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À procura da felicidade: Orkut aposta em rede sem haters nem fake news

Logotipo do(a) Exame.com Exame.com 15/09/2018 Mariana Fonseca
Orkut Büyükkökten: hello, sucessora espiritual da rede social Orkut, já passou de um milhão de usuários, espalhados por 12 países © Divulgação Orkut Büyükkökten: hello, sucessora espiritual da rede social Orkut, já passou de um milhão de usuários, espalhados por 12 países

Houve uma época no Brasil em que só se falava no turco Orkut Büyükkökten. Para ser mais precisa, do seu primeiro nome. Isso porque ele o emprestou para seu próprio negócio, que chegou a conquistar 40 milhões de brasileiros, ou sete a cada dez pessoas que tinham acesso à internet: o Orkut.

Ao todo, a rede social criada em 2004 acumulou 300 milhões de usuários. Eles trocaram visualizações em perfis, depoimentos, recados (ou scraps) e conversas espalhadas por diversas comunidades, que iam de discussões sobre o universo até reclamações sobre acordar cedo e memes incipientes.

Porém, a internet é um organismo em constante evolução – e o Orkut não resistiu a novidades como a adoção crescente de smartphones. A rede social foi oficialmente terminada após dez anos, em 30 de setembro de 2014, e cedeu seu espaço a gigantes como Facebook, Instagram, Twitter e WhatsApp.

Mas quem acha que Büyükkökten sumiu do mapa está enganado. Há dois anos, o empreendedor anunciou a criação do sucessor simbólico do Orkut, chamado hello, que agrupa usuários em torno de conhecimentos. O negócio está crescendo, com 1,1 milhão de usuários em 12 países, e ganhou impulsos significativos nos últimos tempos, com a proliferação das fake news, notícias desinformadoras que inflamam o trabalho dos haters, usuários que espalham o ódio a tudo e a todos pelos confins da internet.

“As empresas de redes sociais atuais priorizam as necessidades de anunciantes, marcas e acionistas, otimizando o tempo de uso dos usuários para aumentar sua exposição a anúncios”, afirmou Büyükkökten em encontro com EXAME. “A felicidade é que deveria ser otimizada. Não importa se você passa quatro ou quatrocentos minutos em uma rede social, e sim se aquela é ou não uma boa experiência.”

Confira, a seguir, os principais trechos da conversa com Orkut Büyükkökten, criador da hello:

EXAME O que a hello tem de tão diferente em relação a outras redes sociais?

Orkut Büyükkökten — As redes sociais mais populares de hoje permitem que você compartilhe novidades com seguidores ou converse de um para um ou em pequenos grupos de conhecidos. Ou, ainda, possuem focos específicos: o Tinder, para encontros; o Twitch, para jogos; e o LinkedIn, para assuntos profissionais.

Mesmo com tantos empreendimentos de conexão, nós nunca nos sentimos tão solitários quanto agora. Há uma correlação forte entre os que usam redes sociais e apresentam sintomas de ansiedade, depressão e isolamento. Nós nunca fomos tão conscientes das outras pessoas: temos milhares de amigos, presenciamos seus casamentos fantásticos e suas viagens intermináveis pelo mundo e acreditamos que esses momentos de felicidade, muitos deles falsos, representam a vida. É uma cascata de informação da qual nós nunca precisamos, que geram insegurança e a sensação de que nunca alcançaremos uma felicidade como essa.

Estrategicamente, as plataformas foram desenhadas para que nós tenhamos exposição pessoal, e é assim que elas ganham dinheiro. Não há uma rede social que aproxime as pessoas simplesmente por seus interesses sociais, indo além do indivíduo. Muitos estão abandonando as redes sociais e se sentem mais felizes com isso.

Essa situação não acontecia no Orkut. Conectar-se e seguir nossas paixões são necessidades básicas do ser humano, e essa era a missão das comunidades. Era o recurso mais amado do Orkut e, agora, é a missão da hello. Desde que lançamos no Brasil, coletamos as mesmas histórias maravilhosas, de pessoas que viajaram o país para se encontrarem pessoalmente ou que descobriram o amor.

Existe algum erro que você cometeu no Orkut – e não gostaria de cometer na hello?

Houve uma mudança dramática de uso do desktop para o mobile, e o Orkut não se adaptou. Nesse novo projeto, comecei a levar mais em consideração essas mudanças e como podemos fazer uma solução mais escalável, que chegue cada vez a novos usuários.

