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"O meu nome é Pedro Santana Lopes e assumo tudo o que fiz"

Logótipo de Diário de Notícias Diário de Notícias 23/10/2017 Paulo Tavares
Santana lopes apresentou ontem a sua candidatura à liderança do PSD © TIAGO PETINGA/LUSA Santana lopes apresentou ontem a sua candidatura à liderança do PSD

Pedro Santana Lopes começou a corrida à liderança do PSD - ou PPD/PSD, como o candidato fez questão de dizer de cada vez que usou a sigla - numa sala cheia com cerca de um milhar de apoiantes, no Centro Nacional de Exposições, em Santarém. O momento, quase ao mesmo nível do discurso, parecia desenhado para estabelecer diferenças em relação ao outro candidato - Rui Rio. Ele numa sala grande e cheia onde era visível o trabalho da máquina partidária, o outro numa pequena sala de hotel e sem sinais de mobilização das estruturas do partido; ele com um discurso longo, programático - quase uma hora - e o outro com uma intervenção de 18 minutos só para justificar a candidatura; ele com tempo e paciência para responder a todas as perguntas que os jornalistas lhe colocaram e o outro a sair apressado da sala prometendo respostas para mais tarde.

Se o evento mostrou sinais dessa preocupação de diferença em relação a Rui Rio, o discurso foi claro nessa intenção. O lema da candidatura é "Unir o partido. Ganhar o país", mas Pedro Santana Lopes quer um passo prévio - uma clarificação interna. "Disse num congresso em 2005, quando cessei funções, que iria andar por aí. Hoje quero dizer que estou aqui e vim para clarificar. Quero unir, mas quero unir depois de clarificar. O PPD/PSD precisa disso e Portugal também." Quase no arranque do discurso, um ajuste de contas com a história. "Aprendi em 2004 e 2005 que a legitimidade do voto não se herda, conquista-se, e por isso também estou aqui. Quanto a 2004 e 2005, vou propor um pacto, não de regime mas de natureza secundária. Não falo do passado, não vou falar, não vou comparar as causas da dissolução do Parlamento na altura." Dito isto, Santana Lopes deixou um apelo aos apoiantes. "Faço uma breve sugestão. Assumam para todos o que vejo escrito por aí muitas vezes: "Ai se isto fosse com o governo de Santana Lopes..." Peço que todos tenhamos decoro e contenção, eu assim o vou fazer." E se teve decoro, não se conteve nas críticas ao adversário na corrida à liderança.

"O meu nome é Pedro Santana Lopes. Assumo tudo o que fiz até hoje, como julgo que todos devemos assumir na vida, as horas melhores e as menos boas, as vitórias, as não vitórias e as derrotas." A frase foi dita depois de uma pausa dramática, um silêncio que deixou a sala em suspenso. Os aplausos e as palavras de ordem viriam a seguir, quando começou a fase de "tiro ao Rio" e a quem o apoia. Que todos assumam o que fizeram no passado era essa a clarificação que Santana Lopes diz ser necessária para dirigentes e militantes. "Somos um partido com cara. Julgo que ninguém quer que o seu partido seja um partido sem regras, sem memória, sem princípios, sem valores, sem história, sem património. Um partido assim seria um partido com vergonha de si próprio ou sem vergonha. Nós não. Somos um partido decente, que honra a sua história, o seu património, os seus momentos melhores e menos bons, mas que se honra do trabalho de salvação nacional feito por Pedro Passos Coelho." Houve um aplauso com algumas pessoas de pé. Era esta a clarificação, com Santana Lopes a garantir que o que vai dizer nos próximos meses de campanha será o que sempre disse até aqui. Estava traçada a principal linha de demarcação e crítica ao adversário. Mais clareza? Sim, e desta vez não só contra Rui Rio, mas também contra Pacheco Pereira e António Capucho: "Nunca fui para a Aula Magna fazer sessões com o Bloco de Esquerda, nunca fui para a associação 25 de abril ouvir elogios de Vasco Lourenço na altura em que o partido salvava Portugal da bancarrota, nunca fui para a fundação Mário Soares, com audiências de outros partidos, para dizer, quando em 2013 estávamos a conseguir a saída limpa, para dizer e cito: "Que a democracia está mais difícil e que estamos a caminho de uma ditadura corporativa" e fazer coro com os grandes adversários do meu partido. Nunca o fiz." Foi das poucas vezes que Santana Lopes olhou para baixo, para o palanque onde tinha algumas notas escritas. Falou mais de 50 minutos, sem discurso escrito e sem falta de assunto, pelo menos no que toca aos ataques a Rui Rio. Aliás, Santana Lopes diz que não acredita sequer que o partido vá entregar-se nas mãos do antigo autarca do Porto. "É aqui que importa fazer a clarificação. Quero unir sem equívocos e acreditando que o meu partido é aquilo que eu conheço há muitos anos e que o meu partido não se entrega nas mãos daqueles que, quando mais precisou dos seus militantes, lhe viraram a cara e foram dar o braço aos seus adversários políticos." A tecla foi tocada diversas vezes. Numa outra parte do discurso, para fixar a ideia no caso de alguém não ter percebido, Santana Lopes insistiu: "Há uma coisa que nunca fiz, que é andar a patrocinar movimentos para derrotar candidatos do meu partido", uma referência autárquica que voltou a animar a plateia.

