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Zimbabué, o país maldito

Logótipo de VisaoVisao 20/11/2017 João Dias Miguel, Luís Barra

Há precisamente dez anos, em novembro de 2007, a VISÃO passou nove dias em reportagem clandestina em Harare, a capital do medo e da pobreza, assolada por uma brutal ditadura e pelas piores condições económicas do globo. Recorde aqui essa reportagem e perceba como se vivia no país governado por Robert Mugabe

Nada nesta viagem parece destinado a correr bem.

Qualquer tentativa de contactar Harare, a capital do Zimbabué, é um risco. O telefone fixo deve evitar-se, porque é o mais fácil de ser escutado. O e-mail, porque pode ser travado. A rede de telemóveis mais comum a Net One porque é do Estado.

Há poucos dispostos a ajudar. Da embaixada portuguesa, voz feminina desaconselha vivamente a reportagem. Uma jovem funcionária da União Europeia, a quem expusemos os nossos planos, assusta-se: «Existe aqui», escreve para a mão amiga que nos tinha facultado o seu endereço de e-mail, «uma 'interception of communications act'. As possibilidades de este e-mail estar a ser monitorizado são elevadas. Não respondo, para não comprometer (ainda mais) a segurança de quem o enviou.» E Noel Kututwa, um zimbabueano que conhecemos em Portugal, líder de um fórum de ONGs, não recebeu dois dos três e-mails enviados.

Há regras: não levar computador, nem máquinas de fotografar espalhafatosas, nem telemóveis modernos. Não fotografar em público.

Nunca usar cartão de crédito. Nunca admitir que se é jornalista nem pensar em pedir autorização ao Ministério da Informação, pois será recusada. Ter cuidado com o hotel que se escolhe, nunca pedir nada para o quarto «é uma fortuna», nunca andar à noite sozinho.

Levar pão, conservas, lâminas de barbear, tudo aquilo que, no dia-a-dia, parece óbvio, mas ali não há. Nunca trocar dinheiro num banco, nunca trocar sozinho dinheiro no mercado negro. Ter cuidado muito cuidado com quem se fala, sobretudo nos hotéis: estão infestados pela CIO (Central Intelligence Organization, a polícia secreta de Robert Mugabe). Não falar de política sobretudo nunca nomear políticos.

«O CIO é omnipresente», avisa Joshua, activista dos direitos dos doentes com sida. «Os seus agentes andam à paisana: podes ser preso no autocarro, no restaurante ou no café se disseres o que não deves.»

Frigoríficos para quê?

«Onde guarda a comida?» George Murape está sentado num sofá coçado, na sala da sua casa com telhado de zinco, pintada até meia altura de cor-de-rosa já muito sujo. Tem fotografi as da família ao seu lado, com brancos e negros à mistura.

Fuma um cigarro de papel de jornal, tabaco colhido de uma plantação local e vendido ilegalmente, em pequenos sacos de plástico, por 100 mil zim dólares, a moeda local. Estamos em Kambuzuma, um subúrbio de vivendas de construção social, pré-independência, nos arredores de Harare, numa visita clandestina. «Murungu! Murungu!» («Homem branco! Homem branco!»), gritam perigosamente as crianças cá fora. Murape aceitou receber-nos por sua conta e risco. Se algum veterano de guerra, algum jovem dos famigerados green bombers ou algum membro da ZANU (Zimbabwean African National Union, ou União Nacional Africana Zimbabueana, o partido do regime) descobre, ele sabe que terá problemas.

«Onde guarda a comida?» Primeiro, Murape, 44 anos, electricista diplomado (nove anos de escolaridade, mais três de escola técnica) lança um olhar de estupefacção de quem parece não acreditar na pergunta. Depois deixa sair uma gargalhada: «Aqui», diz, apontando para o estômago. Como que para evitar inverdades, Chengetai, o jovem oficial de informação do Movimento para a Reforma Democrática (MDC) que nos acompanha, corre para a cozinha: «Não, ele tem um frigorífico», apressa-se a explicar, enquanto espreita atrás da porta e descobre com surpresa um espaço vazio.

