De prejuízo em prejuízo, TAP está há uma década em falência técnica
Entre 2008 e 2018, a companhia aérea acumulou prejuízos de 822 milhões de euros, já deduzindo os lucros de 21,2 milhões de euros registados em 2017, graças a um reforço das receitas associado à retoma da economia. Após essa recuperação, o presidente executivo da TAP, Antonoaldo Neves, dizia querer “multiplicar por, pelo menos, sete vezes” os “bons resultados”, mas não é isso que está a acontecer.
A TAP apresentou prejuízos de 118 milhões no ano seguinte, o resultado negativo mais elevado desde 2008. “Foi um ano difícil para a TAP, quer em termos operacionais quer em termos económicos e financeiros”, reconheceu então Miguel Frasquilho, chairman da TAP nomeado pelo Estado.
A deterioração das contas foi atribuída aos atrasos e as consequentes indemnizações a pagar aos passageiros, com o impacto da subida do petróleo e a valorização do kwanza e do real ao longo de 2018, influenciando alguns dos mercados mais relevantes para a TAP. Este ano, a situação do grupo (cujo mercado mais importante é o brasileiro) parece repetir-se, deixando antever mais um ano de prejuízos.
2008 foi o pior ano da última década
Fonte: Relatórios e Contas da TAP
A TAP encerrou os nove primeiros meses deste ano com prejuízos, que ascenderam a 111 milhões, com a companhia aérea liderada por Antonoaldo Neves a justificar esse desempenho com “variações cambiais”. As fortes receitas levaram a um desagravamento dos prejuízos face aos 120 milhões acumulados até junho, mas será difícil que o grupo alcance “território” positivo no acumulado do ano.
Ainda que o administrador não executivo da TAP Diogo Lacerda Machado desdramatize, dizendo que “nos últimos 45 anos a TAP teve dois anos de resultados positivos”. Garantiu que a companhia aérea “deverá, nos próximos tempos, começar a ganhar sustentadamente dinheiro”, mas Marques Mendes aponta para uma continuação dos prejuízos, potencialmente mais expressivos.
É provável, segundo o comentador, que a companhia apresente prejuízos de 140 a 150 milhões no total do ano. “Isto é uma calamidade“, disse, Marques Mendes na SIC, alertando que a situação na companhia aérea é insustentável e avisou que há o risco de esta “bomba” poder “rebentar no bolso dos contribuintes”.
Uma TAP em falência há uma década
Como os prejuízos a aumentarem, a dívida tem crescido ao mesmo tempo que o valor dos ativos encolhe (passou de 2.240,8 milhões de euros, em 2008, para 1.628 milhões, em 2018). E os capitais próprios da empresa têm sofrido. Estão desde 2008, pelo menos, sempre em “terreno” negativo, tendo atingido o maior buraco da década no final de 2018, com -618 milhões de euros. Ou seja, a empresa está há dez anos em situação de falência técnica.
Não sendo nova, a situação financeira da TAP tem ganho maior destaque desde que, após a privatização feita pelo Governo de Pedro Passos Coelho em 2015, o Estado recuperou o controlo acionista. Atualmente, o Estado detém 50% do capital, enquanto o consórcio Atlantic Gateway tem 45% e os trabalhadores outros 5%. Na prática, o país perdeu direitos económicos, mas é obrigado a assumir responsabilidades financeiras, daí que Marques Mendes alerte para o possível impacto no bolso dos contribuintes.
E isto num contexto de conflito entre acionistas. Tem sido a grave situação financeira da companhia, expressa nos resultados negativos, a gerar mal-estar entre o Executivo e a administração da TAP. Governo e David Neeleman estarão a procurar interessados para entrarem no capital da companhia, não sendo, contudo, certo que o dono da Azul abandone totalmente a empresa — continuando a afirmar que está “comprometido com o crescimento” da TAP. Lufthansa, a British Airways, a Air France e a United surgem entre os interessados na companhia portuguesa.
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