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Portugal vai ‘emprestar’ ao Brasil o coração de Pedro I no festejo do bicentenário da Independência

Logotipo do(a) IstoÉ IstoÉ 13/05/2022 Antonio Carlos Prado e Fernando Lavieri
VENERAÇÃO Dom Pedro I, em tela de Henrique José da Silva, e seu coração, mumificado e conservado na cidade do Porto: símbolo de libertação Divulgação © Divulgação VENERAÇÃO Dom Pedro I, em tela de Henrique José da Silva, e seu coração, mumificado e conservado na cidade do Porto: símbolo de libertação Divulgação © Divulgação

Igreja Nossa Senhora da Lapa, fundada em 1779 na cidade portuguesa do Porto. O responsável por sua cripta tem em mãos cinco chaves. A primeira delas se presta a destrancar uma pesada placa de cobre. A segunda e a terceira removem duas proteções gradeadas de ferro. Agora, já se vê um cofre, e ele será aberto com a quarta chave. Mais uma fechadura. E eis que a quinta dá acesso a um vaso de prata no qual há um recipiente de vidro e, em seu interior, guarda-se um coração. É o coração da Independência do Brasil: é o coração, mumificado e conservado em alta concentração de formol, de Dom Pedro I. É esse coração que o governo federal brasileiro almeja que Portugal nos empreste para a comemoração do bicentenário da Independência, proclamada pelo então príncipe regente Pedro, às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, a Sete de Setembro de 1822.

FÉ Igreja Nossa Senhora da Lapa, no Porto, fundada em 1779: guardiã de nosso passado © Divulgação FÉ Igreja Nossa Senhora da Lapa, no Porto, fundada em 1779: guardiã de nosso passado

A revelação foi feita pelo diplomata George Prata, membro da Equipe Coordenadora das Atividades Culturais que envolvem o festejo histórico. Ainda não foi encaminhada a solicitação formal ao governo português, uma vez que se estudam as condições de segurança para o traslado do órgão. “Se não há riscos, é interessante ceder o coração temporariamente”, declarou o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Souza, ao jornal lusitano Expresso. O coração, que está no Porto desde a morte de Pedro, em 1834, foi visto publicamente pela última vez há sete anos. A Câmara da cidade, guardiã das cinco chaves imprescindíveis à transposição dos umbrais que o protegem, autorizou sua filmagem para um documentário.

Ao proclamar a Independência, Pedro se tornou imperador do Brasil sob o título de Dom Pedro I – aqui chegou em 1808, com seu pai, Dom João VI, e toda a Corte, saída de Portugal devido às guerras napoleônicas. Com o retorno de Dom João, ele tornou-se regente; com a Independência, rei. E a proclamou porque estava insuportável a pressão da elite agrária em meio à crise do sistema colonial. E a proclamou porque ideais iluministas faziam-se sentir por aqui. E a proclamou porque nas Américas inglesa e espanhola cortavam-se laços com as metrópoles. Pedro I deixou o Brasil em 1831, quando abdicou do trono em decorrência da inoperância da monarquia como poder moderador e por causa do extremismo entre conservadores e liberais. Deixou o filho em seu lugar, ainda criança, que se tornou um dos mais cultos governantes do Brasil: Pedro II. Em 1834 Pedro I morreu de tuberculose, em Portugal. Atualmente, apenas o seu coração está fora do Brasil. O mais de seus restos mortais já foi trazido ao País em Sete de Setembro de 1972 e encontra-se na cripta do Museu do Ipiranga. A reabertura desse museu completamente reformado e a provável vinda do coração são os pontos altos da festa de 2022.

 IMAGINÁRIO Quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo: mais nobre item do Museu do Ipiranga © Marco Ankosqui IMAGINÁRIO Quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo: mais nobre item do Museu do Ipiranga

Após nove anos fechado para obras, o Museu do Ipiranga será reinaugurado no Sete de Setembro. A novidade maior fica no subsolo, em área de sete mil metros quadrados, que abrigará salão destinado a exposições temporárias, auditório para trezentas pessoas, lojas e cafeterias. Ao todo, três mil peças foram cuidadas em três ateliês. Destaque para os cento e doze quadros, todos restaurados, e maior destaque ainda para a grande vedete: a tela Independência ou Morte, pintada em Florença, sessenta e seis anos após a Independência, pelo artista plástico paraibano Pedro Américo. O quadro, que mede quatro metros e quinze centímetros de altura por sete metros e sessenta centímetros de largura (é cópia de Napoleão 3º na Batalha de Solferino, de Jean-Louis Ernest Meissonier), passou por restauro sem que fosse retirado do local onde está no museu, desde 1895. Toda a obra custou R$ 211 milhões, com recursos advindos do Estado de São Paulo, do governo federal e da iniciativa privada.

UNIÃO Augusto Santos Silva (à esq.) e Rodrigo Pacheco, em Coimbra: seleção de textos políticos © Pedro Gontijo UNIÃO Augusto Santos Silva (à esq.) e Rodrigo Pacheco, em Coimbra: seleção de textos políticos

Ainda no campo da cultura é importante a viagem feita no mês passado pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, junto com o senador Randolfe Rodrigues, presidente da Comissão Curadora do Bicentenário. Eles foram à cidade portuguesa de Coimbra, onde os aguardavam intelectuais e o presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva. Resultado do encontro: o excelente projeto 200 anos, 200 livros, seleção de textos publicados aqui e em Portugal entre 1821 e 1824. Desimportante, por incrível que pareça, é aquilo que mais deveria ter sido construído com rigor: a campanha do governo federal. Diz um trecho: “um jovem príncipe, do alto de seu cavalo, ergueu sua espada. (…) Com a ousadia de sua afronta, fez soberana a nossa Nação”. O texto peca, e muito, pelo ufanismo vazio e militarizado. Trata Pedro I feito Dom Quixote, que agia conforme indicavam os meneios de cabeça de seu cavalo, Rocinante. O cavalo de Pedro não indicou nada. A Independência foi proclamada porque o então regente e o povo assim o quiseram. Segundo anotações deixadas pelo padre Belchior Oliveira, um de seus conselheiros, o cavalo nem alto era.

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