«Vendi-o», repete calmamente Murape. «Não servia para nada, só para a água. Deram-me 25 milhões por ele.» O último trabalho que George Murape, casado e com duas filhas, teve, foi a instalação da electricidade numa casa privada, há quatro meses. Rendeu 20 dólares americanos, pagos a prestações. De resto, tem-se dedicado a pequenas tarefas. A sua mulher dedica-se ao «comércio informal», como se chama por aqui ao mercado negro.

Uma das suas sobrinhas tem duas, de uma irmã que morreu de tuberculose é crossborder, contrabandista de fronteira. Murape recebe uma pensão pela morte da irmã, mas só um bilhete de autocarro custa quatro vezes o valor desse subsídio. A última vez que a família comprou carne foi há um mês.

Em tempos, a sadza, uma pasta de farinha de milho cuidadosamente mexida ao lume até engrossar, podia levar vegetais, leite, e alguma carne fatiada. Agora não. Já de pé, parado ao lado do sítio onde estava o frigorífico, George Murape abre bruscamente a porta de um pequeno armário de madeira pendurado na parede a despensa. Há três potes de vidro vazios, um pouco de farinha branca, apenas para esta noite, e um resto de óleo de cozinha um líquido precioso em Harare. E é tudo. Hoje, a sadza acompanha-se a si própria.

DIA 1

Preparamo.nos para trocar dinheiro, começa a escurecer.

Um dos empregados da esplanada do Holiday Inn aponta para as traseiras do hotel. «1 US Dólar, 1 milhão de zim dólares», afirma.

Vou a sair. Uma negra de cerca de 30 anos convida-me a sentar-me.

Está bem vestida e bebe coca-cola. «Charleen», apresenta-se. «Business or pleasure?», indaga. «Tourism», respondemos. A mulher não consegue evitar um sorriso e adianta conversa: «Vais trocar dinheiro, certo? É uma zona assustadora, é melhor eu ir contigo.» Lá nos encontramos, nas traseiras eu, Charleen e o empregado, que também resolveu aparecer. Falam em shona e dividem a percentagem dos dólares que vamos trocar, cem. O grupo dos traficantes está a dez passos, num recorte do edifício. Charleen avança. O empregado debanda, e ela volta com 50 dólares (50 milhões de zims). «Não há mais. Até o dinheiro está racionado.» Caminhamos pela noite de Harare. Pergunto qual a melhor forma de arranjar um carro? E gasolina? «Arranja-se de tudo; desde que tenhas contactos, 'no problem'. Estarias interessado num hotel melhor e mais barato?» «Decerto», respondo. «Sobretudo um que tenha cofre», penso.

Um milhão e meio de zims e um táxi depois, estamos no Bronte, sentados no apropriadamente chamado Wild Date Bar, um hotel ao estilo colonial holandês da Cidade do Cabo, com alpendres colunados e balaustradas de madeira. É um hotel cuidado e, saberemos depois, também o mais controlado da cidade. São cerca de 21 horas e bebemos mukoio, uma espécie de água-pé amarga, intragável. Charleen explica que, por lei, os quartos de hotel têm um preço para estrangeiros e outro para locais. Prontifica-se a alugar o quarto por nós: 14 dólares.

A proposta é tentadora. Os quartos são amplos e têm cofre, as camas estão imaculadas um paraíso. Combinamos encontrar-nos em meia hora, depois de irmos buscar as malas e o dinheiro escondido dentro de um dos candeeiros. Charleen aguarda no Bronte. «Há um problema», explica por fim. «O gerente está a dizer-me que eu tenho de dormir no quarto, contigo... Senão, são 150 dólares...»

A política da dor

Apesar da sua aparente normalidade, com lustrosos arranha-céus de aço e vidro e a sua farta frota de Mercedes estaduais, Harare é uma das piores cidades do mundo para se viver.

Os preços aumentam de dia para dia, por vezes duas vezes no mesmo dia. Milhões de pessoas passam fome nesta nação atingida pelas maiores taxas de desemprego (80% da população) e de hiperinflação do planeta (11 mil por cento ao ano). As prateleiras das lojas estão vazias, impera o mercado negro e a economia paralela. Cerca de 3 mil refugiados económicos atravessam por dia as fronteiras em busca de outro destino o maior êxodo de um país africano em situação de paz alguma vez registado. Cerca de 3 milhões de pessoas dois terços da força produtiva já emigraram. Um terço dos professores preferiu trabalhos não qualificados na vizinha África do Sul, aceitando arriscar a sua sorte aos crocodilos do Limpopo a suportar a situação económica. Namíbia ou Moçambique são outros dos destinos.

