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Como Banksy fez uma crítica ao capitalismo participando dele

Logotipo do(a) HuffPost Brasil HuffPost Brasil 4 dias atrás Priscilla Frank
© Anton Vaganov via Getty Images

Foi como cena de cinema.

"Girl With Balloon (Menina com Balão), senhoras e senhores no fundo da sala", anunciou o leiloeiro Oliver Barker com convicção.

Ele estava se referindo ao último lote que iria a leilão na última sexta-feira, 5 de outubro, na Sotheby's, Londres. A obra é uma pintura feita com tinta a spray do artista de rua anônimo Banksy.

Quando chegou a hora de leiloar a obra de Banksy, Barker começou a gritar preços na casa dos seis dígitos. Os potenciais compradores davam lance atrás de lance, aumentando o preço da peça em ritmo frenético. Mulheres de vestido e colares de pérolas recebiam pelo telefone lances de colecionadores anônimos. Homens de terno faziam anotações em seus caderninhos.

"Vendido!", exclamou Barker, batendo o martelo. O preço final foi 1,4 milhão de dólares – mais de três vezes maior que a estimativa inicial --, empatando com o recorde de outro trabalho de Banksy vendido em leilão.

Naquele instante, porém, a moldura pesadona começou a emitir um bipe alto e insistente. A tela começou a deslizar para baixo dentro da moldura, e do lado de fora começaram a aparecer trapos. O processo de autodestruição parou na metade, deixando intacta a parte de cima da tela. A parte de baixo, entretanto, virou uma coleção de tiras.

Seguranças correram para retirar a obra da parede, enquanto o público boquiaberto filmava tudo com celulares. Um homem, assustado como se tivesse visto um fantasma, passou a mão na testa; outro observava a cena estupefato, mas com um sorrisinho infantil no rosto.

"Senhoras e senhores, vamos continuar, se puder contar com sua atenção!", disse o leiloeiro. Falar é fácil, Oliver. Não é todo dia que um artista cria uma obra de arte milionária que se autodestrói.

"Parece que fomos Banksy-zados", disse Alex Branczik, diretor sênior e chefe de arte contemporânea na Europa e em Londres, numa entrevista coletiva.

Para quem não costuma frequentar leilões de arte multimilionários, a pegadinha ofereceu uma imagem inesperada e deliciosa: colecionadores empertigados e vendedores arrumadinhos em silêncio absoluto, e ao fundo o som do dinheiro sendo retalhado.

A trollagem épica logo se transformou em um Evento Histórico da Arte™, efusivamente elogiado pela crítica.

"Banksy fez uma pegadinha com o mundo enganoso dos leilões e criou uma ruptura no fluxo de capital – nem que seja por uma noite", tuitou o crítico de arte da revista New York, Jerry Saltz. "Não sou fã de Banksy, mas isso me deixou com vontade de dançar descalço com ele."

Saltz explicou sua reação eufórica em entrevista à rádio NPR. "O mercado é um organismo burro", disse ele. "As pessoas do mercado compram o que as outras pessoas do mercado compram. E, de repente, uma das coisas que elas compraram mudou."

Para Saltz, o gesto de Bansky foi um dedo do meio artístico dirigido aos excessos grotescos do mercado de arte. E ele não estava sozinho. "A arte retalhada de Banksy foi uma resposta de um mestre ao consumismo vazio", propôs um explicador do site Vox, acrescentando que, "se tem uma coisa que você nunca vai poder chamar Banksy é de vendido".

Mas o quanto o truque de Banksy foi realmente "uma resposta ao consumismo vazio"? Especialmente depois de o especialista Joey Syer estimar que a obra semi-retalhada agora possa valer o dobro do preço inicial, "talvez até 2 milhões de libras (2,6 milhões de dólares)".

Em e-mail ao HuffPost, os especialistas em arte de rua Steven Harrington e Jaime Rojo, responsáveis pelo blog Brooklyn Street Art, disseram que essa estimativa pode ser conservadora. "O preço original não existe mais", explicaram eles. "Existe um preço novo, uma transformação do antigo, e com ele vêm uma história bem documentada que inclui performance, uma audiência estupefata, uma discussão global nas redes sociais. É difícil dizer quanto [o preço] pode subir. O dobro pode ser só o começo."

