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Programa reduz evasão escolar de mães adolescentes

Logotipo do(a) Estadão Estadão 02/05/2022 Levy Teles

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Inspirada pela madrinha professora, Elida Santos, de 18 anos, moradora de Santa Rosa de Lima, pequeno município do interior sergipano com cerca de 4 mil habitantes, sempre alimentou o sonho de cursar uma faculdade. Durante um momento no Ensino Médio, porém, o sonho pareceu mais distante – e a vergonha foi o motivo. Quando engravidou pela segunda vez, aos 16 anos, (a primeira foi aos 13), afastou-se da escola.

“Quando a barriga começou a crescer, eu senti muita vergonha”, disse. “Aqui no interior é mais pesado. Ouvia muitas piadas de mau gosto. Esse julgamento me afetava e eu não conseguia sair de casa porque não queria escutar esse tipo de coisa.”

Elida Santos, de 18 anos, vai cursar Engenharia de Produção na Universidade Federal de Sergipe © Jorge Henrique/Estadão Elida Santos, de 18 anos, vai cursar Engenharia de Produção na Universidade Federal de Sergipe

A vida de Elida mudou por causa do próprio colégio no qual ingressou, o Centro de Excelência Edélzio Vieira de Melo. Na escola de Ensino Médio integral da rede pública sergipana, um programa criado para acolher mães que engravidaram na adolescência reduziu a evasão escolar e ajudou a jovem a realizar seu sonho.

No final do primeiro semestre deste ano, Elida começa sua jornada como estudante de Engenharia de Produção na Universidade Federal de Sergipe (UFSE).

“O diretor, o professor de inglês e minha colega de classe foram até a minha casa, conversaram comigo e disseram que eu iria passar por isso”, relembra a jovem, que naquele momento estava afastada da escola.

Então grávida de cinco meses, Elida ainda não tinha feito nenhuma consulta médica pré-natal. Ela vivia sozinha, tinha apenas o apoio da mãe e teve que lidar com o afastamento do pai nas duas gestações.

Bebê a Bordo

Foi no retorno à escola que ela soube da existência do “Bebê a Bordo” – programa que nasceu em 2019, graças à professora de Educação Física, Gleide Soares. Trata-se de uma disciplina eletiva voltada para as mães adolescentes, que as estimulava a levarem seus filhos para a escola.

No programa, há a realização de oficinas de massagem para bebês, por exemplo. Tanto as mães quanto os outros alunos interessados podiam fazer parte.

“Sonhos não podem ser encerrados por causa de uma gravidez. E temos a possibilidade de ajudar”, disse Gleide. “Os colegas começaram a ajudar. Sempre teve a dinâmica de ajudar todos.”

Apesar de se tornar uma disciplina eletiva do colégio apenas em 2019, o esforço do acolhimento às mães adolescentes começou a ser feito ainda mais cedo no Colégio Edélzio Vieira de Melo. Em 2010, segundo o diretor Almir Pinto, dos cerca de 200 alunos, 90 abandonaram a escola.

Um dos motivos, aponta Almir, era a situação de pais e mães estudantes que precisavam cuidar dos filhos. “No começo, eu não queria deixar que eles levassem os filhos (para a escola). Faziam muito barulho”, relatou. “Um dia eu neguei a vinda de um filho e a mãe disse que não tinha com quem deixar a filha e não queria abandonar a escola.” Hoje, disse o diretor, a evasão está perto de zero.

Desabei

“Quando eu vi a minha aprovação (na UFSE), eu desabei. Houve todo um movimento nas redes sociais por aqui para contar a minha história”, disse Elida. Acompanhada de seus filhos – Brian, que hoje tem 3 anos, e Maria Elisa, de 2 –, ela está ansiosa para começar a vida universitária. Em retribuição, pretende criar algum espaço para aconselhar outros jovens a seguir estudando e inspirar outros com sua história.

“Não queremos incentivar, mas sim orientar”, disse Gleide, idealizadora do programa. Ela disse que a escola tem uma parceria com a prefeitura, que oferece palestras sobre gravidez na adolescência e doenças sexualmente transmissíveis.

Exemplo

“A gravidez não é uma doença, muito menos contagiosa para excluirmos as meninas”, disse a professora que criou o “Bebê a Bordo”. Gleide ainda relatou que outros professores já a procuraram para saber mais sobre a iniciativa. O programa já rendeu uma moção de aplausos na Assembleia Legislativa de Sergipe (ALSE).

A professora acredita que o exemplo pode servir para muitos outros colégios no Brasil. “Por que outras escolas não podem abrir para uma iniciativa assim?”, questionou.

Estudo do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA, na sigla em inglês) aponta que, no Brasil, em 2021, mais de 19 mil bebês nasceram de mães com idades entre 10 e 14 anos.

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