O sistema de saúde está de rastos, os doentes têm de levar a sua própria comida, pagar os medicamentos. Os médicos também debandam.

Há 12 anos consecutivos que o Produto Interno Bruto diminui.

A esperança média de vida atingiu o valor histórico de apenas 34 anos para as mulheres e 37 para os homens a mais baixa do globo. Em Harare, cujo skyline quase podia ombrear com o da Cidade do Cabo, a electricidade falta por vários dias seguidos excepto no quarteirão do palácio presidencial. Com a água é a mesma coisa e os jornais referem constantemente dúvidas quanto à sua salubridade.

A recolha do lixo, a manutenção dos passeios, a iluminação pública, tudo decaiu gradualmente. Os sistemas de comunicações, móveis ou fixos, podem facilmente entrar em colapso. Os campos à volta da capital estão desflorestados, vazios. Não se vê uma única vaca, num país onde carne era coisa que não faltava. As pessoas fazem de tudo para sobreviver. Diz-se que a universidade está transformada num semibordel. Os peixes do grande lago Mcilwaine diminuem, pois a pesca tornou-se, de um dia para o outro, fonte complementar de alimento. O garimpo ilegal aumenta e o mesmo se passa com o abate clandestino de árvores. A lenha, agora preciosa para se poder cozinhar, é trafi cada a preços proibitivos. Mais de 40% da vida animal terá desaparecido, morta para consumo próprio ou nas caçadas ilegais que os poderosos do regime vendem a europeus e norte-americanos menos escrupulosos. Em alguns locais recorre-se já à troca directa. O dinheiro vale menos do que o seu custo de impressão. «Não há política», diz John Dzinamurungu, da Amnistia Internacional no Zimbabué. «A política resume-se a infligir dor, para criar medo, para que não contestem o Governo.»

DIA 2

Na Avenida Samora Machel, um pelotão marcha e canta odes ao regime.

Dezenas de pessoas, na berma da estrada, estendem a mão, cinco dedos abertos. Pergunto o que fazem e explicam-me que arranjam transporte.

Os táxis oficiais, em Harare, são caros e não raro toda a frota pára por falta de gasolina. Há os táxis extraoficiais, velhos e pouco fiáveis mas também são caros. Há ainda os «chapas», carrinhas que levam tanta gente como a que podem carregar, mediante o pagamento de um bilhete mas não vão a todo o lado. E há a negociação directa qualquer carro faz de táxi, desde que se vá na sua direcção e se acerte um preço, baixo.

Em cinco minutos percebo quanto as instituições deste país, que já foi um exemplo em África, se deterioraram. Pára uma ambulância do Hospital Central e um jipe da ZANU. De ambos os veículos sai uma dezena de pessoas. «Estão a fazer de 'chapas'», dizem-me. «As pessoas precisam de dinheiro para viver.» Sigo pela avenida, com a desagradável sensação de estar a ser observado. Não se vê um branco, num país onde há 20 ou 30 anos viviam 300 mil. Um chinês passa e troca um olhar cúmplice. Muitas bombas de gasolina estão fechadas, mas vendem pão. Há filas imensas e, de vez em quando, altercações. Nos multibancos, elas dobram as esquinas. No balcão da Western Union, onde se levantam as remessas dos emigrados, também. O Zimbabué é hoje o país das filas. Conta-se como anedota que, como de cada vez que há fila é sinal de que alguma coisa boa chegou, um dia, um zimbabueano mais esperto se enfiou numa, sem cuidar do que se vendia e acabou a dar os pêsames a uma viúva. Há, até, uma estranha profi ssão, a de guardador de lugar na fila mediante uma esmola.