Como tuitou o diretor Kaveh Abbasian: "Isso é o capitalismo em sua forma mais traiçoeira, se vendendo como anticapitalismo?"

A questão é que, ao se rebelar contra o establishment endinheirado das artes, Banksy ainda sai no lucro. Segundo o The New York Times, a Sotheby's não revelou a identidade do vendedor da obra, comprada "diretamente do artista pelo dono atual em 2006", segundo o catálogo da casa de leilões. Mas, mesmo que o artista não receba um único centavo dos 1,4 milhões, ele garantiu que as estimativas futuras para suas obras que forem a leilão levem em conta o potencial de novas pegadinhas depois de batido o martelo – e os preços inflados que se seguem.

Banksy há muito tempo é artista e troll, revolucionário e hipócrita. O establishment das artes tolera suas tentativas de subversão porque ele não cospe no prato em que come. Em vez disso, ele prefere uma palmadinha e depois um beijinho. (Girl with Balloon colocou a Sotheby's de novo no noticiário, certo?)

Essa pegadinha mais recente me fez pensar na série This Is America, de Sacha Baron Cohen, na qual ele engana as pessoas para mostrar como os Estados Unidos estão quebrados. Como Cohen, o poder e o privilégio de Banksy limitam sua capacidade de desmontar um sistema do qual ele claramente se beneficia. Será que o gesto não foi somente um lembrete de que ele tem superpoderes e nunca está errado? A esta altura, será que Banksy não é grande demais, rico demais, famoso demais para criticar o mercado que lhe trouxe tudo isso?

"Banksy é tão capitalista quanto os outros", dizem Harrington e Rojo no email. "Quem disser o contrário está vivendo em negação."

Também vivendo em negação está a Sotheby's.

A casa de leilões afirmou ser inocente; Branczik disse que "não estava sabendo do truque". Mas vários fatores sugerem que a empresa sabia o que estava por acontecer. A obra de Banksy foi a última a ir a leilão naquele dia, embora não fosse a mais cara da noite. Além disso, como observou Andrew Bloch no Twitter, uma obra daquele tamanho normalmente é exposta num cavalete e em cima do palco, não pendurada na parede. E temos de acreditar que os especialistas que inspecionaram a obra antes da venda não perceberam que havia uma fragmentadora de papel embutida na moldura?

A Sotheby's não atendeu aos pedidos de entrevista do HuffPost nem respondeu se sabia previamente da performance. Também não disse se o vendedor expressou algum tipo de insatisfação com o fato de sua compra ter sido retalhada.

Outra frustração é que a tramoia de Banksy roubou a atenção de outro momento histórico ocorrido naquela noite: o preço recorde obtido por uma artista viva. A tela Propped, de Jenny Saville, foi vendida por 9,5 milhões de libras (12,4 milhões de dólares), um marco importante para a luta das artistas que querem ver suas obras vendidas por preços comparáveis às dos pares homens. Mas provavelmente você não ouviu falar disso.

É verdade que a pegadinha de Banksy foi uma travessura no mundo certinho das artes, como acender uma vela num quarto mofado. No mínimo, ele fez as pessoas engasgarem e dar risada, o que em si já é um ato de caridade diante do que se vê no noticiário.

Alguns vão chamar o evento de jogada de relações públicas ou de uma pegadinha bonitinha, outros, como um marco histórico parecido com A Fonte, de Marcel Duchamp. A fronteira obscura entre os dois lados é sintoma do momento que atravessa a arte de hoje: o hype nas redes sociais tem mais peso que a opinião de especialistas e acadêmicos. É cada vez mais difícil decifrar uma provocação que quer "quebrar a internet" de uma inovação artística que vai mudas as regras do jogo.

Mas uma coisa é certa: ainda não é hora de sair retalhando sua coleção de arte. Como disse Syer num tweet: "Muita gente que tem obras de #Banksy entrou em contato perguntando se suas obras vão valer mais se forem retalhadas. Por favor, por favor, NÃO FAÇAM ISSO".

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