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“As empresas que têm mulheres saem-se melhor”

Logótipo de Expresso Expresso 23/02/2019 Carolina Reis

Sadia Khan Presidente mundial da Associação de ex-Alunos do INSEAD

Sadia Khan © António Pedro Ferreira Sadia Khan

Um estudo divulgado esta semana e promovido pela INSEAD, uma das mais prestigiadas escolas de gestão em todo o mundo, mostra que as mulheres trazem benefícios para as empresas. A presença de mulheres em órgãos sociais de grandes corporações gera retornos de 40%. Sadia Khan, gestora e presidente mundial da Associação de ex-Alunos da INSEAD, diz que se vive um momento de mudança, mas ainda há um caminho que as empresas devem percorrer.

A igualdade de género tornou-se uma discussão central, desde a presença das mulheres nas empresas ao assédio sexual. A discussão está focada nos temas certos?

Quando falamos de diversidade de género falamos de direitos das mulheres e da sua posição, quer seja na sociedade ou na economia. Há muitos assuntos para discutir, mas é importante focarmos-nos em aspetos particulares. Vinda do Paquistão e trabalhando na área dos negócios, sei o tipo de mudanças que posso fazer. Se falasse sobre outros temas, como o assédio, não teria tanto sucesso, porque não trabalho nessa área.

O que devem as mulheres fazer para provocar uma mudança?

Têm de liderar esta mudança e mostrar que têm ambições. Se não disserem nada, ninguém lhes vai oferecer um lugar.

O estudo mostra que há mais homens do que mulheres a querer chegar ao topo da carreira. Isto revela falta de ambição?

As mulheres são mais humildes, mais reticentes e retraem-se. Acho que a questão é não demonstrar essa ambição. Não acho que toda a gente tenha de chegar ao topo ou querê-lo. Depende das prioridades. E toda a gente tem as suas prioridades, até os homens. A diferença é na altura de mostrar as prioridades. E é aí que a sociedade, a cultura e as expectativas desempenham um papel que diz que as mulheres não podem ser sinceras e assumir que querem chegar ao topo como os homens.

A sociedade espera menos das mulheres do que dos homens?

Está condicionada a esperar coisas diferentes. Costumo dizer às minhas filhas que se elas querem ser mães a tempo inteiro, tudo bem. Não vou julgar ninguém. É uma questão de deixar as pessoas saber que as mulheres são capazes de fazer qualquer coisa, em qualquer lugar. Essa é uma mensagem importante que se perde na educação, enquanto crescem.

Faltam modelos a seguir, mas também há muitos estudos sociológicos que dizem que as mulheres quando chegam a posições de liderança não ajudam as outras mulheres...

Aí também se vê uma mudança. Quando comecei a minha carreira, nos anos 90, em Wall Street, viam-se poucas mulheres. Para chegarem aos lugares mais altos da hierarquia tiveram de deixar todos os sinais de feminilidade, tiveram de ser um dos rapazes. Andar e falar como eles. A diversidade não era valorizada, por isso elas não podiam ter empatia com as outras mulheres. Mas como vivi isso nos anos 90 disse para mim mesma que ia olhar pelas outras mulheres, que ia puxá-las para as ter comigo. Não queria ser um dos rapazes.

A igualdade de género não é só uma questão de justiça. Os principais indicadores dizem que é benéfica para a economia e para as empresas. De que forma?

Em 2015, nas Nações Unidas, reconheceu-se que se se negar às mulheres o direito à educação e à saúde, se estavam a bloquear 25 triliões de dólares na economia. Imagine o potencial das mulheres para aumentar o PIB! A nível empresarial, os indicadores mostram que as mulheres são mais conscienciosas, estão mais preparadas nos conselhos de administração. As mulheres representam 75% do poder de compra, têm uma visão mais interna da dinâmica de mercado e tomam decisões mais informadas. A crise de 2008 mostrou que as empresas que tinham mulheres se saíram melhor do que as não tinham.

O que podem as empresas fazer para captar e manter mais mulheres?

Não acho que a maioria das mulheres queira ficar em casa por escolha. As empresas têm de fazer mais, em termos de comprometimento. Do topo a mensagem constante tem de ser que não há discriminação e há zero tolerância para o assédio sexual, incluindo políticas que asseguram que serão tomadas medidas se algo acontecer.

Como vê o movimento #Metoo?

Já não era sem tempo. De as mulheres serem ouvidas e de os homens perceberem que não podem ficar impunes quando têm comportamentos inaceitáveis.

Quando teve consciência de que teria de lutar pelos direitos das mulheres?

Cresci em Carachi e sempre senti que as mulheres eram cidadãs de segunda categoria. Fui a primeira mulher da minha família a ir estudar para o estrangeiro. O meu irmão mais velho foi sem problemas, as minhas irmãs não foram. Eu sou a mais nova, quando chegou a minha vez, não me contentei com um não. Mas percebi que tinha de trabalhar mais para entrar numa universidade de prestígio e o meu pai não me poder dizer que não. Como é que nega a hipótese de ir para Cambridge?

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