As lojas estão vazias, ou quase. Não há um único rato na loja de informática. As boutiques parecem de 1990. Os supermercados vendem coisas supérfluas, até perfumes, mas nunca pão, nunca óleo de cozinha, nunca leite. Comprar uma lâmina de barbear é odisseia para uma hora e quando se encontra uma é daquelas antigas, douradas, de enroscar.

As fontes da Praça da Unidade Africana estão secas, como boa parte da cidade. Ao longe, vejo um edifício de 15 andares. No topo, o galo negro da ZANU o primeiro partido a despertar para a independência, diz a propaganda. O bicho parece vigiar todo o horizonte. Em que é que Mugabe transformou o país, pergunto-me.

Visão © Luí­s Barra / Arquivo VISÃO Visão

Três décadas de poder

Nem sempre foi assim. Robert Mugabe já foi um herói da libertação africana, armado cavaleiro pela Rainha de Inglaterra, com uma popularidade na África Austral só ultrapassada por Nelson Mandela. Nos primeiros anos da independência, em 1980, o país exportava tabaco, algodão, ouro, platina e era considerado o «celeiro de África». Para agrado e surpresa da elite dos white farmers, os fazendeiros descendentes de europeus, proprietários de quase metade da terra e responsáveis por boa parte da indústria e dos serviços, Mugabe mostrou-se disposto a esquecer o passado colonial e construir um país multicolor.

Nas duas décadas seguintes, no entanto, o sistema de apadrinhamento político na ZANU em que um deputado chamava «segundo filho de Deus» ao Presidente e era promovido imediatamente foi eliminando as principais empresas do país: a transportadora aérea, a distribuidora de electricidade, os correios e, até, o Fundo para as Compensações dos Veteranos de Guerra.

À medida que a vida ia piorando, o apoio de Mugabe entre o seu povo deteriorava-se, mas ele reforçava-se politicamente. Pouco antes das eleições de 1990, por exemplo, a composição do Parlamento foi alterada, de forma a incluir 30 lugares, em 150, de nomeação presidencial.

Em 1996, os veteranos de guerra exigiram o pagamento de pensões. Quando Mugabe, já com o país endividado, cedeu, o zim dólar começou a sua descida vertiginosa. Em 1998, depois de subidas de 30% ao mês no cabaz básico das famílias, explodem em Harare os «motins da comida», prontamente abafados pelo exército.

Mas é em 2000, no rescaldo da derrota no referendo à nova constituição que reforçaria ainda mais os poderes presidenciais que Mugabe percebe que perdeu o apoio das massas. Volta-se então para uma promessa esquecida feita aos veteranos da guerrilha de libertação: terra.

Um dia após a confirmação dos resultados, os veteranos, atiçados por Mugabe, começam a invadir as quintas dos white farmers, aos gritos de «Hondo! Hondo!» («Guerra! Guerra!»). Vários fazendeiros são mortos e a terra é redistribuída segundo critérios políticos sem cuidar das habilitações agrícolas dos novos terratenentes. Resultado: a produção cai em flecha e, com ela, toda a economia. De nada adiantou aos juízes do Supremo Tribunal declararem a ilegalidade das acções foram depostos sob ameaça de morte. Dá-se o êxodo final dos descendentes dos europeus: restarão hoje menos de 30 mil.

As eleições presidenciais de 2002 são já uma completa charada. Os espancamentos, os raptos, as ameaças, sucedem-se. Mugabe tem por hábito alterar os círculos eleitorais de forma a garantir a vitória dos seus aliás, prepara-se para o fazer novamente nas eleições harmonizadas (presidenciais e legislativas) de 2008. A comissão de registo eleitoral é por si controlada e nas áreas de apoio ao MDC o registo torna-se muito difícil, senão impossível. Aos sahbhuku (chefes tradicionais) é dito que serão usados binóculos para ver se votam bem.

DIAS 3 E 4

Chako já percebeu o que anamos a fazer, que contactamos muitos opositores.

Hoje começou a «abrir» a sua história. É um dos 700 mil despejados pela operação Murambtsvina Limpar o entulho com que o Governo arrasou os subúrbios hiperpovoados de Harare.

Conduz um velho Nissan 1.6, de cor creme, com o vidro da frente rachado e o motor de arranque gasto. Como táxi é uma porcaria, de vez em quando temos de o empurrar, e é caríssimo um dólar por cada quilómetro. Mas é, de certeza, o carro que menos dá nas vistas nas avenidas de Harare.