E as críticas continuaram, sem nunca pronunciar o nome do adversário - Rui Rio tinha feito o mesmo em Aveiro. Santana Lopes passou boa parte do discurso a descrever a sua carreira política, rematando sempre cada um dos momentos com um claro "... e cumpri o mandato". O antigo primeiro-ministro terminou a resenha histórica com uma resposta direta a Rui Rio: "Fui convidado pela generalidade dos líderes para algumas tarefas espinhosas. Há por aí quem diga que há 16 anos que não ganho eleições. Faço esta retrospetiva para dizer que quando o partido precisa de mim estou presente, não estou apenas quando preciso do partido. E nunca deixo de ir a um congresso porque penso que posso ofuscar o líder com a minha presença." Estava tudo dito? Não. Pedro Santana Lopes recua mais um pouco na história, até 1983. "Eu suspendi o meu mandato de deputado porque era contra o governo do Bloco Central, não hoje porque sou candidato. Já naquela altura era contra o Bloco Central."

Um partido reformista

Numa cerimónia que não contou com alguns dos pesos-pesados que já decidiram o seu voto nas diretas de janeiro, como Miguel Relvas ou Carlos Moedas, havia nas primeiras filas diversos deputados do PSD e um leque de figuras esquecidas dos tempos do santanismo e do cavaquismo. O parque de estacionamento do CNEMA estava relativamente cheio, mas nem todos chegaram pelos seus próprios meios. Ao início da tarde, umas duas horas antes dos discursos e discretamente, alguns autocarros deixaram apoiantes devidamente equipados com bandeiras do PSD numa das rotundas de acesso ao Centro de Exposições. Ao contrário do que se passou em Aveiro, na apresentação da candidatura de Rui Rio, a plateia teve direito a tudo. Aos recados internos, sobre a vida e o futuro do partido, a críticas e a desafios ao adversário, como a sugestão para que as 18 distritais organizem outros tantos debates entre os candidatos, mas também a um completo desfilar de ideias para o país. A mensagem a quem ali estava era clara. "Optem por boas razões, por razões importantes, pelas propostas e também, claro, por quem tem mais hipóteses de governar." Daí a algumas frases duras contra o atual governo foi um passo. "Eu não gosto de lhes chamar geringonça. Eles adotaram o termo e até acham que envolve algum carinho. Para mim, eles são uma frente de esquerda, com comunistas e com a extrema-esquerda, de quem o PS se aproveita para governar o país com um programa que não é o seu." Se o que Costa quer é a bipolarização, diz Santana Lopes, então o PSD deve preparar uma alternativa. "Ele assumiu que queria governar à esquerda. Quem assume uma coisa tão séria, como tudo na vida, tem de assumir as consequências. O que nós temos de fazer é preparar uma alternativa. Este governo é mau para o nosso país. Somos o único país europeu onde isto acontece. Temos obrigação de encontrar melhor para Portugal. Para construir essa alternativa temos de ter um PPD/PSD adaptado ao país. Um PSD cada vez mais PPD."

Afirmando que o PSD é um "partido que nasceu para ganhar não para ser segundo de ninguém", Pedro Santana Lopes prometeu que não será um líder constantemente zangado e crispado e que quando houver boas notícias sobre o país, mesmo que o PSD esteja na oposição, havemos de vê-lo a sorrir e a celebrar essas conquistas. Diz ainda que não quer o líder do partido a falar todos os dias sobre todos os assuntos e defendeu a existência de lideranças ou porta-vozes setoriais. Santana Lopes quer um PSD reformista: "Somos insatisfeitos, queremos transformar a sociedade, mas não a queremos destruir. Somos reformistas por natureza." O candidato quer um partido mais próximo das universidades, um programa para o país onde a aposta na investigação científica seja uma prioridade e apontou os caminhos para uma agenda do PSD enquanto líder da oposição. "Organização e coesão do território, aposta no crescimento, na agregação do conhecimento e do talento." Pouco antes de terminar o discurso, quase a dobrar a uma hora de palavra, Pedro voltou a deixar o bilhete de identidade: "O meu nome é Pedro Santana Lopes e espero ser o próximo presidente do PPD/PSD."

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