policiais e agentes de inteligência para apoiarem as forças de segurança. O estado da Bahia foi o primeiro a colaborar, com envio de 100 policiais militares do Batalhão de Choque para o Ceará.

© Foto: Alex Gomes/Getty

Onda de boatos

A onda de violência tem sido marcada por boatos de toque de recolher supostamente ordenado pelo estado e difundido pelas redes sociais, e comprometimento de serviços essenciais, como coleta de lixo e transporte. O sindicato dos médicos orientou os profissionais a não trabalhar até que os ataques cessem. Com medo, comerciantes estão fechando as lojas.

A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará publicou comunicado para acalmar a população negando ter adotado toque de recolher. Também se espalham nas redes sociais boatos de ataques a lojas que permanecem abertas. A pasta classificou os boatos de “prática criminosa” e disse que a estratégia é a “reação encontrada por criminosos às ações das forças de segurança do Estado e do governo federal”.

Com medo, comerciantes estão fechando as portas mais cedo. Segundo a secretaria, foram detidos 11 adultos e três adolescentes pela distribuição de panfletos com ameaças a comerciantes na Grande Fortaleza.

Na capital, a coleta de resíduos está prejudicada. Nos bairros Centro, Benfica, Damas e Montese há amontoados de lixo. Uma moradora de Benfica, que não se identificou por temer represália, contou que o caminhão de lixo até passou nos dias corretos, mas os lixeiros não desceram do veículo. A prefeitura disse se esforçar para manter os serviços essenciais.

Transporte público

A circulação de ônibus continua prejudicada, apesar das medidas adotadas pelos governos, como a colocação de policiais dentro dos coletivos. “O ônibus que eu pego demora dez minutos para passar, mas hoje (terça) esperei 40 minutos. No terminal, peguei outro e em nenhum dos dois vi PM, a não ser que eles estivessem à paisana”, diz o estudante Samuel Sousa. Segundo o governo, há policiais fardados e à paisana nos coletivos.

Moradora do Bom Jardim, na periferia de Fortaleza, a atendente de telemarketing Ana Paula Mendes relatou que os ônibus têm alterado os itinerários. “O ônibus que passava do lado da minha casa, já não passa nem na minha rua. Sem contar que, quando começam a queimar os ônibus, eles recolhem tudo e as pessoas ficam esperando nos terminais e nas paradas, sem saber se ainda vai passar ou não.”

Segundo o Sindionibus, quando há denúncia ou ameaça de atentado contra os veículos, é feita avaliação pela Secretaria da Segurança sobre os riscos, e isso pode desencadear atrasos.

Também nesta terça, a Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos informou, por nota, a suspensão temporária das linhas Sul, Oeste e do VLT Parangaba-Mucuripe, a partir das 20 horas, por motivos de segurança.

O Sindicato dos Médicos do Ceará divulgou comunicado aos profissionais recomendando que eles não compareçam ao trabalho enquanto a violência perdurar. Também ofereceu apoio jurídico e oficiou prefeituras e o Estado sobre a decisão. Para tentar evitar as faltas, a Secretaria de Saúde de Fortaleza disse nesta terça que os servidores dos postos de saúde que faltarem terão o ponto cortado com desconto salarial.

Especialistas criticam ação do governo no Ceará e sugerem rastreamento do dinheiro das facções

Especialistas das áreas criminal e constitucional criticaram as ações do Estado do Ceará contra as organizações criminosas. “Infelizmente a situação se agrava pela falta de corretas políticas de segurança durante os últimos anos nesses estados. Não se pode combater o crime sem o devido preparo, sem estratégia e com o que há de mais moderno e eficiente. O enfrentamento é consequência disso e não adiantam medidas paliativas. É necessário o combate ostensivo para restabelecer a ordem, mas sobremaneira planejar ações coordenadas e preventivas”, afirma o criminalista Daniel Leon Bialski.

Para a advogada constitucionalista Vera Chemim, os governos municipal, estadual e federal deveriam agir em ações integradas para neutralizar os criminosos. Chemim também defende o rastreamento do dinheiro das facções, para enfraquecê-las, diminuindo seu poder em influência. “Por outro lado, é necessário que se invista na educação, operacionalizando ações voltadas ao efetivo acesso das comunidades carentes ao ensino e ao mesmo tempo criar mecanismos que possibilitem a inclusão dessas pessoas no mercado de trabalho”, completou a advogada.

O advogado criminalista e constitucionalista Adib Abdouni criticou o envio repetido da Força Nacional a estados com crise de segurança. “Isso resulta de uma precária ação política, a fim de responder de forma instantânea ao clamor da sociedade e da imprensa, cujos efeitos ostentam evidente efeito meramente paliativo”, criticou Abdouni. “O momento exige a adoção urgente de medidas que modernizem o aparelho estatal e tornem a gestão do serviço público mais eficiente, com aporte definitivo de investimentos em tecnologia e inteligência das forças policiais, mediante a integração e cooperação das polícias dos estados, melhoramento das unidades prisionais, além da informatização unificada dos dados sobre a população penitenciária.” 

(com Estadão Conteúdo)

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