Desde que as retroescavadoras do Governo destruíram o anexo que construíra nas traseiras da casa do pai, Chako vive em Mbare, um horrível subúrbio, numa parte de casa alugada com a mulher.

É dele o melhor inside look que temos do ditador, já que mesmo as ONGs hesitam em dizer mal dele dá cadeia pela certa. Mugabe é um homem obcecado pela segurança. Todos os dias, pelas 6 da tarde, a Sexta Avenida, que vai dar à sua residência oficial, é fechada ao trânsito. A medida que os carros se aproximam do local, os sinais de proibição de fotografar acumulam-se. Quando vai à igreja, ali mesmo perto, é impossível não se reparar: a parafernália de segurança envolve dezenas de carros e cerca de uma centena de pessoas. O seu bairro é dos poucos onde não falta a luz por causa dos sistemas de segurança. Mas tudo isto é ridículo: consta que nem sequer ali vive, antes repartindo com a mulher, Grace, uma secretária 40 anos mais nova, com queda para compras no Harrods de Londres, uma mansão num subúrbio caro da cidade construída pelos chineses, com material do Sueste Asiático.

Morgan Tsvangirai, o antigo sindicalista líder do MDC, é, para Chako, um homem corajoso, que ainda em Março deste ano enfrentou durante um comício as balas dos «gorilas» de Mugabe. Foi espancado, mas não se calou.

«Mugabe tem o poder, mas Tsvangirai tem a verdade», diz. E a verdade é que a situação económica não pára de piorar. «Tudo se perdeu quando ele começou a perseguir os brancos. Saíram os brancos, foi-se o dinheiro. Este carro custou-me 1200 zim dólares em 1992. Hoje, com esse dinheiro não bebo uma cerveja. A minha mulher tem um curso mas não tem emprego.

E eu nem sequer consigo comprar sobressalentes para o carro.»

Corrupção institucionalizada

A maior parte dos generais são agora donos de quintas, parques de safari, hotéis. Solomon Rex Mururu, antigo fidelíssimo de Mugabe e marido da actual vice-presidente, por exemplo, viu a fortuna pessoal crescer com a sua estatura política, até se tornar num dos homens mais ricos e politicamente poderosos do país. Pode mesmo hoje desafiar o antigo chefe, impondo a mulher como uma das suas potenciais sucessoras.

Outra forma de multiplicar fortunas que a nova elite arranjou foi a do mercado negro dos dólares. Como o preço da moeda dos EUA está ofi cialmente congelada em 0,4 milhões de zims, os poucos privilegiados que têm acesso a ela a esse preço conseguem depois facilmente revendê-la, na rua, entre 1 e 1,5 milhões. Um milagre da multiplicação do dinheiro.

Zimbabué, o país maldito © Luís Barra / Arquivo VISÃO Zimbabué, o país maldito

À medida que se desce na escala social, os esquemas continuam.

Desde o professor que não dá aulas na escola para obrigar os pais a pagarem explicações privadas, ao médico que só atende mediante suborno, passando pelas enfermeiras que sonegam os medicamentos para o mercado negro, o empregado de bar que aumenta a conta, o gerente de hotel que guarda para si o dinheiro dos suplementos.

E as mulheres como Charleen, que dão o nome e o corpo a troco de alguma gratifi cação.

«A corrupção está espalhada de forma tão endémica que se tornou cultural», diz K. Dembe, da Transparency International do Zimbabué. «As pessoas já não estranham. O que noutro país seria considerado um roubo aqui é normal.» Até os cigarros. Mal aterram nas prateleiras dos cafés de Harare, são comprados, por grosso, por trafi cantes que depois espalham miúdos na rua a vendê-los à unidade e ao dobro do preço.

DIA 5

A história do jornalista preso pareceu-nos irresistível. Arriscámos. As grades da sede do MDC são agora trancadas a cadeado e um vidro partido na entrada ainda lembra a invasão de 28 de Março, quando centenas de polícias entraram à procura de armas que não encontraram.