Os usuários estão cada vez mais preocupados em relação ao uso de seus dados em anúncios, que são a forma mais comum de monetização online. Como a hello pretende ser diferente nesse aspecto?

Há uma afirmação corrente de que a monetização faz as redes sociais se tornarem piores. Poucas pessoas se lembram disso, mas o Orkut tinha anúncios. A diferença é que eles não eram intrusivos e se combinavam à experiência do nosso usuário. As marcas fazem parte de nossa vida e até nos tornamos fãs de algumas delas, se tiverem um posicionamento adequado.

Na hello também iremos introduzir as marcas dessa forma orgânica. Ao se inscrever, o usuário escolhe seus principais interesses, como atividades ao ar livre e comida, e constrói o que chamamos de “persona”. Essa informação faz com que anúncios direcionados se tornem muito mais fáceis de serem feitos e se tornam algo benéfico ao usuário. Se eu fosse um foodie, adoraria saber que um novo restaurante foi aberto em São Paulo. Ou, se eu fosse um adepto às corridas, me interessaria em um novo tênis da Adidas ou da Nike. Mesmo assim, os usuários sempre terão a opção de não receberem mais a publicidade de uma marca.

Além desse plano de anúncios, já introduzimos uma forma diferente de monetização, que são moedas próprias. Com as “hello coins”, o usuário pode acessar novos recursos, como postagens anônimas – você pode querer dar uma opinião política ou contar algum problema pessoal, mas não querer que seu perfil seja exposto. É uma monetização similar à dos jogos freemium [gratuitos para uso casual, mas com upgrades pagos].

Mas a possibilidade de postagens anônimas não fomentaria bullying e discursos de ódio, por exemplo?

Não presenciamos nenhum uso como esse até o momento. Mas temos três formas de controlar, caso venha a acontecer: os usuários podem reportar conteúdo inadequado; temos uma equipe de moderação de conteúdo; e temos um algoritmo com inteligência artificial e machine learning que ajuda o trabalho dos nossos funcionários nessa filtragem.

Como vocês enxergam a disseminação dasfake news? A hello possui alguma política para evitá-las?

As empresas de redes sociais atuais priorizam as necessidades de anunciantes, marcas e acionistas, otimizando o tempo de uso dos usuários para aumentar sua exposição a anúncios. Empresas pagam para aparecer mais, enquanto no mundo real a reputação se constrói com tempo, com uma relação de confiança com o cliente.

Não há um interesse nos usuários, e eles precisam ser o foco, já que estamos falando de uma plataforma para as conexões humanas. A felicidade é que deveria ser otimizada. Não importa se você passa quatro ou quatrocentos minutos em uma rede social, e sim se aquela é ou não uma boa experiência.

Por isso que na hello temos um sistema chamado “karma”, no qual sua reputação e sua distribuição de conteúdo aumentam à medida que você interage com usuários eles endossam o que você posta. Nesse contexto, as fake news não seriam espalhadas.

Você não acredita que as pessoas apoiaram um conteúdo, mesmo que cheio de dados falsos, porque a opinião final se assemelha às delas?

Acredito que isso seja uma minoria. Há um grande problemas com os feeds de notícias hoje, que em sua mistura fazem as pessoas acreditarem no que é falso e duvidarem do que é verdadeiro. Não dá mais para saber o que é real, e é responsabilidade das redes sociais valorizarem postagens apuradas. Na hello, temos esse sistema de “karma”.

Como está sendo a recepção no Brasil? E quais são as próximas metas?

Nosso engajamento por aqui melhora a cada nova medição e, hoje, cerca de 54% dos nossos usuários brasileiros usam a rede de forma ativa. Para eles, o tempo de utilização média da hello é de 336 minutos por mês – o que é maior do que todas as redes sociais, com exceção do Facebook, que passa dos 700 minutos.

No momento, nossa estratégia é focar no Brasil e na Índia. Percebemos uma assimilação cultural da hello com esses países, especialmente no primeiro caso. Os brasileiros possuem um senso de comunidade e são tão amigáveis que as conexões se fazem de forma natural. É algo natural às pessoas, e estou feliz de visitar o Brasil após tanto tempo [sua última visita ao país foi em 2009]. Mais para o futuro, também queremos explorar os Estados Unidos mais a fundo e lançar a rede social na Alemanha.

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