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Ex-jornalista e nascido em Nova York, Boris Johnson é empossado premiê

Logotipo do(a) Poder360 Poder360 24/07/2019 Ighor Nobrega
Boris Johnson foi eleito para o cargo com 66% dos votos do Partido Conservador © Flickr Boris Johnson foi eleito para o cargo com 66% dos votos do Partido Conservador

Boris Johnson toma posse nesta 4ª feira (24.jul.2019) como novo primeiro-ministro do Reino Unido. A cerimônia é comandada pela rainha Elizabeth 2ª.

Johnson foi eleito nessa 3ª (23.jul) como líder do partido Conservador, que comanda o Parlamento Britânico. Os membros do partido depositaram em Johnson a esperança de guiar o país no processo de saída da União Europeia, que ficou conhecido como Brexit.

Como defensor ferrenho do Brexit, Johnson é a favor de concretizar o divórcio com a UE no prazo estabelecido entre as partes: 31 de outubro. Para o novo premiê, a saída será feita com ou sem acordo. Para o professor de Relações Internacionais da USP Vinícius Vieira, a possibilidade de 1 no deal Brexit é real.

“Há a possibilidade de revisão, mas devido à presença de 1 líder pró-Brexit, a União Europeia pode pensar: ‘vamos deixar essa bomba estourar nas mãos deles, dos tories [conservadores]. Usar o Reino Unido como exemplo para não estimular novas tentativas de saída da União Europeia'”, disse Vinícius.

Nascido em Nova York, Johnson começou a carreira como jornalista, foi pego em escândalos na profissão, tornou-se político e foi eleito o mais jovem prefeito de Londres. Em 2016, foi 1 dos líderes da campanha pelo Brexit. Saiba mais sobre a vida e carreira do excêntrico premiê:

Ex-norte-americano

Alexander Boris de Pfeffel Johnson nasceu em 19 de junho de 1964 em Nova York (EUA). Filho de pais britânicos, Johnson recebeu as 2 nacionalidades –britânico e norte-americano. Até os anos 70, sua família ainda migrou dos EUA para Reino Unido duas vezes.

O pai do novo premiê, Stanley Johnson, é 1 famoso escritor britânico. Especialista em problemas político-sociais e ambientais, Stanley trabalhou no Banco Mundial e na Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia. Além disso, também foi eleito para o Parlamento Europeu, onde ficou por 1 mandato, de 1979 a 1984.

Sua mãe é a artista e pintora Charlotte Wahl. Ela é filha de Sir James Fawcett, falecido advogado e também ex-membro da Comissão Europeia, na divisão de Direitos Humanos, onde ficou por mais de 20 anos.

Johnson também tem ascendência judaica, muçulmana, francesa e russa. Tem ainda ancestrais paternais ligados à Família Real britânica.

Depois da peregrinação da família, motivada por transferências de emprego de seu pai, Johnson foi criado em Londres. Em 2016, abriu mão da cidadania norte-americana para livrar-se dos impostos cobrados pelos EUA.

Ainda na relação com os EUA, Johnson é simpático ao presidente Donald Trump. Vinícius diz que os 2 têm ideologias parecidas, como a anti-imigração: [Boris] tem posturas bem populistas, a lá Trump. Não mede as consequências, joga para a base eleitoral dele”.

Carreira como jornalista

Boris Johnson formou-se em 1987 em literaturas humanas na renomada Universidade de Oxford, uma das melhores do mundo. Lá, foi editor da revista universitária e presidente da União da Sociedade de Oxford, uma espécie de diretório estudantil.

Ainda em 87, recém-formado, Johnson foi aceito no programa de trainee do jornal britânico The Times. Seu período no renomado periódico londrino foi curto. Pouco tempo depois, o então jornalista foi demitido quando inventou uma citação de Sir Colin Lucas, famoso historiador e ex-administrador da Universidade de Oxford, para 1 artigo. Colins é padrinho de Johnson.

Um ano depois, Johnson foi contratado pelo jornal The Daily Telegraph, que tinha como editor o jornalista da BBC Max Hastings, conhecido de Johnson da época em que foi presidente da União de Oxford.