Luke Tamborinyoka, antigo editor do Daily News, fechado pelo Governo, estava na sede quando os polícias chegaram «bêbados e ordenaram às pessoas que pusessem todo o dinheiro, os passaportes e os bilhetes de identidade em cima das mesas». Mais de cem filiados foram presos e levados para a esquadra central de Harare, onde aguardaram a sua vez de ser interrogados na infame sala 93 onde se faz a destrinça dos que se destinam à tortura. Cerca de 30 tiveram este destino.

Tamborinyoka, casado e com três filhos, esteve três dias sem acusação formal. Quando, finalmente, ela chegou, não queria acreditar: «Sabotagem, ofensas múltiplas, denegrição do Presidente, tentativa de derrubar o Governo, banditismo, terrorismo...», a lista era infindável.

Durante esses dias, quase sem água e sem comida, o grupo foi golpeado com sjamboks (chicote), bastões e garrafas de coca-cola cheias de água. Por imposição dos advogados de defesa, as vítimas foram levadas para o hospital. «Mas à meia-noite veio a contra-ordem: devíamos ser levados outra vez para a prisão. O director do hospital ainda perguntou quem se julgavam eles, mas a resposta foi mostrarem-lhe uma pistola e dizerem-lhe: 'Somos o Estado'.»

Na cela C6, com 20 metros quadrados para 60 pessoas, havia duas mantas rotas, infectadas com pulgas, e os presos tinham de se encaixar uns nos outros para conseguirem dormir imitando de forma precisa a forma como os escravos eram levados nos porões das naus esclavagistas. Ao antigo jornalista foi dado o espaço junto à retrete cujo autoclismo não funcionava. Aí dormiu durante 71 dias. «Vi dez pessoas sucumbirem de má-nutrição, mas nunca perdi a esperança. Olhava uma frase gravada na parede: 'Zvichapera boyz dzangu', todo o sofrimento um dia acabará.»

ONG's: Inimigas do Estado

A liberdade de reunião, a liberdade de expressão, o direito ao voto secreto, a independência do poder judicial estão muito condicionadas ou são inexistentes. A oposição é frequentemente impedida de realizar comícios, espancada, raptada ou torturada. «Há uma tentativa deliberada de fazer ruir os poucos alicerces de um Estado de Direito que ainda restavam», diz Irene Petras, da Zimbabwean Lawyers For Human Rights (Advogados Zimbabueanos pelos Direitos Humanos), uma ONG que fornece apoio jurídico gratuito às vítimas de violações dos direitos humanos e que já viu quatro dos seus advogados espancados publicamente.

A imprensa está quase completamente controlada pelo Estado.

O único canal de TV a funcionar é capaz de dar dez minutos a um funeral de um parente de um político e nunca falar das actividades da oposição a não ser para a acusar de tentar derrubar violentamente o regime.

De resto, qualquer passagem de olhos superficial pelos jornais encontrará facilmente artigos em que o MDC é retratado como um partido «fantoche dos brancos» que quer retornar aos tempos do colonialismo. Os brancos são, aliás, descritos como os verdadeiros responsáveis pela situação económica do país.

Até as ONGs são apelidadas de «inimigas do Estado» e de quererem mudar o regime. O próprio ministro da Informação, Shkhanyiso Ndlovu, avisou no Herald que estará «atento às ONGs que tentem desestabilizar o país antes das eleições, apelidando-as de organizações de desestabilização patrocinadas pelo imperialismo».

DIA 6

O Luís ficou chocado e eu também.

Peter Dzama, 34 anos, foi brutalmente agredido a 19 de Fevereiro, em Zimbabwe Grounds, quando efectuava a présegurança de um comício do MDC. Quase um mês depois, a 29 de Março, pelas 10 da noite, um grupo de 20 green bombers apareceu-lhe em casa.

«Arrombaram a porta. Levaram-me para uma estrada de alcatrão, onde, um de cada vez, me agrediram com barras de ferro e me chicotearam. Mostravam-me uma lista de nomes e queriam que eu confirmasse que eles também estavam implicados. 'Onde é que eles estão?'»

