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Júlio Isidro homenageia Dina: “Não chores, se o tempo não ri. Ficarei a teu lado, esperando por ti”

Logótipo de Expresso Expresso 12/04/2019 Expresso

Dos tempos da febre radiofónica dos sábados de manhã aos festivais da canção, o apresentador Júlio Isidro relembra Dina, a cantora “pequenina no corpo” mas “enorme na energia”

“Tinha umas músicas e queria trabalhá-las, mas acabei por perceber que a doença estava a entrar na curva descendente”, afirma Ramon Galarza © Divulgação “Tinha umas músicas e queria trabalhá-las, mas acabei por perceber que a doença estava a entrar na curva descendente”, afirma Ramon Galarza

Haverá sempre, entre mim e a Dina, uma ligação feita de música e sorrisos. Grandes músicas e sorrisos abertos no palco do cinema Nimas, onde acontecia essa aventura radiofónica que se chamou “Febre de Sábado de Manhã”.

Casa a abarrotar de pessoal da pesada, a ser apresentado a uma tal Dina, pequenina no corpo e enorme na energia, que arrebatou com o seu “Pássaro louco”.

Mas antes deste começo tinha havido outro. A Dina a cantar letras do Júlio Isidro com músicas do João Henrique para o meu programa infanto-juvenil “Arte & Manhas”. E antes, ainda antes, a cantar no “Fungagá da Bicharada” na sua terceira edição.

Por isso, há e haverá sempre, “Música entre nós”.

Vale a pena viajar no tempo de outras músicas e outras rádios para recordar o coro de dependentes da Febre com a Dina gigantesca, de viola na mão a reger: “Não chores não, acorda a voz, cantaremos até o dia nascer!”

Era uma inspirada compositora, na pop-rock ou em baladas que ainda hoje embalam.

Fica “Guardado em mim” o festival de 1980, que para ela foi só oito, tal o lugar em que se quedou a canção. Mas depois, e como acontece tantas vezes com as perdedoras nos votos, veio o sucesso em disco e por tantos palcos.

A Dina passava da doçura do “Gosto do teu gosto” para a explosão do seu “Dinamite” num acorde da guitarra, levando consigo um público que lhe tinha carinho.

Foram anos a escrever cantigas e a mostrá-las em disco ou concertos, construindo um património que vale a pena ouvir em estreia, ou rebobinar e recordar, para se lhe atribuir o valor que se foi perdendo na voragem do preconceito e dos chamados novos tempos.

A Dina no Festival da Canção de 1992 ofereceu-nos um “Amor de água fresca”, letra com cheiro e sabor de amor saudável, numa parceria com Rosa Lobato Faria.

Para além do prémio e da fama que arde e queima sem se ver, a canção recebeu a compensação mais ambicionada por quem está nestas artes.

Tantos anos depois, há jovens a cantar “Vem cá tenho sede, quero o teu amor de água fresca. Peguei, trinquei e meti-te na cesta” - gente que nem sabe quem foi a Dina mas que lhe conhece os acordes.

Dar lugar aos novos, para quem como ela se renovava em cada canção, foi mais uma vez o pretexto moralista e consumista para o seu apagamento da cena, num gesto tão comum entre nós. Com estes e tantos outros gestos de automutilação se vão desfazendo traços da nossa cultura popular.

A doença lenta mas inexorável foi-lhe tirando o ar, mas não a vontade de continuar a escrever canções. Estão guardadas na sua casa , agora vazia, mas espera-se que um dia surjam num álbum do tributo que ela merece.

A Dina despediu-se em termos de televisão num encontro que valeu por uma vida, no “Inesquecível” da RTP Memória. Foi em 2016, dias antes de dois espetáculos para cair o pano, onde participaram jovens músicos que a descobriram e à sua música. Ainda cantou discretamente, assim como quem diz adeus baixinho

A notícia da sua partida também me tirou o ar do peito. Mais uma sensação de vazio, mais um página de vida a menos.

Agora recordo-a a sorrir e em dueto com Carlos Paião em 1988, na canção “Quando as nuvens chorarem”.

Nesta canção, o Carlos preconizava o dia, sempre igual e inevitável para todos, do reencontro: “Não chores, se o tempo não ri. Ficarei a teu lado, esperando por ti.”

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