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Ele tinha desejo incontrolável de mentir; terapia foi o que ajudou

Logotipo do(a) Folha de S.Paulo Folha de S.Paulo 10/10/2022 MARCELO TESTONI

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Felipe Corrêa, 30, de Campinas (SP), acha que contou sua primeira mentira aos seis anos. "Um ratinho entrou em casa, todos saíram à procura dele, mas quem o achou e matou foi meu cachorro. Como ninguém viu, mostrei o cadáver e disse que fui eu. Me elogiaram, aquilo mexeu comigo, e depois comecei a mentir o tempo inteiro", diz.

À medida que os anos passavam, as lorotas do garoto mudaram de pequenas e inocentes para histórias extremamente detalhadas e potencialmente preocupantes. Continham referências à realidade, de temas variados, mas misturadas a situações imaginárias, às vezes envolvendo pessoas da família, da escola, e sempre com Felipe se saindo bem delas de alguma maneira.

"Não eram mentiras com a intenção de prejudicar alguém. Por exemplo, num dia eu dizia para meus pais que minha professora contava comigo para fazer a turma escutá-la, aí, no outro dia, para a professora, inventava que ajudava meus pais numa grande loja que abriram, e assim ia", diz ele, que no final da adolescência recebeu o diagnóstico de que era mitomaníaco.

QUANDO A MENTIRA SE TORNA UM TRANSTORNO

Quem é mitomaníaco, ou mitômano, sofre de um transtorno psicológico chamado mitomania, ou pseudologia fantástica, uma compulsão patológica por querer mentir. Geralmente, as mentiras contadas são sobre todo e qualquer assunto, sem que haja algum propósito. Porém, em casos mais graves, algumas até podem ser inescrupulosas e visarem objetivos sórdidos.

Quando é por má-fé, por assim dizer, pode haver um envolvimento entre mitomania e quadros como transtorno de personalidade antissocial, psicopatia, sociopatia. Porém, não é uma regra. "O comportamento mitomaníaco pode ser induzido por sofrimento e necessidade psíquicos", informa Leide Batista, psicóloga pela Faculdade Castro Alves, em Salvador (BA).

A mentira, nesse contexto, vem como autoproteção, para disfarçar ou melhorar a própria realidade do mentiroso, que pode estar insatisfeito, querer aparentar mais do que possui ou encobrir algo. Como Felipe citou, também há consciência nesse comportamento, porém, à medida que o adoecimento se intensifica, o sujeito se perde e entra em um modo automático.

Movido pelo desejo de contar mentiras, ele pode até simular ou produzir sintomas físicos ou mentais de doenças, como surtos psicóticos, dores de cabeça, vômitos, diarreias. Há quem ainda fabrique ou falsifique exames médicos, sinais da presença de algo chamado transtorno factício.

SEM CONTROLE, A VERDADE APARECE

Mentiras têm pernas curtas, por isso são descobertas. Em 2009, aos 17 anos, Felipe ludibriou os pais com mais uma de suas histórias, dessa vez de que iria com os amigos jogar boliche, sendo que na verdade encontrariam outros garotos mais velhos para irem a uma festa. O que eles não esperavam é que, na volta, de carona e alcoolizados, fossem abordados pela polícia.

"Meus pais, que pouco antes já haviam descoberto umas mentiras minhas, foram acionados, ficaram muito preocupados comigo e, ao final, me levaram a psiquiatras para saber o que eu mesmo não compreendia", explica. No fim das contas, isso foi positivo, pois quando adulto, o mentiroso compulsivo não costuma buscar tratamento, por não se ver doente e causador de problemas.

É mais fácil se tornar um paciente estando no início da vida ou ao enfrentar dificuldades sociais recorrentes, na família, no trabalho, inclusive com autoridades. "Ansiedade, estresse, tentativas de mudança de padrão de vida, baixa autoestima podem, se percebidos, ajudar a diagnosticar a condição", diz Luiz Scocca, psiquiatra pelo Hospital das Clínicas de São Paulo.

Scocca continua que outros pontos a se atentar é que as mentiras mitomaníacas geralmente são discrepantes, repletas de exageros, dramas ou conquistas ambiciosas, elaboradas demais e contadas de maneira crônica, às vezes com mais de uma versão, e o mentiroso sempre certo.

TERAPIA E, SE NECESSÁRIO, MEDICAMENTOS

Mentirinhas vez ou outra são normais e não há quem não as conte, seja para elogiar, preparar uma surpresa, desculpar-se, não brigar. O perigo é ganharem proporção e serem introjetadas como parte da personalidade, o que vai prejudicar o sujeito em várias esferas. Felipe mesmo conta que afastou pessoas, que perderam a confiança nele, e ficou isolado até parar de mentir.

"O que me ajudou foi a terapia. Fiz oito anos e precisei de medicamentos para ansiedade", conta. No processo de tratamento, busca-se fazer o doente reconhecer motivações, medos e desejos pessoais para que reveja seus hábitos, aceite recomendações, descubra habilidades e busque solucionar o que lhe insatisfaz. Agora, pode demorar quando não se admite mentir ou errar.

Se for criança, por falta de maturidade em lidar com as consequências de seus atos, há uma tendência maior para as mentiras. "Mas é preciso que pais ou cuidadores também observem se não estão sendo muito rígidos e causando nela medo de se expor verdadeiramente, ou se de fato há por trás um fator psiquiátrico", alerta Gabriela Luxo, psicóloga, mestre e doutora em distúrbios do desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

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