Pelas 11, chega uma pick-up Toyota branca com cinco oficiais do CIO, e os youthies (jovens) disseram-lhes: 'Aqui está o tipo dos atentados, aqui o têm...' Começaram a espancar-me. Vendaram-me e entrei no carro. Chegámos a um sítio onde havia mais como eu. De vez em quando, punham-nos no chão e começavam a bater. Só pararam quando um deles disse: 'Deixem-no. Está morto'».

Dazma foi então arrastado, nu, sem cuecas e sem sapatos, para junto de uma árvore. «Tentei levantar-me mas não consegui, rastejei. De manhã, encontraram-me ao pé de um poço, em Musana, Mashonaland, no coração dos shona. Um miúdo foi chamar o chefe da aldeia, que me arranjou socorro e abrigo. A mulher fez-me comida, mas os maxilares não mexiam. Levaram-me para a clínica de Nyava, mas não havia tratamento, nem injecção nem analgésicos. Decidiram levar-me para o Hospital de Bindura, mais a norte. A Cruz Vermelha disponibilizou uma ambulância, mas o condutor, ao ver-me, disse que só com escolta policial. Estivemos umas horas nisto, até que ele cedeu e me levou ao Bindura General Hospital. Era sábado e o médico, cubano, só vinha no domingo. Estava cheio de dores, mas só havia paracetamol. Entretanto, o chefe da aldeia contactara a minha família e o MDC mandou um carro. Mas foram para Nyava. Como não tinham gasolina voltaram para Harare, para arranjar dinheiro. Só me resgataram no domingo.»

O drama de Dzama durou quatro dias. Durante a entrevista despiu-se e mostrou as marcas, profundas, das chicotadas. Mostrou a enorme cicatriz da placa de metal que teve de lhe ser enxertada no braço. Quando voltou a Highfield descobriu que os green bombers lhe tinham levado tudo o que possuía os cobertores, um rádio, uma chaleira eléctrica, as roupas, os sapatos e até um altímetro que guardava para oferecer à irmã. Esteve três meses sem trabalhar, no hospital, e perdeu o emprego, na Tedco Industries.

O braço não dobra bem, o olho direito, de vez em quando, chora sem razão.

A secreta e os bombeiros verdes

O Zimbabué, conta o professor universitário Lovemore Madhuku, presidente da National Constitutional Assembly, uma ONG que luta por uma Constituição democrática, é hoje «um estado de polícia, governado não pelo Governo, mas por um obscuro e pouco noticiado Joint Operation Command onde têm assento os principais 'securocratas' do regime ». Madhuku fala por experiência própria ele, que já visitou por várias vezes os calabouços de Mugabe e que foi alvo de uma tentativa de assassínio à bomba em casa. O regime, diz, muniu-se de uma série de leis e de organizações paramilitares que fazem de Harare uma das cidades mais paranóicas do globo, onde se tem a sensação de nunca se saber bem com quem se fala. Por exemplo, a Lei de Intercepção das Comunicações veio tornar absolutamente legal a prática de escutar telefonemas.

O Presidente tem à sua disposição, para além da polícia (50 mil agentes), do exército e dos veteranos de guerra, que se constituíram numa espécie de milícia de emergência do statu quo, duas organizações de fama terrível: os Green Bombers (20 mil jovens) e a Central Intelligence Organization (COI, com 20 mil operacionais).

Mas nem eles conseguem travar a raiva que se acumula contra o ditador. Engisi Marozva dá bem o exemplo: antigo apoiante do ZANU-PF, vive numa aldeia de 200 pessoas, a 80 quilómetros de Harare. Foi agredido em 2000, em 2001, em 2003 e em 2004, sempre pela mesma razão a comida que os doadores internacionais enviavam para a aldeia teimava em não chegar ao destino, o seu povo. «Os altos quadros é que fi cavam com ela, e eu revoltei-me», conta. Partiram-lhe os dentes da frente e deixaram-lhe mazelas nos olhos e dores permanentes no ouvido direito. Quebraram-no, vê-se-lhe no porte. Mas só fi sicamente. Quando lhe perguntamos se quer ser identificado, quase se irrita: «Podes ir em frente. Sou livre. Mesmo que eles me matem.»

(Reportagem publicada na VISÃO 769, de 29 de novembro de 2007)

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