Em 1989, Johnson foi enviado como correspondente a Bruxelas, capital da Bélgica. Lá, cobriu justamente a Comissão Europeia, onde seu pai e seu avô materno trabalharam. Ficou no cargo até 1994. Esses 5 anos foram 1 presságio para o início de sua carreira política.

Johnson era crítico ferrenho do então presidente da Comissão, o francês Jacques Delors. O próprio jornalista se considerava 1 dos poucos Eurocéticos –contrários à União Europeia– em Bruxelas. Johnson foi muito criticado por colegas de cobertura, que afirmavam que o britânico criava notícias falsas sobre o bloco europeu. Chris Patten, último governador britânico de Hong Kong e ex-chairman do Partido Conservador, chegou a chamá-lo de “1 dos maiores exponentes do jornalismo falso”.

Em 1994, quando voltou da Bélgica, Johnson queria ser correspondente de guerra, pedido negado pelo editor Max Hastings. Johnson tornou-se então colunista-chefe de política. No novo posto, chegou a ser acusado de preconceito e intolerância com afrodescendentes e homossexuais. Contudo foi premiado como Comentarista do Ano no prêmio Whats the Papers say (em inglês, O que os Jornais Dizem).

No ano seguinte, um 2º escândalo atingiu o jornalista. Foi divulgada uma conversa de Johnson com 1 amigo em 1990, onde esse amigo pediu a ele o endereço de 1 jornalista que o investigava por atividades criminosas. A intenção desse colega era espancar o jornalista. Johnson deu as informações, apesar de negar o acontecido posteriormente.

A agressão nunca ocorreu e Johnson recebeu apenas uma reprimenda de Hastings.

Na 2ª metade da década de 90, Johnson acumulou sua coluna no Telegraph com outras no jornal The Spectator e na revista norte-americana GQ, onde testava carros novos. Na GQ, Johnson foi demitido em pouco tempo por acumular multas de trânsito nos testes automotivos que fazia.

Por outro lado, a faceta excêntrica de Johnson lhe rendeu convites para programas jornalísticos e automobilísticos. Virou, inclusive, apresentador convidado de alguns jornais, o que o tornou conhecido do público britânico. Atualmente, Johnson mantém colunas remuneradas em periódicos britânicos.

Rosto do populismo eurocético

O Eucoceticismo é o conceito de oposição e aversão à União Europeia. Atualmente, essa característica é atribuída a políticos de uma ala mais radical da direita. Mas nem sempre foi assim.

Biógrafos de Boris Johnson o descreveram como “1 dos mais famosos expoentes do euroceticismo”. O conceito sempre foi atribuído a partidos de esquerdas, como o Trabalhista. Seu trabalho crítico à UE tornou a pauta mais atraente à direita, representada pelos Conservadores no Reino Unido. Atualmente, a quase totalidade dos políticos contrários ao bloco faz parte de partidos populistas e de extrema-direita.

Se comparado a líderes populistas atuais, Johnson não se encaixa como semelhante. Na França, por exemplo, há a imagem de Marine Le Pen, líder do partido União Nacional, sigla com mais cadeiras na UE.

“Não o vejo [Johnson] associado a Le Pen, que é mais ligada ao nacionalismo e até à xenofobia. A vitória de Johnson é uma reação da classe dominante britânica, de herdeiros do imperialismo. A entrada [do Reino Unido] na União Europeia fez o país perder domínio domesticamente. Não são movidos pela anti-imigração, só querem ter controle sobre isso”, declarou Vinícius.

Johnson foi tido como o jornalista preferido da ex-primeira-ministra Margaret Thatcher, direitista que comandou o Reino Unido de 1979 a 1990, no período final da Guerra Fria. O sucessor da Dama de Ferro, contudo, era 1 crítico do profissional do Daily Telegraph. Conservador como Thatcher, John Major refutou muitas das notícias de Johnson nos anos 90.

Carreira política

As primeiras ambições políticas de Boris foram em 1993, quando ainda era enviado do Daily Telegraph a Bruxelas. À época, ele pleiteou uma cadeira no Parlamento Europeu, mas não foi selecionado. Major chegou a cogitar o veto da candidatura de Johnson de maneira unilateral.

Já em 1994, Johnson tentou 1 posto na Câmara dos Comuns, no Reino Unido. Não foi selecionado para o distrito que queria e concorreu por outro dominado pelos trabalhistas. Concorreu e perdeu.

O sucesso de Johnson nas urnas veio apenas em 2001, quando foi eleito para o Parlamento Britânico em 1 reduto eleitoral conservador. Foi reeleito para a Câmara dos Comuns em 2005.

Naquele ano, seu partido perdeu as eleições gerais e Johnson apoiou David Cameron como novo líder conservador. Cameron venceu e nomeou Johnson como shadow minister –uma espécie de ministro da oposição– da Educação.

Prefeito de Londres

Em 2007, apoiado por Cameron, Johnson venceu a nomeação para ser o candidato conservador para a prefeitura da capital inglesa. Em 2008, Johnson foi eleito, batendo o então prefeito trabalhista, Ken Livingstone, e tornando-se o mais jovem chefe do Executivo londrino, com 43 anos. Johnson foi apenas o 2º a ocupar o cargo, criado em 2000.

O partido conservador venceu as eleições gerais de 2010 e Johnson foi reeleito para a prefeitura em 2012, às vésperas dos Jogos Olímpicos de Verão, sediado na capital.

Entre as principais políticas de Johnson em Londres, destacaram-se a reformulação do transporte público. Atualizou os famosos ônibus vermelhos de 2 andares, que passaram a ser híbridos e movidos a diesel. Além disso, introduziu as bicicletas públicas para desafogar o trânsito na cidade.

Retorno ao Parlamento e apoio ao Brexit

Johnson não concorreu a um 3º mandato para a prefeitura de Londres e decidiu fazer campanha para retornar à Câmara dos Comuns. Em 2015 foi eleito, em 1 distrito diferente da 1ª passagem.

Em 2016, Johnson foi 1 dos líderes da campanha pelo Brexit. Ele criticou os comentários de David Cameron –então primeiro-ministro– contrários à saída britânica do bloco.

O referendo culminou na vitória dos eurocéticos e na renúncia de Cameron. Johnson emergiu como favorito para sucedê-lo, mas decidiu não concorrer à liderança do Partido Conservador. Theresa May foi eleita líder e primeira-ministra e nomeou Boris Johnson como ministro das Relações Exteriores.

Johnson ficou no cargo por 2 anos. Nesse período como chanceler, alinhou as políticas britânicas com líderes da direita no mundo, como o presidente Donald Trump (EUA) e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu (Israel). Após o governo de May decidir a estratégia para a aprovação do Brexit no Parlamento, Johnson –que discordou do planejamento– renunciou junto ao ministro do Brexit, David Davis.

Com o insucesso de May para aprovar 1 plano de saída junto aos Commos, as pressões para que ela renunciasse cresceram. Com isso, Johnson começou a costurar sua candidatura para sucedê-la.

May anunciou a renúncia em 22 de maio. Johnson venceu todas as prévias do partido Conservador e foi anunciado novo líder e primeiro-ministro em 23 de julho.

Relação com a oposição

Um dos desafios de Johnson para aprovar o Brexit é vencer a ferrenha oposição de Jeremy Corbyn, líder do partido Trabalhista. Segundo Vinícius, uma das estratégias dos conservadores ao eleger Johnson foi justamente apresentar o extremismo aposto ao de Corbyn e assim polarizar a disputa, visando as eleições de 2022.

Vinícius vê como maior risco para Boris uma possível semelhança com Theresa May, que saiu desgastada com a situação e a oposição. Porém, afirma que Johnson tem condições favoráveis nesses primeiros meses de mandato: “O Johnson é mais respaldo que May pelo menos no primeiro momento“.

Já quanto à possibilidade de uma moção de desconfiança por parte da oposição logo no início de mandato, Vinícius considera difícil. Isso porque para passar, a deposição de Johnson precisaria do apoio dos conservadores.

“Não vejo esse risco imediato, já que ele tem o respaldo da base do partido que quer se manter minimamente unido para as próximas eleições. Num 1º momento, mesmo os conservadores que não gostam do Johnson não embarcarão nesse voto de desconfiança”, afirma o professor.

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